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Setor Elétrico

Veja aqui as informações e notícias mais recentes sobre o setor elétrico. A curadoria do conteúdo é feita por nossos especialistas, considerando a importância do tema para o mercado.

FRAGMENTOS EXTRAÍDOS DA REVISTA O SETOR ELÉTRICO – NEWSLETTER – 02/07/2026

7/7/2026

- Distribuidoras investem em microrredes para aumentar confiabilidade do fornecimento

Por: Matheus de Paula

Com a integração entre armazenamento, renováveis e inteligência de dados, distribuidoras aceleram a transição para o modelo de gestão ativa (DSO), mas esbarram em gargalos normativos, tecnológicos e econômicos

Com pouco mais de 800 habitantes, Serra da Saudade é a menor cidade de Minas Gerais e também o cenário de um dos projetos mais avançados de microrrede do Brasil. Inaugurado em 2026 pela Cemig, o sistema combina baterias de grande porte e geração solar para garantir até 48 horas de autonomia energética para toda a cidade. Em situações de falha no fornecimento ou de manutenção programada, o município desliga-se temporariamente do Sistema Interligado Nacional (SIN) e opera de forma 100% isolada, sem que os consumidores percebam qualquer interrupção no fornecimento.

O caso mineiro não é isolado, outras distribuidoras adotaram também esse modelo que muda a forma como as concessionárias de energia elétrica se comportam no setor. As microrredes são sistemas que integram recursos energéticos distribuídos (REDs), como geração renovável e armazenamento, a soluções de monitoramento, automação e controle de cargas, permitindo que operem conectadas à rede principal ou de forma independente, quando necessário.

Para Wagner Veloso, Gerente de Engenharia, Automação e Sistemas da Cemig, as microrredes se tornaram um modelo concreto para a distribuidora e que transformaram a forma como a companhia realiza suas operações no município. “Já houve eventos em que a microrrede foi acionada. As principais situações ocorreram durante a realização de manutenções programadas na rede. Nesses casos, a microrrede sustentou o abastecimento da cidade por aproximadamente 5 a 6 horas, permitindo a execução das intervenções sem interrupção do fornecimento de energia — uma das principais vantagens operacionais desse tipo de solução”, afirma o executivo.

Apesar dos resultados já observados em campo, a ampliação das microrredes em larga escala ainda depende de planejamento estratégico e de uma análise criteriosa da viabilidade econômica dos projetos. “Neste primeiro momento, o foco está em aplicações semelhantes ao caso de Serra da Saudade: regiões menores, com limitações no fornecimento e onde as soluções convencionais apresentam custos elevados. Além disso, também estão sendo avaliados novos cenários, incluindo aplicações em áreas urbanas e atendimento a cargas específicas, ampliando o escopo de uso da tecnologia”, projeta Wagner Veloso.

Projeto tem investimento de R$ 7 milhões, o sistema instalado em Serra da Saudade tem capacidade de 2,0 MWh 

A consolidação desse modelo em larga escala, no entanto, ainda depende de avanços regulatórios que ofereçam maior previsibilidade para os investimentos. “Do ponto de vista regulatório, iniciativas como a inclusão de diretrizes específicas para armazenamento no MCPSE (Manual de Controle Patrimonial do Setor Elétrico da ANEEL) trazem maior clareza e segurança jurídica para essas aplicações”, pontua o Gerente de Engenharia, Automação e Sistemas da Cemig.

O Manual de Controle Patrimonial do Setor Elétrico (MCPSE) é uma norma e manual de procedimentos da ANEEL que padroniza o controle dos ativos imobilizados das empresas de energia elétrica (geração, transmissão e distribuição). Faz parte da Resolução Normativa nº 674/2015.

Outras experiências

Embora o avanço de microrredes no Brasil ainda seja apontado como incipiente, algumas iniciativas já demonstram, na prática, o potencial da tecnologia para ampliar o acesso à energia e promover o desenvolvimento socioeconômico em regiões remotas. Um dos exemplos é o projeto implantado pela Neoenergia na comunidade de Xique-Xique, no município de Remanso (BA).

Inaugurada em 2023, a iniciativa é considerada a primeira microrrede do país operando com energia 100% renovável. O sistema atende cerca de 400 moradores, distribuídos em 100 residências, além de uma escola, um poço artesiano comunitário e uma associação de moradores.

“Com energia disponível 24 horas por dia, a comunidade passou a contar com um nível de serviço significativamente superior ao das soluções tradicionalmente utilizadas em regiões isoladas. A escola passou a oferecer aulas noturnas e os estabelecimentos comerciais ampliaram seus horários de funcionamento, criando novas oportunidades econômicas para a população local”, explica Gustavo Travassos, especialista de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Neoenergia.

A solução é composta por uma usina fotovoltaica de 243 kWp e um sistema de armazenamento em baterias com capacidade total de 928 kWh. A infraestrutura inclui uma rede de distribuição em 13,8 kV com aproximadamente 30 quilômetros de extensão, responsável pelo atendimento de 113 unidades consumidoras.

Microrrede de Xique-Xique, na Bahia

De acordo com Travassos, todos os equipamentos operam de forma integrada por meio de sistemas avançados de monitoramento e automação. As informações da usina solar e das baterias são transmitidas em tempo real ao Centro de Operações da Neoenergia Coelba, permitindo acompanhamento contínuo da operação, maior confiabilidade do fornecimento e resposta rápida a eventuais ocorrências. “Em determinadas situações, a microrrede pode oferecer um fornecimento de energia com elevada qualidade e confiabilidade. O conhecimento adquirido nesse projeto amplia as possibilidades de aplicação dessa solução e contribui para a modernização e a resiliência do setor elétrico”, conclui o especialista.

Sistemas de microrredes em operação da Copel

Mais ao Sul do país, a Copel, distribuidora do estado do Paraná, tem atualmente cerca de 20 microrredes em sua área de concessão, além de aproximadamente 200 sistemas isolados de atendimento com armazenamento de energia e outros projetos em fase de testes.

Para o diretor comercial da distribuidora, Júlio Omori, uma das prerrogativas para a adoção de sistemas de microrredes é que eles sejam totalmente integrados aos sistemas de automação, sensoriamento e monitoramento em tempo real. “A instalação de uma microrrede ou de um sistema de armazenamento tem que estar totalmente integrada a um sistema de automação e controle. No nosso entendimento, mesmo em áreas isoladas, você não pode abrir mão de ter todas as informações chegando para alguém capaz de avaliar a situação e, se necessário, tomar uma ação de controle”, afirma o executivo.

A fronteira de testes da Copel vai além das baterias químicas tradicionais e chega a usar o biogás como “estoque” de energia. O laboratório prático para essa premissa foi São Miguel do Iguaçu, no oeste paranaense, em que a forte atividade suinícola transformou o que seria um passivo ambiental em um reforço para o sistema elétrico.

“Eu diria que talvez a primeira microrrede que usa a instalação do próprio cliente para ajudar o sistema elétrico tenha sido feita por nós, numa instalação de baixa tensão, só para mostrar o conceito. Os dejetos dos suínos geram gás metano e, sempre que há uma interrupção no fornecimento de energia, esse sistema de geração é usado para atender tanto a parte interna da propriedade quanto, eventualmente, a rede”, relata o diretor.

A não utilização de combustíveis fósseis também dita o ritmo de operação na Ilha das Cobras. Isolada no litoral, a localidade abriga a Escola do Mar, um centro de ensino de gastronomia, turismo e preservação ambiental, e centros de treinamentos do governo estadual paranaense. A microrrede local foi desenhada com 250 kWp (quilowatt-pico) de geração solar e baterias de lítio capazes de suportar até dois inteiros sem sol.

Microrrede de Guaraqueçaba, no litoral norte do Paraná

Para garantir o funcionamento das operações, a distribuidora manteve um motogerador a diesel para recarregar a bateria de forma rápida, sendo desligado assim que o banco de lítio recuperasse a estabilidade. “Durante o dia, a energia solar carrega as baterias; quando o sol deixa de estar presente, as baterias passam a fornecer energia. Se elas caem a um nível mínimo, o gerador entra — mas entra justamente para recarregar a bateria. Quando a bateria se restabelece, o gerador sai novamente, e o ciclo se repete até o sol voltar”, explica o diretor.

O caminho para o DSO

Embora as microrredes ainda avancem de forma gradual no Brasil, especialistas avaliam que a tecnologia já atingiu um estágio de maturidade suficiente para aplicações em larga escala. O principal desafio, porém, está em criar condições regulatórias e comerciais que viabilizem sua expansão.

De acordo com Leonardo Melo da Silva, pesquisador e secretário do Comitê de Estudos do Cigre, o Brasil ainda está atrás de mercados mais maduros, mas os projetos demonstram que as barreiras tecnológicas já foram superadas. “No Brasil, as microrredes ainda avançam de forma incipiente quando comparadas a mercados maduros como Estados Unidos, Austrália e Alemanha. Contudo, a tecnologia já está consolidada e os projetos reais demonstram que o gargalo atual não é mais tecnológico, mas sim regulatório e comercial”, aponta o especialista.

Nesse contexto, a evolução das microrredes impulsiona as distribuidoras a assumirem gradualmente o papel do Operador do Sistema de Distribuição (Distribution System Operator – DSO), marcando uma transformação em seus modelos de negócio. Na prática, a concessionária deixa de atuar apenas como transportadora de energia e passa a coordenar fluxos bidirecionais de geração, armazenamento e consumo de forma dinâmica, conforme as necessidades da rede.

A transição para a era das microrredes impulsiona as distribuidoras a assumirem o papel de Operador do Sistema de Distribuição (Distribution System Operator – DSO), marcando uma virada histórica em seus modelos de negócios. Na prática, a concessionária deixa de ser uma entregadora passiva de energia e passa a orquestrar fluxos bidirecionais, despachando geração, armazenamento e consumo de forma ativa conforme a necessidade da rede.

Para exercer esse novo papel, a coleta de dados na ponta exige um “cérebro” central robusto capaz de processá-los. Com investimento superior a R$ 100 milhões, a Cemig conclui, ainda em 2026, a implantação de seu ADMS (Advanced Distribution Management System), plataforma que permite o monitoramento, a análise e o controle em tempo real de toda a malha mineira, integrando de forma inteligente as novas fontes renováveis e descentralizadas conectadas ao sistema.

“A automação avançada é fundamental para a operação da microrrede, pois viabiliza sua integração com o sistema ADMS da Cemig, permitindo a supervisão e o controle remoto da planta”, afirma Wagner Veloso, Gerente de Engenharia, Automação e Sistemas da Cemig.

A materialização dessa infraestrutura conectada já ganha escala comercial na Copel. Apoiada em uma base de 2 milhões de medidores inteligentes, a empresa utiliza sua malha digital para monitorar remotamente a carga das baterias de seus clientes, abrangendo desde residências urbanas até estufas de produtores rurais.

“Essa capacidade de despacho ativo pavimenta o mercado de serviços ancilares que ainda esbarra no vácuo normativo brasileiro”, aponta o diretor comercial Júlio Omori. Serviços ancilares são ações do setor elétrico que auxiliam e garantem a estabilidade, a segurança e a qualidade da transmissão e distribuição de energia.

“Nos Estados Unidos, os consumidores recebem descontos na tarifa ao permitirem o controle remoto de seus ares-condicionados pelas concessionárias para aliviar o sistema nos horários de pico. É esse tipo de flexibilidade que precisamos viabilizar aqui”, defende Omori.

O desafio, porém, não é apenas operacional, mas também contábil. Omori alerta que a expansão comercial esbarra em critérios de depreciação defasados pela ANEEL. Atualmente, a regra exige que um ativo de bateria autônoma tenha uma vida útil regulatória de 18 anos na base de remuneração das distribuidoras. “Isso é irreal, ninguém investe nessas condições. Seria necessária uma atualização regulatória, semelhante ao que ocorreu com os medidores, estabelecendo regras mais claras sobre esse tipo de investimento na distribuição”, alerta o executivo.

Microrredes versus geradores a diesel

Enquanto distribuidoras buscam utilizar microrredes para aumentar a confiabilidade do fornecimento e flexibilizar a operação da rede elétrica, na Amazônia a tecnologia atende a uma necessidade ainda mais fundamental: garantir energia a comunidades que permanecem fora do Sistema Interligado Nacional (SIN). Segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o Brasil conta atualmente com cerca de 200 sistemas isolados de geração de energia, concentrados principalmente na região Norte. Nessas áreas, o fornecimento de eletricidade depende majoritariamente de usinas termelétricas movidas a diesel.

Nesse contexto, a Huawei e a Aggreko estruturaram um projeto para a implantação de 24 microrredes híbridas na região amazônica, combinando geração solar fotovoltaica, sistemas de armazenamento de energia em baterias (BESS) e geração convencional.

Segundo Bárbara Pizzolatto, diretora de Off-Grid da Huawei no Brasil, a proposta é inverter a lógica tradicional de operação desses sistemas. Em vez de atuar como principal fonte de energia, o gerador passa a exercer uma função complementar, entrando em operação apenas quando necessário.

“A ideia é que o gerador entre como backup, e não como fonte primária. O sistema conta com um controlador inteligente. Em determinados momentos, a geração fotovoltaica consegue atender a carga da cidade e, ao mesmo tempo, carregar as baterias. Como a demanda varia ao longo do dia, o BESS absorve essas oscilações e permite que o gerador opere, quando necessário, na sua faixa de maior eficiência, entre 60% e 80%”, explica.

A implantação das microrredes, entretanto, exigiu adaptações específicas para a realidade amazônica. O principal desafio foi a logística de transporte dos equipamentos pelos rios da região.

“O BESS é um equipamento robusto e pesado. Durante os períodos de seca severa, as embarcações conseguem transportar apenas cerca de 10 toneladas por viagem. Um contêiner Utility para uma demanda de 2 MW pesa aproximadamente 28 toneladas, o que inviabiliza sua movimentação em boa parte do ano”, relata a executiva.

Para contornar essa limitação, o projeto foi modularizado. “Optamos por equipamentos da linha Commercial and Industrial (C&I), com capacidades entre 215 kW e 241 kW. Eles pesam cerca de 2,8 toneladas e podem ser transportados durante todo o ano. Os contêineres maiores ficam restritos às localidades onde as condições de navegação permitem esse tipo de operação”, afirma.

Diferentemente dos projetos conectados à rede, as microrredes instaladas em sistemas isolados contam com uma equação econômica mais direta. A substituição parcial do diesel reduz custos operacionais e minimiza a dependência de uma cadeia logística complexa, especialmente em períodos de estiagem, quando o transporte fluvial é comprometido.

“A monetização é muito mais clara. O retorno sobre o investimento é bastante atrativo porque substitui diretamente o diesel, um combustível caro e cuja logística é extremamente complexa. Em períodos de seca, o abastecimento pode levar até 45 dias. Nesse segmento, o desafio já não é comprovar a viabilidade da tecnologia, mas ampliar sua escala de aplicação”, conclui Bárbara Pizzolatto.

Fonte: REVISTA O SETOR ELÉTRICO – NEWSLETTER – 02/07/2026

Resumo das Notícias de Hoje

15/7/2026

Dia 15 de julho de 2026, quarta-feira

- ELECTRA COMERCIALIZADORA (comercialização)

A diretoria da Aneel aprovou por unanimidade a rescisão por inadimplência de 19 Contratos Bilaterais Regulados celebrados pela Electra Comercializadora com 17 distribuidoras de pequeno porte. A proposta votada nesta terça-feira, 14 de junho, prevê tratamento regulatório excepcional a ser aplicado aos processos tarifários dessas empresas, desconsiderando os valores da inadimplência contratual.

> Saiba mais na notícia “Aneel aprova rescisão de contratos da Electra com distribuidoras”: https://shorturl.at/5aa3O

- LRCAP DE BATERIAS (política)

O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, disse que o Brasil pode estar próximo do final da contratação de energia por meio de combustíveis fósseis. Em coletiva realizada em Brasília, após reunião do Conselho Nacional de Política Energética, ele afirmou que o governo deverá realizar um último leilão fóssil. Porém, este seria de pequeno porte quando comparado ao LRCAP de março. Na oportunidade foram viabilizados 19,5 GW, a maior parte de térmicas na soma das duas etapas do certame.

> Continue a leitura na matéria “Sucesso do LRCAP de baterias pode representar o final dos fósseis no país, avalia Silveira”: https://shorturl.at/PZHrV

- CERTIFICAÇÃO DE OPERADORES DO MERCADO 2026 (mercado)

A Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) abriu as inscrições para a Certificação de Operadores do Mercado 2026. O prazo segue até 18 de setembro. Já a prova será aplicada em 18 de outubro, em formato on-line.

> Leia mais em “CCEE abre inscrições para certificação de operadores do mercado”: https://short-url.cc/1tMjd”

- OUTRAS NOTÍCIAS DE HOJE

Abdan quer atualizar marco legal e pressionar por Angra 3: https://shorturl.at/cJrtp

Agenda de ações da associação inclui fortalecimento de órgão regulador e mitigação de impactos para licenciamento de projetos na mineração.

CNPE autoriza suspensão das dívidas de Angra 3 com CEF e BNDES: https://short-url.cc/1tMiE

Geração renovável registra crescimento mais rápido da história, aponta Irena: https://shorturl.at/EsXq2

Relatório confirma a expansão eólica e da solar nessa década no Brasil com crescimentos expressivos para ambas as fontes, a segunda em especial que passou de apenas 135 MW para mais de 60 GW em capacidade instalada.

Fonte:  CanalEnergia

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Leilão de energia fóssil compromete a política climática do Brasil

15/7/2026

O Brasil vive, de forma dramática, os impactos da crise climática. Secas que ameaçam nossa segurança hídrica e a comida que chega à mesa. Enchentes que destroem vidas e economias inteiras. Ondas de calor que castigam a saúde de todos e incêndios que devoram a Amazônia e os demais biomas do país. Esses eventos não são mais exceções: eles se tornaram a nova realidade do aquecimento global, alimentado pela queima incansável de combustíveis fósseis.

Por um lado, o Brasil assumiu a liderança na COP30, em Belém, junto com dezenas de nações, ao propor o "Mapa do Caminho" para o fim gradual e rápido dos combustíveis fósseis. Por outro, o governo realizou o LRCap (Leilão de Reserva de Capacidade de Energia Elétrica), que abre caminho para um grande volume de novas usinas termelétricas fósseis.

O LRCap foi apresentado como uma medida de segurança energética. O mecanismo paga as usinas simplesmente para estarem disponíveis e poderem gerar energia quando o sistema mais precisa — especialmente entre 18h e 21h, quando o sol se põe, o vento diminui, as luzes das casas acendem e o consumo dispara. Na prática, porém, ele se transformou num forte incentivo à construção de novas térmicas a gás, carvão e diesel. Em vez de nos ajudar a abandonar os fósseis, o leilão garante que eles continuem poluindo o ar e emitindo GEE (gases de efeito estufa) de nosso sistema elétrico por décadas.

Ao assinar contratos de longo prazo com fontes fósseis, o país manda um sinal claro ao mercado: seguimos na direção oposta àquela que defendemos nos fóruns internacionais e na COP30. Isso cria um sério problema de credibilidade. Não adianta falar bonito lá fora sobre o fim dos fósseis enquanto, aqui dentro, construímos uma expansão estrutural baseada em fontes poluentes.

Essa escolha tem um impacto frontal sobre a Política Nacional de Mudança do Clima e afeta diretamente as metas das NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) do Brasil, apresentadas pelo país à ONU por meio da Convenção-Quadro sobre Mudança do Clima. A contradição é alarmante: enquanto o leilão contrata poluição para as próximas décadas, as NDCs estabelecem metas de redução de emissões em toda a economia, com cortes significativos de 53% até 2030 em relação às emissões em 2005, avançando para metas ainda mais ambiciosas de 67% para 2035 e reafirmando o objetivo de neutralidade climática até 2050.

Ao viabilizar novas térmicas fósseis de longa duração, o LRCap dificulta o cumprimento dessas metas e compromete o caminho para o net zero. Não se trata apenas de números: trata-se de coerência. Uma política climática séria não pode aceitar decisões que aumentam as emissões de carbono justamente no setor que deveria liderar a descarbonização.

Outro aspecto crítico é o choque com o mercado de carbono que o Brasil está construindo. Com a regulação avançando, o preço do carbono vai se tornar um instrumento central para guiar investimentos. A dependência de combustíveis fósseis criada pelo LRCap significa que, em poucos anos, essas usinas se tornarão ativos encalhados, caros de operar, incompatíveis com as regras de carbono e fonte de custos adicionais para toda a sociedade. O contribuinte vai pagar duas vezes: na conta de luz e no ajuste do mercado de carbono, enquanto perdemos a oportunidade de investir em soluções verdadeiramente sustentáveis.

Como climatologistas que acompanham há décadas os efeitos da mudança do clima no nosso país, vemos aqui um descompasso estratégico perigoso. A segurança energética é legítima, mas não pode servir de pretexto para atrasar o que é inevitável: o fim dos combustíveis fósseis. O "Mapa do Caminho" internacional que o Brasil ajudou a articular na COP30, com apoio de mais de 80 países, mostra que temos visão e liderança global. Agora precisamos ter coerência aqui em casa.

O Brasil tem tudo para ser protagonista da transição energética: sol de sobra, vento forte e muita água. Em vez de apostar em fósseis inflexíveis, deveríamos priorizar baterias de armazenamento em grande escala, resposta inteligente da demanda, modernização da rede e renováveis despacháveis. Essas alternativas são mais baratas, flexíveis e perfeitamente alinhadas ao futuro de baixo carbono que nossos compromissos internacionais e o mercado de carbono exigem.

A crise climática não aceita contradições. Enquanto o mundo acelera a transição energética, o Brasil não pode se dar ao luxo de defender liderança global e, ao mesmo tempo, apostar em mais décadas de combustíveis fósseis. O LRCap é um erro estratégico. Ainda é possível corrigir o rumo: colocar as soluções limpas no centro das decisões, alinhar toda a política energética à Política Nacional de Mudança do Clima e transformar o discurso da COP30 em ação concreta. O caminho para o fim dos fósseis começa agora, dentro de casa. Só assim o Brasil deixará de ser parte do problema e se tornará, de fato, parte da solução, antes que o custo para o clima, para a economia e para as gerações futuras se torne irreversível.

Cientistas brasileiros lançaram no início de novembro de 2025 na Academia Brasileira de Ciências, e relançaram durante a COP30, o estudo "Brazil Net Zero by 2040", que mostra que o Brasil tem todas as condições de zerar as emissões líquidas dos GEE até 2040, com rápida transição para zerar uso de combustíveis fósseis em todos os setores, especialmente em termelétricas.

Fonte: Ecoa | Carlos Nobre

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PARA LER COM CALMA

11/7/2026

Para quem está na correria e não conseguiu acompanhar os assuntos dessa semana, aqui vai um resumo:

Leilões e Expansão

- Leilão de Transmissão: Axia Energia Sul venceu três dos quatro lotes do segundo leilão de transmissão, que foram devolvidos pela MEZ Energia.  https://shorturl.at/3w4M6

- Leilão de Baterias: MME prevê que o primeiro leilão de armazenamento por baterias (dezembro/2026) aumentará a flexibilidade do sistema elétrico.  https://shorturl.at/5uySR

- Leilões de Energia Existente: Aneel propõe estender de 3 meses para 1 ano o prazo de cobertura de garantias nos leilões A-1, A-2 e A-3.  https://shorturl.at/MjBVQ

Cortes de Geração

- Projeto Piraquê: Entrou em operação para reduzir o curtailment de renováveis no Norte de MG e ampliar escoamento para o Sudeste, com capacidade inicial de 2 GW.  https://shorturl.at/KghAb

- CP45: Aneel revisou minuta sobre cortes de geração e sugeriu nova consulta pública após fase de testes ("operação sombra").  https://shorturl.at/DzR8X

Comercialização

- Preços na BBCE: Contratos de energia caíram após CMO zerado nas regiões Sudeste/Centro-Oeste, Sul e Nordeste na semana de 4 a 10/07.  https://shorturl.at/9Fcmy

- Liquidação do MCP: CCEE estuda reduzir horizonte de liquidação semanal, mas mudança deve levar pelo menos 1,5 ano para ser implementada caso haja a decisão por seguir com alteração.  https://short-url.cc/1yLky

Regulação e Políticas

- Redata: Senador propõe incluir térmicas no atendimento a data centers, mantendo preferência por renováveis.  https://short-url.cc/1tep2

- Transparência no Despacho: CMSE publicou diretrizes para deliberações sobre geração por garantia de suprimento.  https://short-url.cc/1yTQq

Tendências e Desafios

- Data Centers: ONS alerta que expansão de data centers e hidrogênio verde pressionará o sistema elétrico a partir de 2029.  https://short-url.cc/1yLoB

- Renováveis: Relatório da Irena indica que fontes renováveis evitaram US$ 480 bi em custos com combustíveis fósseis em 2025.  https://shorturl.at/LRkD0

- PDE 2036: EPE lançou caderno com cenário de referência de crescimento médio de 2,5% ao ano para a economia brasileira até 2036. https://shorturl.at/ECgSS

Mercado

- Alessandro Cantarino: Exonerado da Aneel, assumirá como vice-presidente executivo da Abraceel. https://shorturl.at/5bfEj

- Engie: Anunciou oferta de ações que pode chegar a R$ 10,5 bilhões.  https://shorturl.at/cJxDq

Fonte: CanalEnergia

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Resumo das Notícias de Hoje

10/7/2026

Dia 10 de julho de 2026, sexta-feira

- CP45 (geração)

A Aneel já tem uma minuta revisada da resolução resultante da Consulta Pública 45, que trata dos cortes de geração no Sistema Interligado. A nova versão adia para uma etapa posterior a decisão final sobre a aplicação da metodologia proposta pela agência. O documento sugere a abertura de outra CP, após a avaliação dos resultados da fase de testes conhecida como operação sombra.

> Saiba mais na notícia "Nova minuta da CP45 prevê consulta pública após operação sombra": https://shorturl.at/DzR8X

- LEILÕES DE ENERGIA EXISTENTE (expansão)

A Aneel decidiu promover novos ajustes nas regras dos leilões de energia existente de 2026. A proposta do edital dos leilões A-1, A-2 e A-3, amplia o prazo de cobertura das garantias a serem aportadas pelos vendedores de três meses para um ano. O objetivo da medida é reduzir os impactos de eventuais inadimplências de comercializadoras, que tem sido majoritárias nesses certames.

> Continue a leitura na notícia "Aneel propõe estender garantias de leilões de energia existente": https://shorturl.at/MjBVQ

- TRANSPARÊNCIA DO DESPACHO (geração)

O Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico publicou resolução com diretrizes para transparência das deliberações sobre geração por garantia de suprimento energético. A norma estabelece os procedimentos a serem observados pelo CMSE, antes da autorizar esse tipo de despacho.

> Leia mais na notícia "CMSE publica diretrizes para transparência do despacho por garantia de suprimento": https://short-url.cc/1yTQq”

- OUTRAS NOTÍCIAS DE HOJE

Wartsila: descompasso entre construção de Data Centers e infraestrutura de energia na América: https://shorturl.at/LESCC

Estudo mostra restrições de conexões e sugere que data centers sejam tratados como infraestrutura de longo prazo.

Light conclui aumento de capital de R$ 1,5 bilhão: https://shorturl.at/SGF5b

Companhia encerra a subscrição das sobras, completa a captação e avança para a etapa de conversão de dívidas prevista no plano de recuperação judicial.

Echoenergia aposta em qualidade para crescer na comercialização: https://shorturl.at/SJTVD

Comercializadora foi a sexta maior varejista de 2025, acompanha o movimento de abertura do mercado e vê chance de consolidação do setor.”

Fonte: CanalEnergia

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As ondas de calor da Europa (e do mundo) vieram para ficar

10/7/2026

Nas últimas semanas de junho de 2026, a Europa veio ao centro da discussão sobre mudanças climáticas em razão de uma intensa onda de calor. Temperaturas atingiram 40,9°C em Paris e chegaram a 43,8°C em Pulluau, no oeste da França. Recordes também foram registrados na Alemanha, Polônia e República Tcheca, enquanto quase 150 milhões de pessoas foram afetadas e mais de 1.300 mortes foram associadas ao calor desde 21 de junho na Europa. Na França, o evento agravou a seca e elevou significativamente o risco de incêndios florestais.

O episódio levanta uma questão central: trata-se de um evento isolado ou de uma manifestação do aquecimento global?

Uma das consequências mais evidentes do aquecimento global é o aumento da frequência, intensidade e duração desses eventos. As ondas de calor são períodos prolongados de temperaturas excepcionalmente elevadas acima de 37°C próximas à superfície terrestre e representam um dos eventos climáticos extremos de maior impacto na saúde humana.

O calor extremo já constitui um novo regime climático em muitas regiões do planeta. Atualmente, cerca de 30% da população mundial está exposta a condições potencialmente letais por pelo menos 20 dias por ano, enquanto a proporção da população submetida a pelo menos 90 dias anuais de forte estresse térmico aumentou de 55% na década de 1970 para 70% atualmente. Em várias regiões, ocorreram até 50 dias adicionais de estresse térmico por ano, acompanhados pelo prolongamento da estação quente. As noites mais quentes estão aquecendo mais rapidamente do que os dias mais quentes, favorecendo eventos compostos de calor diurno e noturno cada vez mais frequentes e prolongados.

A Europa está entre as regiões onde o sinal das mudanças climáticas se manifesta de forma mais evidente. As temperaturas aparentes (ou seja, como são percebidas pelo corpo) máximas durante os dias mais quentes do ano aumentaram cerca de 4°C nos últimos dez anos em comparação com a década de 1970, enquanto o estresse térmico extremo tornou-se 2,5 vezes mais frequente (assim como na América do Sul). Eventos compostos de calor diurno e noturno aumentaram 73%, episódios com duração entre 15 e 30 dias tornaram-se 3,4 vezes mais frequentes e ondas de calor com até 120 dias consecutivos praticamente dobraram de frequência. Países como Espanha, França, Alemanha, Polônia, Estados Bálticos e Ucrânia apresentam aumento significativo na frequência e intensidade desses eventos, com um sinal climático que já emergiu da variabilidade natural desde aproximadamente 2011.

As ondas de calor resultam da interação entre processos atmosféricos e condições da superfície terrestre. Bloqueios atmosféricos e a advecção de massas de ar quente mantêm temperaturas elevadas sobre uma região, enquanto fatores locais, como disponibilidade de água no solo, cobertura vegetal, nebulosidade e albedo, determinam quanto da energia solar é dissipada por evapotranspiração ou convertida em aquecimento. Em regiões secas, a redução da evapotranspiração diminui o resfriamento promovido pela vegetação, intensificando e prolongando o calor. Em escala climática, a variabilidade associada ao ENSO (El Niño-Oscilação Sul) também influencia esses eventos, com episódios de El Niño favorecendo ondas de calor mais frequentes e intensas, especialmente nos trópicos.

A onda de calor de 2026 na Europa exemplifica esses mecanismos. O evento foi sustentado por um bloqueio ômega, um sistema persistente de alta pressão que interrompeu o fluxo da corrente de jato, mantendo ar quente estacionário sobre a Europa Ocidental. A subsidência atmosférica, o céu predominantemente limpo e a advecção de ar muito quente do norte da África elevaram as temperaturas acima de 40°C, enquanto o ressecamento do solo reduziu a evapotranspiração e reforçou o aquecimento da superfície. Embora bloqueios atmosféricos ocorram naturalmente, o aquecimento global aumenta a probabilidade de que produzam ondas de calor mais intensas e duradouras.

As projeções indicam que o risco de ondas de calor continuará aumentando em todo o mundo. Até 2100, entre 48% e 74% da população poderá viver sob exposição frequente a calor extremo, dependendo se adotaremos medidas de fortes reduções das emissões ou se continuaremos aumentando-as continuamente por muitos anos. Além do aumento na frequência, espera-se que as ondas de calor sejam mais longas, intensas e acumulem maiores cargas de calor, fazendo com que grande parte da população experimente condições climáticas sem precedentes em relação ao clima observado no século 20. Crianças nascidas entre 2021 e 2050 viverão sob um regime térmico substancialmente diferente daquele experimentado por seus avós, mesmo em cenários de mitigação das emissões. Em algumas regiões, projeta-se que nenhuma pessoa viverá sob condições consideradas 'familiares' em relação ao clima observado entre 1961 e 1990. As mudanças nas ondas de calor farão com que mais de 60% da população europeia esteja exposta a níveis inéditos de calor acumulado durante ondas de calor.

As ondas de calor representam um dos eventos climáticos extremos de maior impacto sobre a saúde humana, os ecossistemas, a agricultura, a infraestrutura, a disponibilidade hídrica e a produtividade econômica, aumentando a demanda por atendimentos de emergência, hospitalizações e serviços de vigilância em saúde, especialmente entre populações mais vulneráveis.

Ondas de calor resultam em acúmulo de calor no organismo e em uma elevação perigosa da temperatura corporal central acima do seu nível ideal (hipertermia). O calor já constitui a principal causa de mortalidade relacionada às condições meteorológicas no mundo, agravando doenças cardiovasculares, respiratórias, renais e transtornos de saúde mental. Entre 1990 e 2019, estimou-se que 0,94% das mortes ocorridas durante a estação quente no mundo foram atribuíveis às ondas de calor, o equivalente a cerca de 153 mil óbitos por ano. Na média dos últimos três anos, quando o aquecimento global atingiu 1,5°C e as ondas de calor bateram recordes, o número de mortes atingiu cerca de 500 mil por ano, especialmente idosos com até 14 mil mortes no Brasil. Crianças, idosos, trabalhadores expostos ao ar livre e populações socialmente vulneráveis estão entre os grupos mais suscetíveis. Durante a terceira onda de calor do verão de 2020 na Inglaterra, foi observado um aumento significativo da mortalidade entre pessoas de zero a 64 anos, um padrão que não havia sido registrado em anos anteriores. Segundo o Unicef, cerca de 559 milhões de crianças já vivem sob elevada frequência de ondas de calor e praticamente todas as crianças do planeta enfrentarão esses eventos com maior frequência até 2050, mesmo em cenários compatíveis com o Acordo de Paris.

Os impactos também se estendem aos ecossistemas e à economia. Ondas de calor intensas associadas ao déficit hídrico reduzem a produtividade agrícola, aumentam o risco de incêndios florestais, comprometem o funcionamento dos ecossistemas, elevam o consumo de energia, afetam a infraestrutura urbana e reduzem significativamente a produtividade do trabalho.

Embora parte do aumento das ondas de calor já seja inevitável devido ao aquecimento acumulado do sistema climático, seus impactos futuros dependerão da combinação entre mitigação das mudanças climáticas e adaptação.

A principal estratégia de mitigação consiste na rápida redução das emissões de gases de efeito estufa por meio da substituição dos combustíveis fósseis por fontes renováveis de energia, aumento da eficiência energética e conservação dos ecossistemas naturais. Nesse contexto, a expansão das energias renováveis já demonstra resultados importantes: em 2025, elas responderam por 46,4% da geração de eletricidade na Europa, com a energia solar atingindo participação recorde (12,5%). Paralelamente, florestas e outros ecossistemas naturais desempenham papel fundamental ao remover dióxido de carbono da atmosfera, regular o ciclo hidrológico, promover resfriamento por evapotranspiração e reduzir a intensidade dos extremos de calor, especialmente em escala regional.

A adaptação torna-se igualmente essencial. Sistemas de alerta precoce, planos de ação para ondas de calor, fortalecimento da vigilância em saúde, ampliação da arborização urbana, criação de áreas verdes, restauração ecológica de ecossistemas terrestres e de áreas úmidas, infraestrutura resiliente e outras estratégias de resfriamento das cidades, como ampla implementação de telhados verdes, podem reduzir significativamente a exposição da população. A incorporação de índices de estresse térmico, como o UTCI (Índice Universal de Clima Térmico), às avaliações de risco permite identificar situações em que temperatura, umidade e vento tornam o calor mais perigoso do que indicado apenas pela temperatura do ar.

Sem reduções rápidas das emissões e investimentos robustos em adaptação, bilhões de pessoas adicionais poderão enfrentar condições perigosas de estresse térmico nas próximas décadas, com consequências crescentes para a saúde, a segurança alimentar, os ecossistemas e a economia global.

Para ler mais:

Global heat stress intensification and its expanding footprint on the human population

How fast is climate changing? One generation is sufficient for unfamiliar heatwave characteristics to emerge in Europe

Global, regional, and national burden of heatwave-related mortality from 1990 to 2019: A three-stage modelling study

Heatwave Mortality in Summer 2020 in England: An Observational Study

Fonte: Ecoa | Carlos Nobre – 07/07/2026

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