Portal de Notícias sobre o
Setor Elétrico

Veja aqui as informações e notícias mais recentes sobre o setor elétrico. A curadoria do conteúdo é feita por nossos especialistas, considerando a importância do tema para o mercado.

Leilão de energia fóssil compromete a política climática do Brasil

15/7/2026

O Brasil vive, de forma dramática, os impactos da crise climática. Secas que ameaçam nossa segurança hídrica e a comida que chega à mesa. Enchentes que destroem vidas e economias inteiras. Ondas de calor que castigam a saúde de todos e incêndios que devoram a Amazônia e os demais biomas do país. Esses eventos não são mais exceções: eles se tornaram a nova realidade do aquecimento global, alimentado pela queima incansável de combustíveis fósseis.

Por um lado, o Brasil assumiu a liderança na COP30, em Belém, junto com dezenas de nações, ao propor o "Mapa do Caminho" para o fim gradual e rápido dos combustíveis fósseis. Por outro, o governo realizou o LRCap (Leilão de Reserva de Capacidade de Energia Elétrica), que abre caminho para um grande volume de novas usinas termelétricas fósseis.

O LRCap foi apresentado como uma medida de segurança energética. O mecanismo paga as usinas simplesmente para estarem disponíveis e poderem gerar energia quando o sistema mais precisa — especialmente entre 18h e 21h, quando o sol se põe, o vento diminui, as luzes das casas acendem e o consumo dispara. Na prática, porém, ele se transformou num forte incentivo à construção de novas térmicas a gás, carvão e diesel. Em vez de nos ajudar a abandonar os fósseis, o leilão garante que eles continuem poluindo o ar e emitindo GEE (gases de efeito estufa) de nosso sistema elétrico por décadas.

Ao assinar contratos de longo prazo com fontes fósseis, o país manda um sinal claro ao mercado: seguimos na direção oposta àquela que defendemos nos fóruns internacionais e na COP30. Isso cria um sério problema de credibilidade. Não adianta falar bonito lá fora sobre o fim dos fósseis enquanto, aqui dentro, construímos uma expansão estrutural baseada em fontes poluentes.

Essa escolha tem um impacto frontal sobre a Política Nacional de Mudança do Clima e afeta diretamente as metas das NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) do Brasil, apresentadas pelo país à ONU por meio da Convenção-Quadro sobre Mudança do Clima. A contradição é alarmante: enquanto o leilão contrata poluição para as próximas décadas, as NDCs estabelecem metas de redução de emissões em toda a economia, com cortes significativos de 53% até 2030 em relação às emissões em 2005, avançando para metas ainda mais ambiciosas de 67% para 2035 e reafirmando o objetivo de neutralidade climática até 2050.

Ao viabilizar novas térmicas fósseis de longa duração, o LRCap dificulta o cumprimento dessas metas e compromete o caminho para o net zero. Não se trata apenas de números: trata-se de coerência. Uma política climática séria não pode aceitar decisões que aumentam as emissões de carbono justamente no setor que deveria liderar a descarbonização.

Outro aspecto crítico é o choque com o mercado de carbono que o Brasil está construindo. Com a regulação avançando, o preço do carbono vai se tornar um instrumento central para guiar investimentos. A dependência de combustíveis fósseis criada pelo LRCap significa que, em poucos anos, essas usinas se tornarão ativos encalhados, caros de operar, incompatíveis com as regras de carbono e fonte de custos adicionais para toda a sociedade. O contribuinte vai pagar duas vezes: na conta de luz e no ajuste do mercado de carbono, enquanto perdemos a oportunidade de investir em soluções verdadeiramente sustentáveis.

Como climatologistas que acompanham há décadas os efeitos da mudança do clima no nosso país, vemos aqui um descompasso estratégico perigoso. A segurança energética é legítima, mas não pode servir de pretexto para atrasar o que é inevitável: o fim dos combustíveis fósseis. O "Mapa do Caminho" internacional que o Brasil ajudou a articular na COP30, com apoio de mais de 80 países, mostra que temos visão e liderança global. Agora precisamos ter coerência aqui em casa.

O Brasil tem tudo para ser protagonista da transição energética: sol de sobra, vento forte e muita água. Em vez de apostar em fósseis inflexíveis, deveríamos priorizar baterias de armazenamento em grande escala, resposta inteligente da demanda, modernização da rede e renováveis despacháveis. Essas alternativas são mais baratas, flexíveis e perfeitamente alinhadas ao futuro de baixo carbono que nossos compromissos internacionais e o mercado de carbono exigem.

A crise climática não aceita contradições. Enquanto o mundo acelera a transição energética, o Brasil não pode se dar ao luxo de defender liderança global e, ao mesmo tempo, apostar em mais décadas de combustíveis fósseis. O LRCap é um erro estratégico. Ainda é possível corrigir o rumo: colocar as soluções limpas no centro das decisões, alinhar toda a política energética à Política Nacional de Mudança do Clima e transformar o discurso da COP30 em ação concreta. O caminho para o fim dos fósseis começa agora, dentro de casa. Só assim o Brasil deixará de ser parte do problema e se tornará, de fato, parte da solução, antes que o custo para o clima, para a economia e para as gerações futuras se torne irreversível.

Cientistas brasileiros lançaram no início de novembro de 2025 na Academia Brasileira de Ciências, e relançaram durante a COP30, o estudo "Brazil Net Zero by 2040", que mostra que o Brasil tem todas as condições de zerar as emissões líquidas dos GEE até 2040, com rápida transição para zerar uso de combustíveis fósseis em todos os setores, especialmente em termelétricas.

Fonte: Ecoa | Carlos Nobre

Resumo das Notícias de Hoje

28/7/2026

Dia 28 de julho de 2026, terça-feira

- A THOPEN PEDE PROTEÇÃO DA JUSTIÇA (negócios e empresas)

A Thopen conseguiu proteção da Justiça por 60 dias contra execuções de dívidas. Essa medida foi concedida pela 6ª Vara Empresarial no Rio de Janeiro. A companhia argumenta que atravessa um período de escassez de liquidez, decorrente de fatores de mercado e decisões estratégicas por administrações anteriores que, segundo a empresa, comprometeram gravemente a liquidez da operação e o equilíbrio da sua estrutura de capital.

> Saiba mais na matéria “Thopen pede proteção para entrar com Recuperação Judicial”: https://shorturl.at/pK8O8

- “JABUTIS” DO PL DA IRRIGAÇÃO (geração)

Associações do setor elétrico enviaram carta conjunta ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) em defesa das emendas que retiram os “jabutis” do PL 5.017/2019. O texto do projeto da Câmara dos Deputados tratava de descontos tarifários para irrigação e poços artesianos. A Comissão de Infraestrutura aprovou o texto em votação relâmpago, com contratações obrigatórias de térmicas a gás e pequenas hidrelétricas.

> Leia mais em “Associações defendem emendas que retiram “jabutis” do PL da irrigação”: https://shorturl.at/jUbL2

- ACORDO BRASIL E COREIA (política)

Brasil e República da Coreia deram um novo passo na parceria estratégica no setor energético. Os dois países assinaram nesta segunda-feira, 27 de julho, um Memorando de Entendimento (MoU) sobre cooperação na área de energia, com foco na aceleração da transição energética e no desenvolvimento de tecnologias limpas. O acordo estabelece um novo marco para o desenvolvimento de ações conjuntas em áreas estratégicas do setor energético. Entre os temas prioritários estão energias renováveis, eficiência energética, transmissão e distribuição.

> Continue a leitura na notícia “Brasil e República da Coreia assinam acordo para ampliar cooperação em transição energética e minerais críticos”: https://shorturl.at/vtmoZ”

- OUTRAS NOTÍCIAS DE HOJE

Engie acerta com WEG para fornecer turbinas da expansão da UHE Jaguara: https://shorturl.at/FJF0O

Investimento será de R$ 1,2 bilhão e inicio da operação está previsto para 2030.

Cosip deve custear, prioritariamente, a Iluminação pública, diz entidade: https://shorturl.at/u4CkL

A reforma Tributária flexibilizou o uso dos recursos da contribuição municipal que pode custear também sistemas de monitoramento de segurança e preservação dos espaços públicos.

Armazenamento em baterias deve crescer 42% entre 2025 e 2030, avalia GlobalData: https://short-url.cc/1Amcx

Fonte: CanalEnergia

Gostou deste conteúdo?

FRAGMENTOS EXTRAÍDOS DA REVISTA O SETOR ELÉTRICO – EDIÇÃO 220 DE 24/07/2026 (Continuação)

28/7/2026

- TERRAS RARAS: RESERVAS ABUNDANTES E CADEIA PRODUTIVA LIMITADA

Por Matheus de Paula

REPORTAGEM

     Com potencial para atrair R$ 57 bilhões em investimentos até 2035, somente no segmento de armazenamento, país precisa avançar no processamento de minerais críticos e na fabricação de tecnologias para a transição energética.

     No entanto, segundo o geólogo, ampliar o conhecimento sobre o subsolo brasileiro é apenas parte da equação. O maior desafio está em desenvolver uma cadeia produtiva capaz de agregar valor aos minerais extraídos, reduzindo a dependência do processamento realizado no exterior.

     "A continuidade dos leilões daqui para frente, incorporando essa exigência de conteúdo nacional, é importante para que investidores locais e empresas estrangeiras que queiram se estabelecer no Brasil tenham uma visão de futuro. Começamos bem, com um leilão que já contempla um produto voltado a conteúdo nacional, para depois dar a sinalização de investimentos necessária a consolidar uma indústria nacional de baterias competitiva para os leilões futuros", afirma o diretor da Deloitte.

RESERVAS ABUNDANTES X CADEIA PRODUTIVA LIMITADA

     A possibilidade de estruturar uma indústria nacional de baterias, no entanto, esbarra em um desafio que antecede a própria fabricação dos equipamentos: o desenvolvimento da cadeia de minerais críticos. Para Caiubi Kuhn, presidente da Federação Brasileira de Geólogos (Febrageo), a posição ocupada pelo Brasil no ranking mundial de reservas representa apenas os recursos já identificados e comprovados por estudos geológicos. O potencial do território brasileiro, segundo ele, pode ser ainda maior.

     "Se olharmos o cenário atual do mapeamento geológico brasileiro, falando de terras raras especificamente, ainda temos muito a evoluir. Muitas áreas ainda não estão devidamente mapeadas e estudadas. Isso significa que existe a possibilidade de, no futuro, o Brasil se transformar no principal país do mundo em reservas de terras raras, ou de outros recursos importantes para a transição energética. A quantidade de depósitos e de reservas que o país possui pode ser ampliada, à medida que as pesquisas avancem e os mapeamentos sejam realizados", afirma Caiubi.

     Para isso, defende o geólogo, o país precisa avançar no mapeamento geológico nacional. Atualmente, Minas Gerais é o único estado mapeado na escala 1:100.000, considerada adequada para identificar depósitos minerais com maior precisão. Em contrapartida, grande parte da Amazônia Legal e outras regiões estratégicas do país, ainda possuem levantamentos em escalas muito inferiores e menos detalhadas.

     "Conforme esse mapeamento avançar, podemos ter novas descobertas. O maior contraste é justamente entre a região da Amazônia Legal e o estado de Minas Gerais, mas há outros estados no meio-termo que também precisam avançar no mapeamento", explica.

     No entanto, segundo o geólogo, ampliar o conhecimento sobre o subsolo brasileiro é apenas parte da equação. O maior desafio está em desenvolver uma cadeia produtiva capaz de agregar valor aos minerais extraídos, reduzindo a dependência do processamento realizado no exterior.

     Essa avaliação é compartilhada pelas empresas que atuam no desenvolvimento de projetos de terras raras no país. Para Klaus Petersen, Country Manager e Diretor-Executivo da Viridis Mining & Minerals, responsável pelo Projeto Colossus, em Poços de Caldas (MG), a mineração representa apenas o primeiro elo de uma cadeia produtiva muito mais ampla, que envolve beneficiamento químico, separação dos óxidos, refino e, posteriormente, a fabricação de componentes de alto valor agregado.

     Segundo o executivo, o Brasil ainda precisa avançar significativamente nessa estrutura industrial, para aproveitar plenamente o potencial de suas reservas. "Atualmente, o Brasil ainda não conta com uma cadeia industrial capaz de realizar as etapas posteriores de processamento desse material. A expectativa é que o desenvolvimento dessa capacidade leve pelo menos uma década”.

     Na tentativa de reduzir essa lacuna, a Viridis negocia a implantação de uma unidade de separação por solventes, etapa essencial para a obtenção dos óxidos de terras raras, e desenvolve, em parceria com uma empresa australiana, um projeto de reciclagem de ímãs permanentes em Poços de Caldas, cuja planta demonstrativa tem previsão de entrar em operação em 2027.

     DESAFIO DA INDUSTRIALIZAÇÃO

Embora o avanço da mineração seja condição necessária para atender à crescente demanda por sistemas de armazenamento, outro elo importante para atender essa cadeia de suprimentos é desenvolver a capacidade de transformar esses recursos em materiais aptos para a fabricação de baterias.

     Para Alberto Bianchi, fundador da Powerhouse e professor da Poli/USP, um dos equívocos mais comuns é associar a vulnerabilidade da cadeia apenas à escassez de minerais. Na prática, o principal gargalo está nas etapas intermediárias de processamento e refino, responsáveis por converter os recursos extraídos em insumos com qualidade adequada para a indústria de baterias.

     "Do ponto de vista mineral, lítio, níquel e manganês não são simplesmente 'raros'. O aperto está em outro ponto: refino, transformação química, grau bateria, qualidade, escala industrial e domínio tecnológico. Muita gente confunde ter reserva no chão com capacidade de processar, certificar e entregar para uma cadeia exigente. São coisas bem diferentes. O gargalo de verdade costuma ficar no meio do caminho, entre a mina e a fábrica", afirma o especialista.

     Na avaliação de Bianchi, o Brasil reúne vantagens competitivas que poucos países conseguem combinar. Além da disponibilidade de recursos minerais, possui uma matriz elétrica predominantemente renovável, experiência industrial e um mercado que tende a demandar volumes crescentes de armazenamento de energia nos próximos anos.

     "O Brasil é um gigante geológico que ainda hesita em levantar da cadeira. Tem posição relevante em grafite natural, reservas importantes de terras raras e níquel, além de produção de lítio em expansão. A natureza fez a parte dela com generosidade. Falta saber se vamos transformar essa sorte em projeto industrial ou deixá-la escorrer entre os dedos”.

     "O Brasil é um gigante geológico que ainda hesita em levantar da cadeira. Tem posição relevante em grafite natural, reservas importantes de terras raras e níquel, além de produção de lítio em expansão. A natureza fez a parte dela com generosidade. Falta saber se vamos transformar essa sorte em projeto industrial ou deixá-la escorrer entre os dedos”.

ECONOMIA CIRCULAR

     À medida em que assistimos o aumento do volume de lixo eletrônico, oriundo da transformação tecnológica, como, por exemplo, das baterias dos veículos elétricos, a reciclagem de minerais críticos começa a ganhar espaço como uma alternativa complementar para reduzir a pressão sobre a extração de matérias-primas e fortalecer a segurança da cadeia de suprimentos.

     Para Caiubi Kuhn, presidente da Federação Brasileira de Geólogos (Febrageo), a chamada economia circular deverá assumir papel cada vez mais relevante no abastecimento desses materiais, sobretudo diante da elevada concentração de elementos estratégicos presentes em equipamentos eletrônicos.

     “Se pegarmos uma tonelada de celulares, ela pode ter até 100 vezes mais ouro do que uma tonelada de rocha de mineração de ouro. Então há uma concentração de diversos elementos importantíssimos para a sociedade nos eletrônicos, que não podemos simplesmente desperdiçar. Certamente, no futuro, a reciclagem, a economia circular desses componentes, vai ser algo fundamental", analisa.

     Esse cenário, segundo observa o geólogo, reforça que a expansão da cadeia de suprimentos dependerá de diferentes frentes de atuação. Além da abertura de novas minas e do fortalecimento da indústria de processamento, será necessário investir em tecnologias de reciclagem capazes de recuperar materiais estratégicos presentes em baterias, equipamentos eletrônicos e outros produtos ao fim de sua vida útil.

Participaram:

Jovanio dos Santos | Caiubi Kuhn | Klaos Petersen | Alberto Bianchi

- Quanto custa não tornar a rede mais resiliente?

Daniel Bento, PMP, é Eng. Eletricista e atua com redes subterrâneas de média tensão desde 1989. Coordenou o Comitê de Estudos B1 do CIGRE. Foi responsável técnico pela rede de distribuição subterrânea de SP. 4 vezes na lista dos 100+ Influentes da Energia. Atualmente é CEO da BAUR do Brasil e da BAUR USA Corp, e conselheiro do CIGRE-Brasil.

     Na coluna anterior, encerrei meu artigo com uma provocação: “A pergunta já não é quanto custa tornar a rede mais resiliente. A pergunta é quanto custa não torná-la.”

     A primeira reação costuma ser dizer que essa conta é impossível de calcular. Mas ela não é.

     Em 2016, a ANEEL encomendou um estudo específico para avaliar os custos econômicos associados às interrupções de energia elétrica. O trabalho, desenvolvido por um consórcio liderado pela Sinapsis Inovação em Energia, buscou justamente responder uma pergunta simples: quanto a sociedade perde quando a energia deixa de ser fornecida?

     O estudo estimou o chamado Custo da Energia Não Suprida (CENS), um indicador que procura medir os prejuízos causados por interrupções no fornecimento. Para consumidores comerciais, o valor mediano encontrado foi de R$ 34,31 por kWh não fornecido. Para consumidores industriais, R$ 24,73 por kWh. Em atualização própria pelo IPCA para valores de 2026, esses números equivalem aproximadamente a R$ 58/kWh para o setor comercial e R$ 42/kWh para o setor indústria.

     O dado mais importante, porém, não é o valor em si. É o fato de que o setor elétrico já desenvolveu métodos para estimar economicamente o custo das interrupções. Mesmo assim, quando discutimos investimentos em infraestrutura, quase sempre analisamos apenas um lado da equação.

     Sabemos calcular com precisão o custo de uma subestação, de uma linha ou de uma rede automatizada. Mas raramente calculamos com a mesma profundidade o custo da sua ausência. Os eventos recentes em São Paulo ajudam a ilustrar esse ponto. Após o temporal de outubro de 2024, mais de três milhões de consumidores ficaram sem energia. Segundo estimativas da Fecomercio SP, as perdas para os setores de comércio e serviços chegaram a aproximadamente R$ 1,65 bilhão.

     Evidentemente, esse valor não representa um cálculo formal de CENS. Ainda assim, ajuda a visualizar algo que os estudos já indicavam: o impacto econômico das interrupções vai muito além da energia que deixou de ser fornecida.

     A conta da interrupção não fica restrita à distribuidora. Ela se espalha pela economia, aparece na produção que não aconteceu, nas vendas que não foram realizadas, nos serviços que deixaram de funcionar e nos impactos que atingem diretamente a população.

     Durante décadas, a principal pergunta feita ao setor elétrico foi:

“Quanto custa construir?”

     Essa continua sendo uma pergunta necessária, mas talvez ela já não seja suficiente. Os estudos mostram que o custo da interrupção existe, pode ser estimado e, principalmente, não é igual para todos os consumidores e para todas as regiões. Talvez o próximo passo não seja apenas discutir quanto investir em resiliência, mas entender onde a falta dela custa mais caro para a sociedade.

REFERÊNCIAS

     ANEEL. Contrato nº 107/2015. Avaliação dos Custos Relacionados às Interrupções de Energia Elétrica e suas Implicações na Regulação. Consórcio Sinapsis Inovação em Energia, Mercados de Energia Consultoria e Mercados Energéticos Consultores, 2016.

     IBGE. Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), atualização monetária realizada pelo autor para valores de 2026.

     Fecomercio SP. Estimativas de perdas econômicas decorrentes dos apagões ocorridos na Região Metropolitana de São Paulo em 2024.

- Qual é o limite de luz azul seguro na iluminação pública? 

Parte 1

Luciano Rosito é engenheiro eletricista, especialista em iluminação e iluminação pública. Professor de cursos de iluminação pública no Brasil e exterior. 

Por Silvia Maria Carneiro de Campos* e Luciano Haas Rosito

    O tema da coluna deste mês remete a um assunto que vem sendo cada vez mais discutido e conhecido para quem trabalha com iluminação pública e evoluindo globalmente para termos uma iluminação mais segura, que respeite as necessidades do ser humano sendo a menos agressiva possível ao meio ambiente, fauna e flora. E qual seria o limite de luz azul aceitável para iluminação pública? Sabendo que quanto mais alta a temperatura de cor, maior a tendência de termos alto percentual de luz azul.

     Para o sistema melanópico humano, e para a preservação do equilíbrio biológico e ambiental, o impacto da luz está diretamente atrelado à curva de sensibilidade intrínseca das células ganglionares da retina fotossensíveis (ipRGCs), que possuem o fotopigmento melanopsina. O "limite" do azul pode ser compreendido sob dois aspectos: o pico de sensibilidade máxima (onde o estímulo é mais destrutivo para o ciclo circadiano noturno) e o limite de corte seguro (onde o azul deixa de exercer influência significativa no sistema melanópico.

O PICO DE ESTÍMULO MELANÓPICO

     A curva de eficiência circadiana (ou curva melanópica) mostra que o sistema neuroendócrino é extremamente sensível a um intervalo muito estreito de comprimentos de onda: Está localizado em torno de 480 nm (azul-ciano, porque o céu é azul ciano). De 460 nm a 490 nm, a exposição à comprimentos de onda dentro dessa faixa durante a noite sinaliza imediatamente ao cérebro que é "dia", bloqueando a síntese de melatonina e fragmentando os ritmos circadianos. É por isso que a luz branca neutra/fria (4000K a 6500K), que tem um "pico de azul" nessa região pela fabricação do LED (fósforo amarelo sobre chip que emite luz azul), são bioincompatíveis para o período noturno.

O LIMITE DE CORTE SEGURO (CUT-OFF)

     Para que uma fonte de luz seja considerada verdadeiramente segura para a noite, isto é, para que ela tenha um estímulo melanópico nulo ou desprezível —o espectro de emissão deve respeitar limites rígidos de filtragem: A sensibilidade melanópica começa a cair ao cruzar os 530 nm (espectro verde). O Limite de Segurança situa-se acima de 570 nm, corroborado pelos protocolos da FDA. Abaixo disso, qualquer emissão de energia, mesmo em percentuais baixos — ativa os fotorreceptores ipRGCs. Portanto, para o projeto de iluminação biocompatível e ecologicamente responsável, o limite técnico para a supressão do estímulo melanópico é a eliminação completa de comprimentos de onda abaixo de 570 nm.

INDICADORES PRÁTICOS PARA PROJETOS

     ICADORES PRÁTICOS PARA PROJETOS Para garantir que a iluminação respeite esses limites sem depender exclusivamente de análises espectrográficas laboratoriais para cada peça, a física da luz e as normativas mais rigorosas utilizam métricas específicas: Trabalhar na contramão do pico de 480 nm, priorizando o espectro expandido no âmbar e no vermelho, é o único caminho cientificamente viável para desenhar espaços que protejam a integridade celular e a saúde. O sistema melanópico é extremamente sensível. Não é necessária uma luz ofuscante para interromper a produção de melatonina. A partir de apenas 1 a 2 lux fotópicos de luz branca fria (rica em azul) incidindo diretamente na córnea vertical durante a noite, o processo de supressão de melatonina já pode ser iniciado.

     Para garantir que a iluminação não cause distúrbios circadianos à noite, o recomendável é manter a iluminância melanópica abaixo de 1 Melanopic EDI lux ao nível dos olhos, seguindo o Padrão Internacional (CIE S 026). Por isso, na iluminação biocompatível, o controle da intensidade caminha de mãos dadas com a pureza espectral: à noite, reduz-se a iluminância ao mínimo e elimina-se o azul; de dia, eleva-se a intensidade e abre-se o espectro para mimetizar a luz do sol. Para determinar a iluminância segura no piso com uma fonte que possui 7% de azul no espectro (fração comum em algumas lâmpadas de LED branco quente de 2700K a 3000K), precisamos cruzar a física da distribuição da luz no espaço com o limite biológico da retina. Para que o ambiente seja considerado seguro à noite, o objetivo regulatório e científico é não ultrapassar 1 lux melanópico (Melanopic EDI) ao nível dos olhos (plano vertical).

     Melanópico (Melanopic EDI) ao nível dos olhos (plano vertical). Traduzindo isso para a iluminância prática no piso (plano horizontal), o cálculo envolve os seguintes passos técnicos: Considerando a margem de segurança para blindar o sistema circadiano contra os 7% de azul, a iluminância máxima recomendada no piso seria de 4 a 6 lux fotópicos. Se o projeto ultrapassar essa faixa no piso, a dispersão da luz e a reflexão nas superfícies farão com que a quantidade de azul que entra na pupila ultrapasse o limiar de 1 lx EDI, disparando a supressão de melatonina.

     No próximo artigo, vamos aprofundar o tema e explicar como viabilizar o projeto com esta restrição.

*Silvia Carneiro é colaboradora no CB03 COBEI /ABNT, Dark Sky Defender da América Latina 2024, presidente da Comissão de Estudos da Poluição Luminosa da UBA (União Brasileira de Astronomia) e coordenadora da Dark Sky Brasil @darkskybrasil/ silvicarneiro@terra.com.br

- A energia e o mito do excepcionalismo humano

Dr. Danilo de Souza é professor na Universidade Federal de Mato Grosso, sendo Coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos em Planejamento Energético – NIEPE, Presidente da Abracopel e é Coordenador Técnico do CINASE – Circuito Nacional do Setor Elétrico. Danilo também é pesquisador no Instituto de Energia e Ambiente da USP | www.profdanilo.com

     Durante grande parte da história moderna, os Sapiens passaram a enxergar-se como algo separado da natureza. Essa transformação não ocorreu de forma repentina. Foi resultado de séculos de construção filosófica, religiosa, econômica e “científica” que consolidaram uma ideia poderosa: a de que os Sapiens ocupam uma posição singular no planeta e, por isso, não estariam submetidos às mesmas limitações que condicionam as demais espécies.

     Essa visão, que a sociologia ambiental contemporânea passou a denominar excepcionalismo humano, sustenta que a sociedade humana existe de forma independente dos ecossistemas que a sustentam. A natureza seria fornecedora de recursos, absorvedora de resíduos e prestadora de serviços ambientais, mas a trajetória humana seria determinada principalmente pela cultura, pela economia, pela política e pela tecnologia. A biosfera, nesta perspectiva, aparece como um cenário externo à história humana, e não como sua condição fundamental de existência. Assim, esta visão gerou uma consequência profunda: a tendência a enxergar os limites ecológicos como obstáculos temporários que poderão ser superados por novas tecnologias.

     No setor energético, esta crença é recorrente. Quando discutimos escassez de recursos, mudanças climáticas ou impactos ambientais, a resposta quase sempre se relaciona a alguma inovação tecnológica futura. Se houver escassez de petróleo, haverá novas fontes de energia. Se as emissões crescerem, haverá captura de carbono. Se a eletrificação aumentar a demanda por minerais críticos, encontraremos substitutos ou novas formas de exploração. Essa confiança na capacidade humana de adaptação é compreensível e, em certa medida, justificada pela própria história do desenvolvimento tecnológico. O problema surge quando ela se transforma na crença de que as leis ecológicas e biofísicas deixaram de existir.

     Para compreender melhor essa questão, é útil observar a figura abaixo. Nela, os sistemas naturais e os sistemas humanos aparecem como entidades distintas, cada qual com seus próprios processos internos, conectados por mecanismos de acoplamento e interação. A representação é extremamente útil para demonstrar as influências mútuas entre a sociedade e a natureza. Entretanto, ela também mostra uma das marcas mais profundas do pensamento moderno: a ideia de que há dois sistemas separados que interagem entre si.

     A crítica formulada por autores como William Catton, Riley Dunlap, Herman Daly, Carl Folke, Johan Rockström, Ildo Sauer e Vaclav Smil vai além dessa interpretação. Para esses pesquisadores, o problema é que, além da necessidade de compreender as interações entre sociedade e natureza, precisamos reconhecer que a própria separação entre ambas é artificial. O sistema humano não existe fora da natureza. A economia não existe fora da biosfera. A política não existe fora das restrições impostas pela disponibilidade de energia, de materiais e de água, e pela estabilidade climática. A sociedade é, em última instância, um subsistema inserido em um sistema ecológico muito maior.

     Essa constatação parece óbvia quando observamos os organismos vivos. Nenhum animal existe fora dos fluxos de energia e de matéria que sustentam os ecossistemas. Nenhuma espécie está desconectada dos ciclos biogeoquímicos que regulam a disponibilidade de nutrientes, de água e de condições ambientais. Entretanto, quando passamos a analisar fenômenos sociais, frequentemente abandonamos essa lógica. A pobreza passa a ser discutida apenas como um problema econômico ao longo de toda a história humana. O crescimento é tratado como uma variável financeira. A urbanização é compreendida como um processo essencialmente social. A segurança energética é reduzida a uma questão tecnológica. Em muitos casos, as bases biofísicas que sustentam todos esses fenômenos desaparecem do debate.

     Talvez esse seja um dos aspectos mais curiosos da modernidade. A sociedade desenvolveu uma extraordinária capacidade de compreender sistemas complexos, mas frequentemente analisa os fenômenos humanos como se estivessem parcialmente desvinculados de sua base ecológica. O resultado é a fragmentação do conhecimento. As ciências sociais estudam a sociedade. As ciências naturais estudam a natureza. As engenharias estudam as tecnologias. E, muitas vezes, perde-se a compreensão de que todos esses elementos fazem parte de um mesmo sistema.

     Essa desconexão se manifesta em diversos campos. Na economia, a riqueza é medida predominantemente por indicadores monetários, enquanto a degradação dos sistemas naturais costuma ser tratada como uma externalidade. Na política, os debates priorizam legitimamente emprego, renda, inflação e crescimento econômico, mas raramente discutem com a mesma intensidade a estabilidade climática, a disponibilidade hídrica ou a resiliência ecológica que tornam possível a própria atividade econômica. Na educação, a história costuma ser apresentada como uma sucessão de eventos humanos, com pouca atenção ao papel da energia, dos recursos naturais e das transformações ambientais na formação das civilizações, como por exemplo, falar em revolução industrial sem abordar o carvão e o petróleo como elemento possibilitante desta transformação.

     As cidades oferecem outro exemplo emblemático. Frequentemente são apresentadas como espaços artificiais, independentes da natureza. Entretanto, nenhuma cidade produz sua própria água, seu próprio alimento, seus próprios materiais ou sua própria estabilidade climática. As áreas urbanas apenas tornam invisíveis os sistemas ecológicos dos quais dependem. Quanto mais sofisticada a infraestrutura, maior tende a ser essa ilusão de autonomia.

     No campo energético, essa reflexão ganha especial importância. A energia é, talvez, a manifestação mais evidente da dependência humana em relação aos sistemas naturais. Toda sociedade depende de fluxos energéticos para produzir alimentos, movimentar mercadorias, construir infraestrutura, transportar pessoas e sustentar atividades econômicas. Os recursos energéticos podem mudar ao longo do tempo, mas a dependência física permanece.

     A própria transição energética ilustra essa realidade. A substituição dos combustíveis fósseis por fontes de baixo carbono representa uma transformação tecnológica extraordinária e necessária. Contudo, ela não elimina a materialidade dos sistemas energéticos. Painéis fotovoltaicos exigem silício, alumínio, cobre e vidro. Aerogeradores exigem aço, concreto e minerais críticos. Baterias exigem lítio, níquel, grafite e cobalto. Redes elétricas exigem enormes quantidades de materiais, energia e território. Em outras palavras, a transição energética altera os fluxos materiais e energéticos da sociedade, mas não elimina sua dependência da biosfera.

     Talvez seja justamente esse o principal avanço teórico construído a partir do debate em torno da sustentabilidade. Durante décadas, o debate energético concentrou-se em garantir a oferta, a confiabilidade e os custos competitivos. Esses objetivos continuam fundamentais. Entretanto, os desafios contemporâneos exigem uma visão mais ampla. Sustentabilidade não significa apenas utilizar tecnologias mais eficientes ou reduzir as emissões. Deveria reconhecer que a economia está inserida na sociedade e que esta é apenas um dos subsistemas da biosfera.

     Essa percepção não reduz a importância da tecnologia. Pelo contrário. Ela permite compreender seu verdadeiro papel. A inovação tecnológica pode ampliar os limites, aumentar a eficiência, reduzir os impactos e melhorar a qualidade de vida. O que ela não pode fazer é eliminar a dependência humana dos processos biofísicos que sustentam a vida.

     Ao discutir energia, sustentabilidade e desenvolvimento, talvez a pergunta mais importante não seja qual tecnologia desenvolveremos nas próximas décadas. Talvez a questão fundamental seja outra: continuaremos a enxergar a sociedade como algo separado da natureza ou passaremos a reconhecê-la como parte inseparável dela?

     Para os leitores interessados em aprofundar essa discussão, recomenda-se a leitura do artigo "Conceptualizing Human– Nature Relationships: Implications of Human Exceptionalist Thinking for Sustainability and Conservation", de Kim et al., publicado na revista Topics in Cognitive Science (2023). O trabalho apresenta uma análise abrangente do conceito de excepcionalismo humano, suas origens cognitivas e culturais e suas implicações para a sustentabilidade, a conservação ambiental e a formulação de políticas públicas, complementando e aprofundando as reflexões apresentadas neste texto.

- Harmônicas: a distorção invisível que ameaça a confiabilidade elétrica dos data centers

Caio Huais é engenheiro industrial, especialista em Engenharia Elétrica e Automação com MBA em engenharia de manutenção e gestão de negócios. Atualmente, ocupa posição de gerente corporativo de manutenção no Grupo Equatorial, respondendo pelo desempenho da Alta Tensão de 7 concessionárias do Brasil.

     A inteligência artificial inaugurou uma nova corrida mundial por infraestrutura crítica. A cada novo data center anunciado, cresce a demanda por potência elétrica, mas cresce também um desafio pouco discutido: a qualidade da onda de energia entregue ao sistema.

     O setor elétrico sempre esteve preparado para responder ao crescimento da carga ativa. Agora, porém, enfrenta uma mudança bem mais complexa: a transformação da própria natureza dessa carga, que deixa de ser predominantemente linear e resistiva para se tornar majoritariamente eletrônica.

     Servidores, UPS estáticas, retificadores, inversores, fontes chaveadas e demais conversores estáticos tornaram-se predominantes nas instalações modernas. Diferentemente das cargas convencionais, esses equipamentos operam por comutação e apresentam comportamento não linear, drenando correntes em pulsos que se decompõem em múltiplas componentes de frequência sobrepostas à fundamental de 60 Hz. O resultado é uma infraestrutura submetida a novos mecanismos de degradação térmica e dielétrica.

     Segundo a IEEE 519, o controle das distorções harmônicas de tensão e corrente (THD-V e THD-I) é fundamental para preservar a integridade dos sistemas elétricos e evitar impactos sobre os equipamentos conectados. As normas IEC 61000-4-7 e IEC 61000- 4-30, por sua vez, estabelecem metodologias para medição, classificação espectral e monitoramento contínuo da qualidade da energia. Na prática, essas recomendações deixam de ser um requisito de projeto e passam a representar uma necessidade operacional.

     Considere um data center de 60 MW de carga crítica. Toda essa potência percorre sucessivos estágios de conversão eletrônica — CA-CC, CC-CC e CC-CA — até chegar aos racks de processamento. Cada estágio introduz componentes harmônicas de ordem ímpar (5ª, 7ª, 11ª, 13ª) que elevam a corrente eficaz (RMS), aumentam as perdas por efeito Joule e modificam o comportamento elétrico da instalação como um todo.

     Os primeiros ativos a sentir esses efeitos são os transformadores. As perdas adicionais por efeito pelicular, correntes parasitas no núcleo e dispersão magnética provocam aquecimento localizado e aceleram o envelhecimento da isolação celulósica. Em muitos casos, transformadores corretamente dimensionados em potência aparente (kVA) tornam-se termicamente insuficientes quando submetidos a níveis elevados de distorção harmônica. Por isso, projetos destinados a data centers, frequentemente exigem análise conforme a IEEE C57.110, uso de transformadores com fator K, estudos de “derating” térmico e avaliações específicas de perdas adicionais.

     Os impactos também alcançam barramentos, cabos, bancos de capacitores, sistemas de aterramento e proteção. Fenômenos de ressonância harmônica, disparos indevidos de disjuntores, sobrecargas no condutor neutro (pela soma das harmônicas “triplens”) e envelhecimento acelerado dos ativos deixam de ser eventos isolados e passam a representar riscos permanentes à operação.

     Essa mudança exige uma nova forma de enxergar a confiabilidade. Historicamente, os programas de manutenção concentravam esforços na integridade física dos equipamentos. Em infraestruturas digitais, no entanto, a degradação pode ocorrer mesmo sem alterações visíveis, como resultado de solicitações elétricas contínuas e cumulativas que reduzem silenciosamente a vida útil dos ativos.

     Sob a ótica da ABNT NBR ISO 55001, esse cenário reforça um princípio essencial: decisões sobre ativos devem considerar risco, desempenho e ciclo de vida. Monitorar apenas temperatura, óleo isolante ou número de operações já não é suficiente — é preciso incorporar indicadores espectrais de qualidade da energia, conteúdo harmônico individual e total, carregamento dinâmico e comportamento elétrico ao processo de gestão de ativos.

     É justamente nesse contexto que sensores permanentes, monitoramento on-line, plataformas analíticas e inteligência artificial passam a exercer papel estratégico. A expansão dos data centers representa uma das maiores oportunidades para o setor elétrico brasileiro nas próximas décadas. Mas essa expansão exige uma infraestrutura projetada não apenas para fornecer potência, e sim para preservar estabilidade, qualidade da energia e confiabilidade operacional.

     Os desafios da nova economia digital serão resolvidos com engenharia, e, sobretudo, com uma gestão de ativos capaz de compreender que, na era dos data centers, potência e qualidade de energia passam a ser inseparáveis.

- Cultura organizacional e governança da inovação no setor elétrico

Tenorio Barreto é Mestre pela PUC-Rio em Metrologia, Inovação e Qualidade, Engenheiro Eletricista. É Sócio-Diretor da B&S Consultoria em Projetos.

     O setor elétrico brasileiro vive um momento de profunda transformação impulsionado pela digitalização, descentralização da geração, transição energética, inteligência artificial, redes inteligentes e novas exigências regulatórias. Nesse contexto, a inovação deixou de ser uma atividade complementar para se tornar um fator estratégico de competitividade e sustentabilidade. Entretanto, muitas concessionárias ainda enfrentam desafios culturais e de governança que limitam o potencial dos investimentos em Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PDI).

     A maturidade de concessionárias com relação ao tema Inovação varia significativamente entre as organizações, mas, de forma geral, muitas concessionárias ainda carregam características típicas de empresas altamente reguladas: forte aversão ao risco, estruturas hierárquicas rígidas, foco em conformidade regulatória e processos decisórios lentos.

     Essas características conservadoras foram fundamentais para garantir segurança e confiabilidade do sistema elétrico ao longo das últimas décadas. Contudo, podem dificultar a adoção de uma cultura de experimentação, aprendizado rápido e inovação contínua. O maior paradoxo é a busca de risco técnico baixo, mas esperando resultados que tragam diferenciais competitivos.

    Entretanto, as concessionárias mais maduras vêm tratando o PDI como um instrumento estratégico capaz de gerar valor através da redução de custos operacionais, aumento da eficiência dos ativos, melhora nos indicadores de qualidade e desenvolvimento de novos modelos de negócio. 

     Quando alinhado ao planejamento estratégico corporativo, o PDI deixa de ser um centro de custo regulatório e passa a funcionar como um mecanismo estruturado de geração de valor.

     No entanto, ainda falta alinhamento entre os mais diferentes stakeholders ligados ao processo, que possuem visões, expectativas e maturidades no assunto inovação, completamente diferentes.

     Muitas vezes os projetos são concebidos pela área de PDI das empresas, sem o envolvimento efetivo das áreas operacionais. Como resultado, surgem soluções tecnicamente interessantes, porém desconectadas das necessidades reais do negócio.

     Assim, devemos adotar práticas que possam aumentar o engajamento dos colaboradores das concessionárias frente a um modelo matricial. Os projetos devem nascer de problemas concretos enfrentados pelas áreas operacionais. Cada projeto deve possuir um patrocinador da área de negócio, responsável por acompanhar resultados e facilitar a implementação. Equipes operacionais devem participar desde a definição do problema, passando pela seleção dos parceiros e validação das soluções.

     O principal desafio da inovação no setor elétrico não é tecnológico, mas cultural e organizacional. Recursos financeiros, universidades qualificadas, startups e fornecedores especializados já estão amplamente disponíveis. O diferencial competitivo está na capacidade das concessionárias de criar uma cultura que valorize a experimentação, integrar as áreas operacionais ao processo de inovação e estabelecer uma governança que combine controle regulatório com proximidade do negócio.

Gostou deste conteúdo?

Resumo das Notícias de Hoje

27/7/2026

Dia 27 de julho de 2026, segunda-feira

- LRCAP DE BATERIAS (expansão)

A área técnica da Aneel sugere manter entre os geradores o rateio dos custos decorrentes da contratação do leilão de reserva da capacidade (LRCAP) de baterias. Este é um ponto polêmico, que tem sido criticado pelo setor desde a aprovação da Lei 15.269. Por decisão do Congresso Nacional, a legislação alocou o custo exclusivamente ao segmento de geração.

> Saiba mais na matéria “Nota técnica sugere manter custo do LRCAP de baterias com geradores”: https://shorturl.at/REtsa

- CARGA NO SIN EM JULHO (mercado)

A previsão de carga no Sistema Interligado Nacional mostra uma variação positiva de 2,4% em julho. De acordo com dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico, o comportamento no Sudeste/ Centro-Oeste deve levar a alta de 0,4%. Na região Sul haverá relativa estabilidade, com o recuo de apenas 0,1%. O Nordeste registra o maior aumento, de 8,3%. Já o índice projetado no Norte é de 7,8%. Na semana anterior, a previsão era de alta de 2,1%.

> Leia mais na notícia “Carga volta a acelerar e deve fechar julho em alta de 2,4%”: https://shorturl.at/wL4ZD

- ELECTRICITY MID-YEAR UPDATE (consumidor)

A mais recente atualização semestral da Agência Internacional de Energia sobre eletricidade mostra que a demanda global deve crescer em um ritmo mais acelerado este ano. De acordo com o Electricity Mid-Year Update, embora as recentes perturbações nos mercados globais de gás devido a guerra no Oriente Médio aumentaram os custos de geração de energia em muitas regiões, a expectativa é que a demanda subjacente vinda de vários segmentos mantenha o consumo global em um crescimento consistente.

> Continua a leitura em “AIE: mesmo com guerra, demanda por energia deve crescer em 2026”: https://shorturl.at/bjhkG”

- OUTRAS NOTÍCIAS DE HOJE

Enel pede à Aneel arquivamento do processo de caducidade: https://shorturl.at/srxKB

Documento final entregue à agência afirma que a fiscalização ampliou o objeto original do processo e alterou critérios ao longo da tramitação.

Aneel julga na terça recursos de comercializadoras em crise: https://shorturl.at/J3StG

2W Ecobank está em recuperação judicial desde abril desse ano. Já a IBS Energy entrou com pedido de RJ na mesma época.

Axia convoca AGE para incorporar controladas: https://shorturl.at/mDaLy

Deliberação envolve Juno, Tijoá, Retiro Baixo Energética e visa simplificar estrutura societária.”

Fonte: CanalEnergia

Gostou deste conteúdo?

FRAGMENTOS EXTRAÍDOS DA REVISTA O SETOR ELÉTRICO – EDIÇÃO 220 DE 24/07/2026

27/7/2026

- “O armazenamento de energia deixa de ser promessa”

Editorial

O armazenamento de energia deixou de ser um tema do futuro para ocupar uma posição central nas discussões sobre a evolução do setor elétrico brasileiro. À medida que a matriz elétrica incorpora volumes crescentes de geração renovável, surgem novos desafios relacionados à flexibilidade operacional, à confiabilidade do sistema e ao aproveitamento mais eficiente dos recursos energéticos. Nesse contexto, compreender o papel das tecnologias de armazenamento e, principalmente, os avanços regulatórios que viabilizam sua inserção no mercado tornou-se indispensável para todos os profissionais do setor. O capítulo V do Fascículo dedicado ao tema de armazenamento, assinado pelos especialistas no tema Raphael Gomes e Isadora Filipo, faz uma análise impecável sobre este momento histórico para o setor. No texto, com o título: O cenário regulatório e de mercado para o armazenamento no Brasil: flexibilidade, custeio e segurança jurídica, os autores demonstram como as recentes Resoluções Normativas da ANEEL e a Portaria do Ministério de Minas e Energia sobre o tema representam muito mais do que uma atualização normativa. Elas sinalizam uma mudança estrutural na forma como o armazenamento passa a ser compreendido, deixando de ser tratado apenas como uma tecnologia complementar para assumir o papel de infraestrutura estratégica para a operação do Sistema Interligado Nacional.

O artigo também apresenta uma reflexão importante sobre a própria evolução do setor elétrico. Em um sistema cada vez mais dependente da complementaridade entre diferentes fontes renováveis, a energia deixa de ser avaliada apenas pelo volume produzido e passa a ser valorizada por atributos como potência disponível, rapidez de resposta, flexibilidade, confiabilidade e capacidade de deslocar energia para os momentos de maior necessidade. Essa mudança de paradigma exige novos mecanismos de remuneração e novos modelos de negócios, tema amplamente discutido pelos autores. Outro destaque do fascículo é a análise dos desafios que ainda precisam ser superados para transformar a evolução regulatória em um mercado sólido e competitivo. Questões como o empilhamento de receitas, o tratamento tarifário do uso da rede, a estruturação do primeiro leilão brasileiro de baterias, os critérios de custeio, a segurança jurídica dos contratos e a correta valoração dos serviços prestados pelos sistemas de armazenamento são abordadas de forma clara, permitindo ao leitor compreender tanto as oportunidades quanto as incertezas que ainda acompanham essa agenda. Os autores também chamam atenção para um aspecto fundamental: o sucesso do armazenamento dependerá não apenas da evolução tecnológica, mas da capacidade de construir regras estáveis, previsíveis e economicamente equilibradas. O desenvolvimento desse mercado deverá caminhar ao lado da expansão da transmissão, da redução dos cortes de geração renovável, da criação de sinais locacionais eficientes e do contínuo aperfeiçoamento dos procedimentos operacionais e comerciais do setor. Ao trazer esse e outros importantes debates, a Revista OSE, que já conta com mais de 20 anos de prestação de serviços ao setor elétrico brasileiro, reafirma seu compromisso de acompanhar os temas que moldam o presente e o futuro da indústria elétrica nacional. Mais do que apresentar as novidades regulatórias, buscamos oferecer aos nossos leitores uma visão técnica, crítica e aprofundada dos assuntos que influenciarão as decisões de fabricantes, concessionárias, projetistas, integradores, investidores e formuladores de políticas públicas. 

Edmilson Freitas edmilson@atitudeeditorial.com.br

- CIDE bate recorde de público e reforça papel da inovação na transformação da distribuição de energia

Por Matheus de Paula

A palavra “inovação” dominou os debates da terceira edição do Congresso de Inovação na Distribuição de Energia Elétrica (CIDE), realizado entre os dias 10 e 11 de junho, em São Paulo. Contando com mais de 1.500 participantes, entre executivos, especialistas, representantes de distribuidoras, fabricantes, startups, órgãos reguladores e instituições do setor elétrico, o evento se debruçou sobre temas preciosos ao segmento de distribuição, como a modernização das redes elétricas, adequação às novas normas regulatórias, resiliência do sistema, armazenamento e o impacto do inteligência artificial na operação das concessionárias.

Ao fazer a abertura do evento, a presidente da Abradee, Patrícia Audi, juntamente com o CEO do Grupo O Setor Elétrico, Adolfo Vaiser, destacaram o papel do CIDE no desenvolvimento e estímulo ao segmento de distribuição, ao promover debates qualificados sobre os rumos e dores do setor, além possibilitar aos visitantes interação com as principais tecnologias e soluções voltados a este mercado.

"O CIDE nasceu de uma provocação da Abradee para criarmos algo diferente para o mercado. Hoje, vemos esse projeto consolidado, reunindo empresas, especialistas e profissionais comprometidos com a evolução da distribuição de energia. Todo esse trabalho é resultado de meses de planejamento e da dedicação de uma grande equipe para entregar conteúdo de qualidade, networking e oportunidades de negócios", destacou Vaiser.

Em sua fala, Patrícia Audi afirmou que o segmento de distribuição deverá investir, até 2030, cerca de R$ 260 bilhões, destinados, principalmente, à modernização, digitalização e aumento da resiliência das redes. "A inovação precisa estar no centro da estratégia das distribuidoras e ser percebida pelos consumidores como um diferencial que gera mais qualidade, confiabilidade e eficiência no fornecimento de energia", destacou.

MODERNIZAÇÃO DE ATIVOS

Atuando nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraná, a CPFL Energia, de acordo com o CEO da companhia, Gustavo Estrella, deverá investir cerca de R$ 25 bilhões, até 2030, na modernização da infraestrutura física das redes e na digitalização das operações.

“A gente vem promovendo uma mudança completa da configuração da rede. Na RGE (concessionária responsável pela distribuição de energia elétrica em grande parte do estado do Rio Grande do Sul), por exemplo, tínhamos 40% da rede com postes de madeira em 2019; hoje esse percentual está em 8% e a expectativa é zerar nos próximos três anos. Mas esse investimento de base é combinado com inovação, automação e digitalização, que são fundamentais para a gestão da rede”, destacou Estrella.

Empossado na presidência da Celesc há cerca de três meses, Edson Moritz apresentou os números da companhia durante o painel e destacou o ciclo de investimentos da distribuidora, entre 2023 e 2026. Segundo o executivo, a empresa deverá investir R$ 5,7 bilhões no período, valor cerca de 62% superior ao registrado no ciclo anterior.

Os recursos estão sendo direcionados principalmente para a ampliação e modernização das redes de distribuição e subestações, com foco em acompanhar o crescimento da demanda por energia em Santa Catarina. “O foco dos investimentos está na expansão das redes e subestações, mas também em programas voltados às áreas rurais. O agronegócio catarinense cresce em ritmo acelerado e exige uma infraestrutura elétrica cada vez mais robusta e confiável", destacou.

PALESTRAS E PAINÉIS DE DEBATE

A palestra de abertura do CIDE 2026 foi conduzida pelo advogado e especialista em tecnologia e IA, Ronaldo Lemos, que traçou um panorama de evolução da inteligência artificial iniciado pela OpenAI, com o ChatGPT em 2023, e da IA agêntica, uma inteligência artificial capaz de receber objetivos, organizar-se de forma autônoma e executar tarefas até o fim sem intervenção contínua do usuário.

Ao adentrar os desafios específicos da distribuição de energia, Lemos elencou seis fronteiras de aplicação da IA no segmento: prevenção de incêndios em resposta às tempestades, manutenção por câmeras em drones, combate a furtos e perdas comerciais, modelos de linguagem para gestão de rede, atendimento por assistentes virtuais e gêmeos digitais. Os exemplos vieram de diferentes partes do mundo. Nos Estados Unidos, a Pacific Gas and Electric Company (PG&E), maior distribuidora de energia elétrica da Califórnia, opera mais de 630 câmeras de alta definição e milhares de sensores de IoT integrados a sistemas de IA.

"Foram 17 incêndios interceptados e 12 milhões de minutos de interrupção evitados", destacou. Na China, a State Grid desenvolveu o modelo de linguagem Guangming — cujo nome significa "luz" em mandarim. "Uma transferência de carga que levava 30 minutos passou a ser feita em um minuto. Um planejamento de grande porte que exigia dez horas é concluído em dez minutos", listou Lemos. Nas Filipinas, a distribuidora Meralco usa visão computacional via satélite para mapear painéis solares nos telhados. "Eles conseguem 88% de acurácia para redimensionar a rede e absorver a expansão desordenada do solar, em vez de fazer curtailment, como o Brasil faz", observou.

Para contextualizar o posicionamento do país nesse cenário, Lemos recorreu ao Smart Grid Index, ranking global que avalia 92 distribuidoras em 36 países. A América Latina ocupa posições modestas, com poucas representantes, entre elas a Light, do Rio de Janeiro. A liderança pertence à francesa Enedis. "Em 2020 ela era a 16ª colocada. Em três anos pulou para o primeiro lugar. Isso significa que uma ação bem feita permite adotar inovação em um horizonte curto de tempo", afirmou.

DESAFIO DE GERAÇÃO E CARGA

Outro tema de destaque no evento diz respeito aos desafios para o equilíbrio entre geração e carga, em um sistema elétrico cada vez mais impactado pela expansão da geração distribuída. Tatiane Pestana, gerente executiva de Relacionamento com Agentes e Assuntos Regulatórios na ONS, relembrou a operação realizada durante o feriado de Corpus Christi, quando o ONS acionou um plano emergencial desenvolvido em conjunto com a ANEEL e 12 distribuidoras para lidar com o excedente de geração.

“Diante da previsão de carga muito baixa e da elevada geração fotovoltaica, mobilizamos o plano emergencial construído junto às distribuidoras e ao regulador. A resposta foi positiva, mas esse desafio não é pontual. Precisamos avançar em soluções estruturais para lidar com a crescente inserção da geração distribuída no sistema”, pontuou.

TRABALHOS TÉCNICOS E STARTUPS

Além da plenária principal, o CIDE 2026 contou com uma intensa programação voltada à disseminação de conhecimento técnico e à apresentação de soluções inovadoras para o setor de distribuição de energia. Ao longo dos dois dias de congresso, 149 profissionais participaram das atividades do evento, incluindo 55 trabalhos técnicos, 20 startups e 15 apresentações de melhores práticas de segurança.

No período da tarde, três arenas simultâneas ampliaram as oportunidades de troca de experiências entre os participantes. A Arena Inovação reuniu startups com soluções voltadas à transformação digital e à modernização das distribuidoras, enquanto a Arena Melhores Práticas de Segurança promoveu o compartilhamento de casos reais e iniciativas voltadas à proteção de profissionais e ativos do setor. Já o espaço dedicado aos papers e trabalhos estratégicos de inovação apresentou estudos, pesquisas e projetos desenvolvidos por especialistas e empresas, abordando desafios e tendências que vêm moldando o futuro da distribuição de energia elétrica.

FEIRA DE NEGÓCIOS

A feira de negócios do CIDE 2026 superou os números das edições anteriores e reuniu 57 patrocinadores em uma área de exposição de 6.000 m2 . Durante os dois dias de evento, distribuidoras, fabricantes, fornecedores de tecnologia, startups e instituições de pesquisa apresentaram soluções voltadas à modernização da distribuição de energia elétrica, consolidando a feira como um dos principais ambientes de networking, demonstração tecnológica e geração de negócios do setor.

Presente na área de exposição, a Cemig destacou a importância da inovação diante das mudanças que vêm transformando a distribuição de energia. Para Wagner Veloso, gerente de Engenharia, Automação e Sistemas da companhia, o avanço das fontes renováveis e a necessidade de modernização das redes exigem uma busca constante por novas soluções. “A rede de distribuição que temos hoje é completamente diferente da que tínhamos há dez anos por conta das renováveis que entraram no sistema. A inovação precisa ser tratada diariamente e a parceria entre as distribuidoras no CIDE é extremamente plausível", ressaltou.

A CPFL Energia aproveitou a feira para apresentar soluções desenvolvidas em projetos de pesquisa e desenvolvimento voltados ao aumento da confiabilidade das redes e ferramentas digitais baseadas em dados e inteligência artificial para tornar a operação mais eficiente. Segundo o CEO da companhia, Gustavo Estrella, o evento vem demonstrando evolução a cada edição e se consolidando como um importante ambiente de colaboração para o setor elétrico. “Acho que colaboração é uma palavra bastante importante. A gente só avança com todas essas partes colaborando, dividindo soluções”, destacou.

EXPOSITORES

Participando pela primeira vez como patrocinador da feira de negócios, o Lactec avaliou de forma positiva os resultados obtidos durante o evento. Segundo André Capra, gerente sênior da instituição, a presença com estande ampliou as oportunidades de relacionamento com parceiros e potenciais clientes, gerando inclusive novas oportunidades comerciais. “A gente já tem algumas oportunidades que estão se convertendo em negócio. Desde receber as pessoas, apresentar o Lactec e gerar negócios, que é o que a gente espera, o resultado está sendo muito positivo”, disse.

Estreante também no CIDE, a Nansen apresentou soluções voltadas à medição inteligente e mobilidade elétrica. Segundo João Tabelini, gerente de Eletromobilidade da companhia, a empresa já possui mais de um milhão de pontos de medição inteligente instalados no Brasil, tecnologia que contribui para a eficiência operacional das distribuidoras. Ao avaliar sua primeira participação no congresso, o executivo destacou a oportunidade de acompanhar as principais tendências do setor, “a gente vê também muita empresa de tecnologia trazendo coisas novas. É sempre bom esse tipo de evento, porque a gente vai se atualizando sobre as informações de mercado”, afirmou.

Já a Climatempo apresentou soluções voltadas ao monitoramento meteorológico e à gestão de riscos climáticos para o setor elétrico. Segundo Victor Hassan, head de Negócios da companhia, o evento é uma oportunidade para aproximar tecnologias que contribuem para aumentar a resiliência das redes diante dos impactos das mudanças climáticas. “É um grande prazer estar aqui. Trouxemos soluções e inovações climáticas para o setor de energia, com estações meteorológicas, sensores e plataformas voltadas ao monitoramento do tempo e ao manejo da vegetação. O CIDE é uma iniciativa maravilhosa, que está crescendo cada vez mais”, destacou.

A Tivit apresentou soluções voltadas à digitalização e modernização das distribuidoras de energia. Para João Rabaço, head de vendas da companhia, o evento tem se destacado pela qualidade dos debates sobre o futuro do setor e pela troca de experiências entre os participantes. “O CIDE está trazendo grandes insights sobre o futuro da indústria no país e sobre como as empresas estão se adaptando do ponto de vista de tecnologia e inovação”, afirmou.

- CIBERSEGURANÇA NA CONVERGÊNCIA TI/TO: ESTRATÉGIAS PARA PROTEÇÃO DE OPERAÇÕES CRÍTICAS NO SETOR ELÉTRICO

Por Rafael Ogando

O setor elétrico global está atravessando uma das mais profundas transformações tecnológicas de toda a sua história. A digitalização tornou-se uma realidade inevitável, impulsionada de maneira acelerada pela incorporação de sensores inteligentes, dispositivos de Internet das Coisas (IoT), plataformas baseadas em nuvem, sistemas SCADA avançados e pelo uso de inteligência artificial. Toda essa esteira de inovação tem entregado ao setor elétrico ganhos expressivos no que diz respeito à eficiência operacional, à capacidade de realizar manutenções preditivas e à confiabilidade geral no fornecimento de energia elétrica.

No entanto, essa mesma evolução tecnológica trouxe à tona um desafio de proporções equivalentes: a crescente, e muitas vezes inadiável, integração entre os ambientes de Tecnologia da Informação (TI) e Tecnologia Operacional (TO). Anteriormente, esses dois mundos operavam de forma isolada, mas agora passaram a compartilhar bases de dados, aplicações e conexões de rede e essa convergência, embora seja necessária na modernização industrial, ampliou significativamente os pontos de entrada e a superfície de ataque das infraestruturas críticas, exigindo uma reavaliação completa de como o setor lida com ameaças digitais.

Para compreender a complexidade do desafio da segurança digital, é preciso entender que, historicamente, os universos de TI e TO evoluíram de maneira independente, desenvolvendo culturas e objetivos distintos.

A Tecnologia da Informação sempre esteve concentrada na proteção dos dados, das aplicações e dos serviços corporativos. Seu foco de atuação é orientado por garantir a confidencialidade, a integridade e a disponibilidade das informações corporativas e administrativas.

Por outro lado, a Tecnologia Operacional (TO) possui uma natureza muito mais física e imediata, ela tem a função de controlar processos físicos operando sistemas complexos como SCADA, Controladores Lógicos Programáveis (CLPs), Dispositivos Eletrônicos Inteligentes (IEDs), além de diversos sensores e equipamentos de campo que, efetivamente, garantem o funcionamento ininterrupto do sistema elétrico. Nesse ambiente crítico, a prioridade máxima e inegociável é garantir a disponibilidade e a segurança da operação, uma vez que qualquer interrupção pode afetar de imediato o fornecimento de energia para toda a população.

Essa profunda diferença estrutural faz com que diversas práticas de segurança cibernética que são consideradas comuns nos ambientes corporativos, nem sempre sejam viáveis na indústria. No ambiente de TO, a continuidade do processo é absolutamente essencial, o que exige uma abordagem engenhosa que consiga conciliar as necessidades administrativas do negócio com as severas restrições operacionais desses sistemas críticos.

Essa profunda diferença estrutural faz com que diversas práticas de segurança cibernética que são consideradas comuns nos ambientes corporativos, nem sempre sejam viáveis na indústria. No ambiente de TO, a continuidade do processo é absolutamente essencial, o que exige uma abordagem engenhosa que consiga conciliar as necessidades administrativas do negócio com as severas restrições operacionais desses sistemas críticos.

A diferença no impacto de uma violação entre esses dois ambientes é notável. Enquanto um incidente cibernético bem sucedido no ambiente corporativo (TI) resulta, geralmente, na indisponibilidade de serviços administrativos ou vazamento de dados, um ataque que atinja a rede operacional (TO) pode comprometer os equipamentos físicos, interromper drasticamente o fornecimento de energia elétrica e gerar impactos econômicos e sociais profundos. Nesse contexto de alto risco, a cibersegurança deixa de ser encarada apenas como uma área da tecnologia e passa a integrar a estratégia principal de continuidade operacional das organizações.

Um exemplo de ataque cibernético no setor ocorreu na Ucrânia, no ano de 2015, onde invasores conseguiram comprometer os sistemas de distribuição de energia do país, resultando em um apagão que deixou centenas de milhares de consumidores no escuro durante horas. Este tipo de incidente nos deixa como aprendizado que invasores contemporâneos têm a capacidade de explorar vulnerabilidades nas redes de tecnologia para interferir diretamente no funcionamento e na operação de infraestruturas que são vitais para a manutenção da sociedade. Mesmo que o contexto geopolítico daquele evento em particular fosse muito específico, a realidade que ele evidenciou é atual, à medida que as redes elétricas se tornam mais conectadas e interdependentes, cresce a urgência de proteger não apenas os bancos de dados da empresa, mas sim toda a cadeia operacional responsável por levar eletricidade até o consumidor final.

Toda essa discussão ganha contornos de extrema relevância também no Brasil. O país passa por um rápido e acelerado avanço na digitalização de suas redes elétricas, fenômeno este que é impulsionado de perto pela adoção em massa das chamadas Smart Grids (redes elétricas inteligentes), pelo crescimento exponencial da geração distribuída de energia e pelos massivos investimentos em automação de subestações, sendo assim a proteção robusta de ambientes operacionais tão críticos exige a implementação de uma estratégia estruturada em múltiplas camadas de segurança, visto que já é consenso que não existe uma única tecnologia que seja capaz de eliminar, de forma milagrosa e isolada, todos os riscos existentes.

Como primeiro passo é preciso conhecer os ativos existentes, ter controle e inventários completos de equipamentos, sistemas e conexões que permitam identificar vulnerabilidades e definir prioridades de proteção.

A segmentação das redes representa outra medida essencial. Separar ambientes corporativos dos sistemas operacionais, utilizando zonas de segurança e redes desmilitarizadas industriais (Industrial DMZ), reduz significativamente a possibilidade de movimentação lateral de um invasor.

Também ganha destaque a adoção do modelo Zero Trust, baseado no princípio de que nenhum usuário, dispositivo ou aplicação deve ser considerado confiável por padrão, cada acesso deve ser autenticado, autorizado e monitorado continuamente, especialmente em cenários com acesso remoto de equipes internas e fornecedores.

O monitoramento contínuo dos ambientes de TO complementa essa estratégia, implementando soluções capazes de identificar comportamentos anômalos em protocolos industriais que permitam detectar ameaças antes que provoquem impactos operacionais relevantes.

Outro aspecto importante é a gestão de vulnerabilidades. Diferentemente dos ambientes tradicionais de TI, nem sempre é possível aplicar atualizações imediatamente em equipamentos industriais. Dessa forma, torna-se necessário combinar planejamento de manutenção, controles compensatórios e avaliação contínua dos riscos.

Por fim, ter um bom plano de resposta a incidentes e estratégias de recuperação operacional são fundamentais para minimizar impactos caso um ataque ocorra.

O sucesso prático na proteção contra as ameaças cibernéticas modernas depende do fortalecimento na integração institucional entre as áreas de TI e TO. Criar e cultivar uma governança capaz de entender e equilibrar a busca por inovação tecnológica, o aumento contínuo da eficiência na operação e, ao mesmo tempo, a garantia da segurança cibernética é o que difere organizações seguras das vulneráveis.

A convergência entre a Tecnologia da Informação e a Tecnologia Operacional não é uma tendência passageira; ela representa um caminho sem volta para o setor elétrico em escala global. O avanço da digitalização tem como destino continuar impulsionando operações que são a cada dia mais inteligentes, eficientes e integradas, isso significa que investir em cibersegurança e tratar a proteção da convergência TI/TO como uma prioridade de negócio é uma atitude que vai muito além de proteger hardwares e softwares. Significa, assegurar a continuidade no fornecimento ininterrupto de energia para os lares e empresas, atestar a confiabilidade dos serviços vitais que são prestados e, principalmente, fortalecer de forma duradoura a resiliência de um setor que é absolutamente indispensável para a manutenção da vida urbana e para o pleno desenvolvimento econômico e social do país.

*Rafael Ogando é Diretor Executivo da Concert LAB, com mais de 20 anos de experiência em transformação digital, engenharia de software, computação em nuvem e Inteligência Artificial. Liderou operações de tecnologia, plataformas em nuvem e equipes de alta performance nos setores de tecnologia, saúde e energia. Atualmente é responsável pela estratégia de crescimento da empresa, pelo desenvolvimento de soluções para o setor elétrico e pela aplicação de Inteligência Artificial em produtos, engenharia de software e operações, conectando tecnologia, negócio e inovação.

- Armazenamento de energia e o futuro do setor elétrico

Capítulo 5 

O cenário regulatório e de mercado para o armazenamento no Brasil: flexibilidade, custeio e segurança jurídica 

O armazenamento de energia deixa de ser promessa

*Por Raphael Gomes e Isadora Filipo

Em um setor marcado por intensa produção normativa, disputas sobre alocação de custos, pressão tarifária e dificuldade crescente de compatibilizar expansão renovável, segurança operativa e modicidade, a agenda de armazenamento de energia trouxe uma rara boa notícia. A conclusão da Consulta Pública nº 39/2023, pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), a edição das Resoluções Normativas ANEEL nº 1.161/2026 e nº 1.162/2026 e a publicação da Portaria Normativa MME nº 136/2026 retiraram o armazenamento da condição de promessa tecnológica e o colocaram no centro da regulação setorial. 

A boa notícia, contudo, não está apenas em admitir baterias, usinas reversíveis e outras tecnologias no âmbito do setor elétrico brasileiro. Está na possibilidade de o Brasil tratar de modo mais maduro um problema que já não é marginal: a energia elétrica deixou de ser apenas uma questão de capacidade instalada e passou a exigir coordenação no tempo – e em tempo real. Em sistemas com elevada participação de fontes renováveis, o momento em que a energia é produzida se tornou tão relevante quanto a quantidade produzida.

Esse é o ponto de partida. O armazenamento não é nova fonte no sentido clássico, nem simples carga, nem equipamento acessório de uma usina. É infraestrutura capaz de absorver potência, injetar energia, deslocar produção no tempo e prestar serviços ao sistema. Por isso, a pergunta relevante não é apenas se o Brasil terá projetos de armazenamento, mas se criará um mercado apto a remunerar os atributos entregues por esses projetos sem transferir novos passivos regulatórios para o futuro.

DA ENERGIA AOS ATRIBUTOS: POTÊNCIA, FLEXIBILIDADE E DESLOCAMENTO NO TEMPO

A matriz elétrica brasileira se transformou de forma acelerada. A expansão eólica e solar fotovoltaica, a redução relativa da capacidade de regularização dos reservatórios hidrelétricos e o aumento de restrições operativas criaram uma realidade em que o sistema precisa de energia, mas também de potência, flexibilidade, velocidade de resposta e capacidade de absorver excedentes em determinados momentos. A discussão sobre adequabilidade do suprimento passou a incorporar expressamente atributos de capacidade e flexibilidade.

Essa mudança tem consequência jurídica direta. Tendo em vista que o sistema demanda atributos distintos, a regulação e os contratos não podem continuar remunerando todos os ativos da mesma forma. Um megawatt disponível em momento crítico, um megawatt-hora produzido em horário de excedente e um recurso capaz de variar rapidamente sua injeção não possuem o mesmo valor sistêmico. Os leilões de reserva de capacidade e a inserção da flexibilidade no debate setorial indicam esse deslocamento.

Os sistemas de armazenamento se inserem nesse contexto porque sua principal contribuição não é gerar energia primária, mas alterar o tempo de uso da energia disponível. Essa característica permite reduzir o acionamento de recursos mais caros, facilitar a integração de renováveis e mitigar excedentes. Ainda assim, a tecnologia não substitui a (necessária) expansão da transmissão, não elimina a necessidade de sinais locacionais adequados e não resolve retrospectivamente o problema do ressarcimento por cortes de geração. Seu valor é elevado justamente quando inserida em desenho institucional coerente e completo.

CATEGORIA PRÓPRIA E REGULAÇÃO EM DUAS CAMADAS

O primeiro mérito da Lei nº 15.269/2025 foi reconhecer formalmente a atividade de armazenamento de energia elétrica e atribuir à ANEEL competência para regulá-la e fiscalizá-la. Esse reconhecimento afasta enquadramentos artificiais – como a proposta inicial de enquadramento por semelhança a ativos de geração – e permite que os sistemas de armazenamento sejam tratados conforme sua natureza multifuncional.

A partir dessa base legal, a ANEEL optou por uma solução em duas camadas. A Resolução Normativa nº 1.161/2026 estabelece requisitos e procedimentos para a outorga de autorização de sistemas explorados de forma autônoma. A Resolução Normativa nº 1.162/2026, por sua vez, promoveu alterações transversais em normas setoriais, alcançando acesso e uso da rede, comercialização, situação operacional, penalidades, serviços ancilares, resposta da demanda, sistemas colocalizados e usinas reversíveis.

A regulação passou a diferenciar, entre outros conceitos, o sistema autônomo, que absorve potência integralmente da rede para posterior injeção ou prestação de serviços, e o sistema colocalizado, instalado em área contígua a uma central geradora e capaz de absorver energia da própria usina ou da rede. A distinção importa porque cada modelo responde a incentivos diversos: o autônomo se aproxima de recurso sistêmico independente; o colocalizado pode otimizar a conexão existente, reduzir cortes, suavizar produção e ampliar a prestação de serviços.

Também merece atenção a autorização para empilhamento de receitas, pois os sistemas podem prestar múltiplos serviços ao sistema elétrico, incluindo flexibilidade operativa, potência, qualidade de energia, serviços ancilares e comercialização. Sem empilhamento, muitos projetos podem não se viabilizar economicamente, assim como muitos modelos de negócios podem não atingir escala. Por outro lado, com empilhamento de receitas mal disciplinado, surgem riscos de dupla remuneração e assimetria concorrencial. A abertura regulatória, portanto, precisa ser acompanhada de precisão operacional e previsibilidade de remuneração.

USO DA REDE E ENCARGOS: A DECISÃO QUE PODE EVITAR INVIABILIZAR AS BATERIAS

Um dos temas mais sensíveis da Consulta Pública nº 39/2023 foi a cobrança pelo uso da rede. A ANEEL decidiu que a utilização das redes de transmissão e distribuição pelos sistemas de armazenamento estará condicionada à celebração de contratos de uso, refletindo, como regra geral, a operação bidirecional do ativo, já que este demanda capacidade da rede tanto para carregar, quanto para descarregar na rede. Isto é, o contrato precisa capturar esses dois sentidos.

A decisão mais relevante do ponto de vista setorial – e que decorreu de intenso processo e busca da Agência pelo “caminho do meio” entre posições acaloradas – foi o tratamento dado aos sistemas autônomos que se submetam voluntariamente ao despacho integral pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico - ONS (ONS), tanto na carga quanto na injeção. Nesses casos, a demanda ou montante de uso associados ao consumo poderá ser definido como zero, permanecendo a contratação da parcela de injeção conforme a potência máxima de descarga. A lógica é adequada: se o ONS define integralmente quando o ativo carrega e descarrega, buscando o menor custo total da operação e a segurança do sistema, não faria sentido tarifá-lo como carga ordinária que decide livremente quando pressionará a rede.

Para sistemas não sujeitos ao despacho integral do ONS, a ANEEL preservou a regra geral de contratação e pagamento pelo uso da rede, justamente porque o agente mantém maior liberdade decisória sobre seus fluxos. A escolha regulatória foi a seguinte: quanto maior a subordinação ao despacho centralizado, maior a justificativa para racionalizar a cobrança pela parcela de consumo.

Nos sistemas colocalizados, a regulação admitiu que, em determinadas condições, a potência máxima de carga do armazenamento seja considerada para reduzir a demanda contratada de injeção da central geradora, observado limite de 30% da máxima potência injetável na configuração sem armazenamento. Para centrais com contrato de uso existente, a norma prevê tratamento específico para a primeira solicitação após a conexão do sistema colocalizado, sem aplicação de cobranças por encerramento contratual antecipado. Esse ponto pode ser decisivo para projetos híbridos, nos quais a conexão é um dos ativos econômicos mais relevantes. 

A decisão sobre encargos seguiu racional semelhante. Como a energia absorvida pelo armazenamento, excetuadas as perdas inerentes ao processo, será posteriormente reinjetada ou utilizada para prestar serviços ao sistema, a ANEEL afastou a incidência, sobre os próprios armazenadores, de encargos associados a usuários finais ou a regimes clássicos de geração quando não houver base legal específica, deixando-os isentos de uma série de encargos relevantes (EER, ERCAP, ESS, PROINFA, CDE, TFSEE e P&D). Mais uma vez a escolha regulatória foi acertada, ao evitar que o armazenamento nascesse artificialmente onerado por cobranças incompatíveis com sua função sistêmica.

O PRIMEIRO LEILÃO DE BATERIAS: RESTRIÇÃO DE PRODUTO E DE MERCADO

A Portaria Normativa MME nº 136/2026, que estabeleceu as diretrizes do primeiro leilão brasileiro destinado à contratação de armazenamento de energia em baterias, representa o primeiro teste concreto do novo arcabouço regulatório.

O leilão de reserva de capacidade voltado a sistemas de armazenamento em baterias foi estruturado para contratação de disponibilidade de potência, e não para venda ordinária de energia. O desenho prevê dois produtos: um associado a requisitos de conteúdo nacional, com certame previsto para 2 de dezembro de 2026, e outro aberto, previsto para 4 de dezembro de 2026, ambos com início de suprimento em 1º de agosto de 2028 e contratos de 15 anos.

Os parâmetros técnicos confirmam a natureza do produto. Os empreendimentos deverão ter potência mínima de 30 MW, entrega por quatro horas consecutivas por ciclo completo, até dois ciclos diários e 366 ciclos anuais, eficiência mínima de 85% no ponto de medição individual e recarga completa em até seis horas. Também deverão atender à totalidade dos despachos do ONS na programação diária e na operação em tempo real.

Essas condições procuram equilibrar duas necessidades. O operador precisa de recurso efetivo para momentos críticos, com duração suficiente e resposta rápida. Os investidores precisam precificar degradação, substituição de componentes, eficiência, penalidades, disponibilidade e risco de despacho. Baterias não são usinas convencionais: a forma de operação afeta diretamente a vida útil, custo de manutenção e desempenho. Por isso, a clareza sobre ciclos, recarga e penalidades não é detalhe técnico, é condição de financiabilidade.

A portaria também veda a arbitragem de energia pelo empreendedor contratado. A receita fixa deve remunerar todo e qualquer uso que o ONS fizer dos sistemas, sem receitas adicionais fora do contrato. A energia será liquidada no mercado de curto prazo segundo as regras aplicáveis, com resultados destinados à Conta de Potência para Reserva de Capacidade, e o empreendedor assumirá riscos específicos relacionados a perdas e excedentes O desenho do leilão tem virtudes e gera algumas incertezas. A virtude é, antes de tudo, dar o primeiro passo e criar, desde o primeiro certame, produto sistêmico claro, comandado pelo operador e aderente à necessidade de potência. A incerteza é que o modelo não é capaz de constituir, por si só, um mercado amplo de armazenamento. Trata-se de contratação regulada, com receita fixa e vedação de receitas fora do contrato – o que impede o empreendedor de explorar a gama de serviços e possibilidades que as baterias poderiam ofertar ao sistema. Nesse sentido, é importante que o Poder Concedente e o regulador não se limitem a esse desenho nas próximas iniciativas, avançando em temas como: serviços ancilares, resposta da demanda, comercialização, agregação, ativos em distribuição e transmissão, sinais adequados de preço, valoração locacional e efetivo empilhamento de receitas. 

CUSTEIO: O PROBLEMA JURÍDICO QUE NÃO PODE FICAR PARA DEPOIS.

O entusiasmo com o leilão de baterias precisa conviver com uma preocupação jurídica central: quem pagará a conta, em que proporção e com qual base de cálculo. A Lei nº 15.269/2025 incluiu dispositivo na Lei nº 10.848/2004 prevendo que, no caso de contratação de sistemas de armazenamento em baterias, os custos serão rateados entre geradores de energia elétrica, conforme regulação da ANEEL. A mesma lei também criou regras voltadas a empreendimentos de geração que solicitarem acesso aos sistemas de transmissão e distribuição após a publicação do dispositivo e que, enquanto não atenderem determinados requisitos sistêmicos, deverão custear contratação de reserva de capacidade proporcionalmente à energia gerada.

A existência de amparo legal para o leilão não elimina a complexidade do custeio. A expressão "geradores", isoladamente, não resolve perguntas essenciais. Todos os geradores do SIN? Apenas novos empreendimentos? Geradores que solicitaram acesso após determinado marco temporal? Em proporção à energia gerada, à potência instalada, ao uso da rede, ao benefício obtido ou à contribuição para a necessidade sistêmica que motivou a contratação? A resposta determinará o risco de judicialização, o risco de crédito e a percepção de estabilidade do produto contratado.

Há um ponto conceitual incontornável. Como o armazenamento contratado beneficia o sistema como um todo - reduzindo custos operativos, aumentando a segurança, mitigando excedentes e facilitando a integração de renováveis -, é necessário justificar por que o encargo recairá apenas sobre determinado grupo de agentes, e qual o fundamento jurídico e econômico. A lei fez uma escolha, mas essa escolha precisa ser operacionalizada de forma proporcional, transparente e previsível.

Esse risco é ainda mais relevante porque os contratos terão prazo de 15 anos. O empreendedor vencedor não precisará demonstrar apenas que consegue construir a bateria, mas também que a receita contratada será efetivamente recebida ao longo de todo o período. Caso o encargo dependa de um grupo restrito de pagadores, caso haja controvérsia sobre a base de rateio ou se a arrecadação se tornar litigiosa, o problema atingirá o próprio produto de capacidade, a financiabilidade dos projetos e a credibilidade dos leilões futuros.

Por isso, edital, contratos e regulação não devem tratar o custeio como tema acessório. A disciplina precisa ser prévia, clara, proporcional e aderente à lei. O setor elétrico brasileiro já conhece os efeitos de encargos mal desenhados e passivos regulatórios transferidos ao longo do tempo. Repetir esse roteiro justamente na agenda de armazenamento seria desperdiçar uma janela importante de modernização.

LOCALIZAÇÃO, CURTAILMENT E A AGENDA DE IMPLEMENTAÇÃO

A agenda de armazenamento também deve ser lida em conjunto com o problema dos cortes de geração (curtailment) e das restrições operativas. As baterias podem reduzir, no futuro, situações em que energia renovável disponível é cortada por limitações de rede, excedentes sistêmicos ou descasamento entre produção e carga. Em vez de simplesmente desperdiçar geração, o armazenamento permite deslocar parte dessa energia para momento de maior utilidade.

Esse potencial depende de localização. Um sistema instalado em ponto sem relevância sistêmica pode ter valor muito inferior a outro situado em área com restrição de escoamento, necessidade de suporte à rede ou alta concentração de renováveis variáveis. A Portaria Normativa MME nº 136/2026 reconhece essa dimensão ao prever bonificação locacional para determinados barramentos; a ANEEL, por sua vez, recomendou que o ONS divulgue anualmente os melhores pontos de conexão para orientar a instalação de armazenamento no SIN.

O sinal locacional é indispensável porque armazenamento não é apenas capacidade, é capacidade situada. Ao mesmo tempo, a tecnologia não deve justificar postergação indefinida de investimentos em transmissão ou substituir uma solução jurídica para cortes já ocorridos. Armazenamento pode reduzir a recorrência do problema, mas não substitui o dever de enfrentar suas causas estruturais.

A regulação aprovada em 2026 inaugurou a fase de implementação. Ainda dependem de aprofundamento os Procedimentos de Rede do ONS, as Regras e Procedimentos de Comercialização da CCEE, a modelagem do armazenamento nos programas computacionais, a atuação de agregadores, a integração à outorga de comercializadores, os sistemas associados a consumidores, o uso em distribuição e transmissão, as usinas reversíveis de ciclo aberto ou semiaberto e eventuais sandboxes regulatórios.

A diferença entre uma boa regra e um bom mercado está na capacidade de transformar conceitos em fluxos operacionais, medição, liquidação, garantias, penalidades e sinais econômicos. A pressa para contratar, compreensível diante das necessidades sistêmicas, não pode dispensar maturidade mínima. O setor elétrico brasileiro tem histórico de resolver urgências por exceções que depois se tornam estruturas permanentes de custo. O armazenamento merece um percurso diferente.

CONCLUSÃO

O armazenamento de energia chegou ao setor elétrico brasileiro em momento oportuno. A matriz é renovável, a expansão é relevante, o sistema demanda flexibilidade e o debate sobre potência já está consolidado. A regulação da ANEEL e o leilão do MME podem inaugurar uma etapa importante de modernização, desde que o entusiasmo tecnológico venha acompanhado de solidez jurídica e desenho econômico consistente.

O ponto central é reconhecer que o armazenamento não deve ser remunerado pela tecnologia em si, mas pelos atributos que entrega: potência, flexibilidade, tempo, confiabilidade, qualidade de energia e alívio de restrições. Essa mudança exige abandonar a lógica de que todos os ativos elétricos entregam o mesmo produto. Exige também cuidado para que encargos, tarifas e riscos não inviabilizem a tecnologia antes de sua implantação em escala.

A agenda é promissora, mas não combina com improviso. A principal função do armazenamento é deslocar energia no tempo; a função da regulação deve ser evitar que a insegurança jurídica seja deslocada para o futuro. Se o setor elétrico pretende usar baterias e outras tecnologias para armazenar energia e reduzir desperdícios, precisa também aprender a armazenar melhor suas próprias boas ideias - antes que elas se percam na descarga rápida de disputas mal resolvidas.

*Raphael Gomes é sócio e Head da área de Energia do Lefosse Advogados. Atua há mais de 25 anos no setor elétrico brasileiro, com experiência em regulação, transações e contencioso estratégico, tendo ocupado, por quase 10 anos, o cargo de Gerente Jurídico-Regulatório na CCEE (Câmara de Comercialização de Energia Elétrica). É presidente do conselho do IBDE (Instituto Brasileiro de Direito da Energia). 

*Isadora Filipo é associada da área de Energia do Lefosse Advogados. Atua há 7 anos como advogada especializada em energia elétrica. Possui amplo conhecimento na estruturação de projetos no setor elétrico e a certificação “Certificação de Operadores do Mercado do Setor Elétrico”, pela CCEE/FGV-Ceri. 

- Recursos Energéticos Distribuídos: os impactos e desafios para o sistema elétrico brasileiro

*Por Leonardo Henrique de Melo Leite

A indústria de energia elétrica vive um momento de grandes transformações, marcando a transição para o que vem sendo chamado de Utility 4.0, em alusão à Quarta Revolução Industrial aplicada ao setor elétrico. Esse novo paradigma no Sistema Elétrico de Potência (SEP) é impulsionado pelos “4 Ds” da transição energética (Descarbonização, Descentralização, Digitalização e Democratização da Eletrificação), que orientam mudanças tecnológicas, regulatórias e de modelos de negócio na busca por um sistema elétrico mais sustentável, eficiente e resiliente.

No que tange às redes de distribuição, estas foram tradicionalmente concebidas como infraestruturas passivas, com a função principal de distribuir eletricidade das fontes de geração centralizadas aos consumidores finais. O planejamento e a operação eram amplamente centralizados, e as redes de distribuição desempenhavam um papel subordinado no ecossistema energético.

Esse paradigma, entretanto, está mudando rapidamente. As redes de distribuição assumem papel central na transição energética, impulsionadas pela crescente inserção dos Recursos Energéticos Distribuídos (RED) (Distributed Energy Resources – DER). Esses recursos, como geração distribuída, sistemas de armazenamento de energia, veículos elétricos, gerenciamento pelo lado da demanda e eficiência energética, estão sendo progressivamente integrados às redes de distribuição, que deixam de atuar apenas como condutores passivos para desempenhar um papel ativo no sistema elétrico, proporcionando maior flexibilidade operacional, balanceamento energético e viabilizando novos arranjos técnico-comerciais, como Microrredes e Usinas Virtuais de Energia (Virtual Power Plants – VPP).

Os avanços tecnológicos vêm acelerando essa transformação. Inovações como as Microrredes e as VPPs, que agregam e coordenam REDs para atuarem como uma única entidade despachável, estão redefinindo o arcabouço operacional dos sistemas de distribuição.

Nesse contexto, o Comitê de Estudos C6 – Redes Ativas de Distribuição e Recursos Energéticos Distribuídos, do CIGRE-Brasil, por meio do Grupo de Trabalho GTRED (Grupo de Trabalho de Recursos Energéticos Distribuídos), publicou a brochura técnica "Impactos dos Recursos Energéticos Distribuídos no Sistema Elétrico Brasileiro".

O documento foi desenvolvido de forma colaborativa, com a participação de especialistas de concessionárias de energia, centros de pesquisa, universidades, fabricantes e consultorias, refletindo a diversidade de conhecimentos e experiências necessárias para tratar um tema de elevada complexidade técnica e impacto sistêmico. A publicação reúne uma análise técnica, regulatória e operacional sobre os impactos da crescente inserção dos Recursos Energéticos Distribuídos no sistema elétrico brasileiro, oferecendo subsídios para apoiar decisões estratégicas e operacionais diante das transformações em curso no setor.

O sumário da brochura está disponível para consulta pública no portal do CIGRE-Brasil. Já o acesso ao conteúdo completo e ao download da publicação em PDF é um dos benefícios oferecidos aos associados da instituição, que também têm acesso a um amplo acervo de brochuras e estudos técnicos produzidos no âmbito do CIGRE e podem contribuir para os debates técnicos e para a elaboração de novas brochuras e estudos.

*Leonardo Henrique de Melo Leite é Consultor Técnico Sênior da FITec Labs e Coordenador do Comitê de Estudos C6 do CIGRE-Brasil.

- Em busca da flexibilidade perdida

*Por Frederico Boschin

Diferente de outras commodities como o gás ou o petróleo, a eletricidade possui uma característica física única: ela precisa ser consumida no exato instante em que é produzida. Em um sistema de potência, a oferta e a demanda devem coincidir milimetricamente em tempo real; qualquer desequilíbrio significativo resulta em variações de frequência e tensão que podem levar ao colapso do sistema (blackout) ou desperdício de energia (curtailment).

O avanço da transição energética global impôs um novo desafio aos reguladores e operadores de sistemas: como garantir o equilíbrio instantâneo entre carga e geração em um cenário de crescente intermitência? Se no passado a flexibilidade era um atributo intrínseco às grandes hidrelétricas com reservatórios ou térmicas de base, hoje ela emerge como um serviço sistêmico autônomo, essencial para a integridade das redes e para a eficiência dos preços de mercado. Ou seja, a geração passou a ser ditada pelo clima (sol, vento e chuva), exigindo que a flexibilidade atue como o "amortecedor" que compensa a volatilidade de ambos os lados da equação. Não há transição energética sem flexibilidade.

Estudos preliminares na Europa indicam que as necessidades de flexibilidade do sistema podem dobrar até 2030 e aumentar seis vezes até 2050 (em comparação com os níveis do início de 2020). O principal motor até 2030 é a expansão da solar fotovoltaica, enquanto no longo prazo (2040-2050) o domínio será o aumento da demanda por eletricidade.

Há uma ligação direta entre a expansão das redes de transmissão e a necessidade de flexibilidade. Se a infraestrutura de rede não crescer no ritmo necessário, os custos de despacho e o curtailment (corte) de geração renovável dispararão; porém, exige uma distinção técnica clara entre necessidades de Rede e de Sistema: 

 Flexibilidade de Rede (Network Needs): Refere-se à capacidade de ajustar a geração ou o consumo para resolver problemas físicos locais, como congestionamentos em troncos de transmissão ou variações de tensão na distribuição; e (2) Flexibilidade de Sistema (System Needs): Focada no equilíbrio global e subdividida em três subcategorias críticas: Integração de Renováveis: Necessidades de longo prazo para acomodar o perfil sazonal de fontes eólicas e solares; Necessidades de Rampa (Ramping): A agilidade necessária para seguir a curva de carga líquida (ex: a rápida subida da demanda quando a geração solar declina ao fim do dia); Flexibilidade de Curto Prazo: Resposta a eventos imprevistos, como falhas forçadas ou erros abruptos de previsão meteorológica.

Portanto, o conceito de flexibilidade deixou de ser apenas uma questão de curto prazo (confiabilidade diante de erros de previsão meteorológica) para abranger múltiplas escalas temporais com a Gestão de Recursos e Redes/Transmissão, de forma a manter níveis de tensão adequados, tanto na transmissão quanto na distribuição.

Enquanto o Brasil discute a inserção de sistemas de armazenamento (BESS) e a regulação da Resposta da Demanda, o cenário internacional já aponta para o "empilhamento de receitas" (revenue stacking), e nesse contexto, a flexibilidade não deve ser vista apenas como um custo de segurança, mas como um ativo comercializável.

As baterias, com queda acentuada de custos, provaram ser imbatíveis na prestação de serviços ancilares de frequência. Já a Resposta da Demanda, impulsionada pela digitalização e pelos medidores inteligentes, transforma o consumidor de um agente passivo em um fornecedor de flexibilidade, ajustando o consumo em resposta aos sinais de preço ou restrições da rede.

A criação de mercados de serviços ancilares competitivos e a definição clara de metas de flexibilidade não-fóssil nos Planos Decenais de Expansão (PDE) são urgências para que o Brasil não apenas tenha uma matriz limpa, mas uma rede resiliente e economicamente eficiente.

Frederico Boschin é Diretor Executivo da Noale Energia e Sócio da Ferrari Boschin Advogados. Advogado (UFRGS); MBA Gestão Empresarial (FGV/RS); Mestre em Direito Econômico pela Universidade de Lisboa; Pós-graduado em Engenharia de Energia (PUC/RS) e em Regulação do Setor Elétrico (UFRJ). Coordenador da ABSOLAR (Santa Catarina); Membro do Conselho de Infraestrutura da FIERGS; Conselheiro do Sindienergia RS; Professor da PUC/RS e PUC/MG

Gostou deste conteúdo?

FRASE DA SEMANA

27/7/2026

“Este desejo de capturar o tempo é uma necessidade da alma e dos queixos; mas ao tempo dá Deus habeas corpus.”

Autor: Machado de Assis

Gostou deste conteúdo?

Credenciada na Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL para trabalhos de apoio ao órgão regulador

ANEEL - Agência Nacional de Energia Elétrica

Soluções no Setor Elétrico

Nossa expertise no Setor Elétrico é resultado de diversos projetos executados por nossos profissionais em empresas de Geração, Transmissão, Distribuição e Comercialização.

Por que escolher a TATICCA?

O objetivo de nosso time é apresentar insights relevantes para o seu negócio e apoiá-lo em seu crescimento!

  • Equipe personalizada para cada projeto

  • Adequação caso a caso

  • Abordagem flexível

  • Envolvimento de Executivos Sêniores nos serviços

  • Expertise

  • Independência

  • Recursos locais globalmente interconectados

  • Equipe multidisciplinar

  • Capacitação contínua

  • Métodos compartilhados com os clientes

  • Amplo conhecimento dos setores

  • Mais modernidade, competência, flexibilidade, escalabilidade e foco no cliente

Nossa equipe

Profissionais especialistas no setor elétrico
Você possui alguma dúvida?

Envie-nos uma mensagem

por favor, preencher o campo.

Obrigado por entrar em contato! Recebemos sua mensagem e em breve retornaremos!
Infelizmente não foi possível enviar sua solicitação, tente novamente mais tarde.