O início do próximo governo éuma janela real. Não porque haja solução mágica na gaveta, mas porque pelaprimeira vez existe base compartilhada para agir e as conversas com ascampanhas indicam que o tema não chegará como novidade
Por Paulo Pedrosa
18/09/2026
Artigo do dia
Em julho escrevi nestas páginasque o Brasil tem muita energia para perder tantas oportunidades. Aquele artigonasceu de um episódio — mais uma leva de jabutis aprovada às pressas — e tratoudo sintoma. Quero agora aprofundar os pontos que levantei lá, organizando o queos estudos da Abrace Energia vêm apontando sobre o rumo do setor elétrico.
E o momento eleitoral pedeisso: em breve estará em construção um novo ciclo, sendo um presidente novo ouse o atual presidente for reeleito. E a agenda que ele herdar definirá se oBrasil aproveita ou desperdiça o que tem de melhor, seu potencial de produzirenergia limpa e barata. Deixo a boa notícia para o fim. Antes dela, nove razõesde preocupação:
1.A CDE não foi contida — foi contida pela metade. Oteto aprovado foi um avanço real, mas alcança apenas parte da conta: a outrametade segue crescendo. E a base de pagadores está encolhendo. Quando onumerador cresce e o denominador diminui, o resultado é aritmético; em reais porMWh, para quem paga, a CDE continuará explodindo.
2. O leilão de reserva decapacidade é a próxima CDE— só que maior. Esse encargo caminha para superar a própria CDE. A cobrança vemsendo feita de maneira equivocada e contrata-se solução de quem não resolve oproblema. Explosão de custo e mais distorção. Estamos criando, com nome novo, opassivo que levamos duas décadas para admitir que existia.
3. A transmissão vai custarmuito mais. Arede fica cada vez mais complexa, as fontes estão distantes da carga e seuplanejamento é extremamente conservador. Teremos mais rede, porém mais ociosa.O custo por unidade de energia entregue sobe.
4. A distribuição também. Modernizar as redes eprepará-las para a resiliência climática é necessário. Mas amplia a base deinvestimentos remunerada das distribuidoras, que chega ao consumidor como custode energia.
5. Seguem as imposições deenergia cara.O exemplo mais eloquente é a eventual retomada de Angra 3, com energia que podepassar de R$ 800 por MWh, rateada entre todos. Não é escolha do mercado nem doconsumidor, é imposição cujo custo é socializado e cuja conta chega em um lugarsó.
6. O próprio custo da energiasobe. Poderiaser muito barata, mas não está sendo. Além do custo de capital de um país dejuro alto, os geradores passaram a precificar a modulação, a diferença entresubmercados e o corte de geração. Riscos legítimos, mas, em boa medida, produtodas nossas próprias regras, que voltam ao consumidor no preço de longo prazo.
7. O setor está desorganizado. O mercado está quebrado empedaços que quase não conversam: geração distribuída, mercado regulado, energiaincentivada, autoprodução, autoprodução incentivada e mercado livre. Cada umpaga uma parcela diferente dos custos do sistema. Toda diferença artificial decusto entre compartimentos é convite à arbitragem e o resultado é ineficiênciacrescente e menos liquidez.
A geração distribuída é o casomais eloquente e por isso volto a ela. Sua expansão deixou de guardar relaçãocom qualquer política pública e passou a ser puxada pelo subsídio implícito. Aolado dela cresce a GD gato, a instalação que se veste da moldura regulatóriapara capturar o benefício sem entregar o que a regra pretendia. É precisoconter as duas: a explosão da GD subsidiada e a fraude que prospera à suasombra.
Os cortes de geração são a facemais cara dessa fragmentação. Já argumentei aqui que o curtailment é sintoma enão causa. O que ficou mais claro desde então é a sua dimensão distributiva. Opaís despreza energia limpa já contratada e já paga. O prejuízo recai sobrequem investiu, inclusive a indústria que foi para a autoprodução renovável paracumprir metas climáticas. E o risco retorna precificado no contrato de quemcompra. Cortar não tem efeito neutro, é transferência de valor entrecompartimentos que ninguém decidiu e ninguém controla.
8. Há indícios de exercício depoder de mercado.O tema precisa sair do sussurro das conversas do setor para a análise. Fala-seem contenção da oferta e em atuação sobre a regulação para elevar o custo daenergia, como a consideração exagerada de fatores de risco na operação. Não setrata de acusar ninguém e sim de reconhecer que mercado opaco e segmentado éterreno fértil para isso. Faltam instrumentos de monitoramento à altura.
9. A desorganização produzcomportamentos oportunistas.Muitos deles legítimos. Quando o sistema cobra de forma assimétrica, cadaagente busca a rota de menor custo. Mas a fuga individual não faz o custodesaparecer e sim transfere, concentra e amplia. O somatório de decisões racionaisproduz um resultado coletivamente ineficiente.
O caminho: sinais econômicoscorretos
A solução não é mais umremendo. É reorganizar o setor a partir de sinais econômicos corretos, sob umprincípio simples e exigente: cada agente ganha conforme o benefício que trazao sistema e paga pelo custo que aporta a ele.
Isso muda a natureza do jogo.Hoje o esforço dos agentes é gasto em arbitrar contra o sistema — migrar decompartimento, buscar o enquadramento que paga menos encargo, fugir de custosque continuarão existindo depois que se vai.
Com sinais corretos, acompetitividade passa a arbitrar a favor do sistema. Para a indústria, éconcreto consumir mais quando a energia tem custo marginal próximo de zero, nashoras em que o país estaria simplesmente cortando geração limpa, e reduzirconsumo, ofertando a sobra, quando essa energia compete com a térmica.
O consumidor industrial deixade ser custo a ratear e passa a ser fonte de flexibilidade, remunerado pelovalor que entrega, isto é, a forma mais barata de obter o que hoje tentamoscomprar com leilões emergenciais e encargos.
A boa notícia
Existe hoje uma convergênciainédita em torno do diagnóstico no governo, no mercado e no Congresso, onde jáhá percepção de que certas distorções custam caro ao país. Nestas mesmaspáginas, Jerson Kelman tem descrito um setor que, de remendo em remendo, virouum "Frankenstein", e tem sistematizado os pilares de uma reforma.
Mais importante ainda é aconvergência dentro do setor. As lideranças das grandes empresas, por meio desuas associações, estão dialogando e nesse diálogo se dissolve a lógica que nostravou por tanto tempo, a de resolver o problema de casa exportando o custopara o vizinho.
Já não se sustenta defender opróprio jabuti e condenar o do outro. Esse amadurecimento já produziumovimentos concretos: o teto da CDE, ainda que parcial, e as discussões sobre acontenção dos custos da geração distribuída.
Por isso o início do próximogoverno é uma janela real. Não porque haja solução mágica na gaveta, mas porquepela primeira vez existe base compartilhada para agir e as conversas com ascampanhas indicam que o tema não chegará como novidade.
Um Plano Real da energia
E qual é a resposta? Crescer.
Repito de propósito o queescrevi em julho: o Brasil precisa estimular o consumo de energia - e não oconter -, eletrificar processos hoje movidos a fósseis, recuperar a capacidadeociosa pela qual já estamos pagando e devolver competitividade à indústria.
É o crescimento do consumo quedilui os custos fixos sobre uma base maior, que reduz o custo unitário paratodos e faz girar as engrenagens da economia.
Seria, no sentido mais literal,um Plano Real da energia, um choque de ordenamento que estabiliza custos,restabelece sinais de preço e devolve previsibilidade a quem investe e a quemconsome. Este é o caminho de recuperação não só do setor elétrico, mas de todaa sua cadeia.
Fonte: Brasil Energia