Por: Carlos Nobre
Há décadas temos estudado o fogo na Amazônia e sua relação com o clima. Durante boa parte desse tempo, El Niño era um nome que circulava principalmente entre cientistas e meteorologistas. Hoje é diferente. Talvez nunca tenhamos falado tanto e tão cedo sobre o fenômeno. E isso é uma boa notícia.
As imagens de rios em níveis extremamente baixos, comunidades isoladas, fumaça cobrindo cidades e milhões de hectares de florestas queimadas em 2023 e, principalmente, em 2024 ainda estão muito presentes na nossa memória. Talvez por isso estejamos prestando mais atenção ao El Niño que começou em 2026 antes que seus impactos mais graves apareçam.
Mas há um paradoxo neste momento: enquanto cresce a preocupação com um El Niño que já se consolida como muito forte, o fogo ainda não explodiu. Até agora, 2026 vem apresentando uma atividade de fogo relativamente baixa na Amazônia, e setembro caminha próximo aos menores níveis de focos de calor da série histórica. Também não observamos ainda uma situação generalizada de seca extrema em toda a região amazônica. Em várias áreas, as chuvas demoraram mais a cessar, retardando o início da estação seca e, com ela, o período de maior ocorrência de queimadas. Algo semelhante já havia acontecido em 2025.
Seria um erro, porém, interpretar esses sinais como evidência de que o risco passou. O El Niño está apenas começando a mostrar seus efeitos mais importantes sobre a região. As previsões indicam que o fenômeno continuará se fortalecendo durante a primavera e o verão e poderá persistir pelo menos até o primeiro semestre de 2027. Na Amazônia, isso importa não apenas pelo que pode acontecer nos próximos meses, mas pelo efeito acumulado que uma estação chuvosa mais seca pode deixar para o ano seguinte.
O calendário do fogo na Amazônia também não é o mesmo em toda parte. Enquanto o sul e o leste da região concentram grande parte dos incêndios entre julho e setembro, o centro e norte da Amazônia entra em sua estação de fogo mais tarde. Roraima, o norte do Amazonas e outras áreas do extremo norte podem enfrentar condições mais críticas justamente no final do ano e no início do próximo.
É aqui que precisamos lembrar uma coisa fundamental: o El Niño não coloca fogo na floresta. Para haver fogo, precisamos basicamente de três ingredientes. O primeiro são condições meteorológicas favoráveis: pouca chuva, temperaturas elevadas, baixa umidade do ar e, muitas vezes, vento. O segundo é combustível: folhas, galhos, gramíneas e outros materiais suficientemente secos para sustentar a combustão. O terceiro é uma fonte de ignição.
No Brasil, essa terceira ponta do triângulo é predominantemente humana. Essa talvez seja a informação mais importante neste momento. Não controlamos o El Niño. Também não podemos impedir que as mudanças climáticas tornem alguns períodos mais quentes e secos. Mas podemos reduzir drasticamente as ignições e manejar melhor as paisagens.
Uma floresta pode estar extremamente seca e inflamável, mas sem uma fonte de ignição ela não queima. Romper essa terceira ponta do triângulo significa restringir o uso do fogo durante períodos críticos, combater queimadas ilegais, preparar brigadas, antecipar recursos, trabalhar com produtores rurais e comunidades, identificar os territórios mais vulneráveis e usar os sistemas de monitoramento e previsão para agir antes e não depois que os incêndios estejam fora de controle.
É por isso que o fato de termos relativamente pouco fogo neste momento não deveria diminuir nossa mobilização. Deveria aumentá-la. Estamos diante de uma rara oportunidade de preparação. O país hoje dispõe de informações que não tinha há algumas décadas. Satélites permitem acompanhar praticamente em tempo real onde o fogo começa e como ele se espalha. Temos séries históricas que mostram quais territórios queimam repetidamente. Conseguimos acompanhar umidade do solo, chuva, temperatura, rios e condições da vegetação. E as previsões climáticas nos dão meses de antecedência para organizar uma resposta. Previsão, entretanto, só se transforma em prevenção quando produz ação.
Também precisamos abandonar a ideia de que incêndios na Amazônia são um problema restrito à floresta. O fogo chega às cidades na forma de fumaça, afeta a saúde, interrompe estradas e aeroportos, ameaça redes de energia, compromete a produção agrícola e pode isolar comunidades quando a seca reduz drasticamente os níveis dos rios. O custo acaba chegando ao bolso e à vida de milhões de brasileiros, inclusive daqueles que vivem muito longe da frente do fogo.
Há ainda uma questão maior. O El Niño é temporário. O aquecimento do planeta, não. Eventos como o que estamos acompanhando hoje atuam sobre uma Amazônia diferente daquela que enfrentava os El Niños de 30 anos atrás. A floresta está mais fragmentada em muitas regiões, algumas áreas queimaram repetidamente e o planeta está mais quente. El Niño adiciona pressão a esse sistema e pode empurrar algumas paisagens para estados cada vez mais degradados e inflamáveis. Além disso, eventos extremos como este estão cada vez mais frequentes.
Por isso, talvez a principal lição de 2023 e 2024 não seja simplesmente que devemos ter medo do próximo El Niño. É que precisamos aprender a nos antecipar a ele. E, se os incêndios que tememos não acontecerem na dimensão prevista, não deveremos concluir que nos preocupamos demais. Se houver menos ignições, melhor preparação, resposta mais rápida e mudança no comportamento da sociedade em relação ao uso do fogo, o desastre evitado será justamente a medida do nosso sucesso.
O incêndio que melhor podemos combater é aquele que, apesar de todas as condições para acontecer, nunca começa. O fogo ainda não chegou com a intensidade que tememos. Que isso não seja motivo para baixar a guarda. Que seja o tempo que precisávamos para nos preparar.
Colaborou Ane Alencar, diretora de Ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e uma das pesquisadoras pioneiras no estudo dos incêndios florestais na Amazônia. Geógrafa pela UFPA (Universidade Federal do Pará), tem mestrado em Sensoriamento Remoto pela Boston University e doutorado em Conservação de Recursos Naturais pela University of Florida. Há quase três décadas, sua pesquisa tem se concentrado na dinâmica dos incêndios florestais e em suas interações com o desmatamento, a degradação florestal e as mudanças climáticas na Amazônia. Coordena a iniciativa MapBiomas Fogo e é membro do Science Panel for the Amazon.
Fonte: ECOA | Carlos Nobre