Cortes de geração, avanço da MMGD, compartilhamento dos geradores, revisão de parâmetros do CVAr e seca na região Sul estão entre os temas avaliados.
A Aneel tem avaliado com cautela um conjunto de situações que podem afetar de algum modo o cenário atual de crise de liquidez do mercado.
Nesse diagnóstico inicial entram temas que estão de certa forma entrelaçados, como os cortes de geração (curtailment) o avanço do micro e minigeração distribuída e um eventual comportamento oportunista dos geradores.
Há também questões relacionadas ao modelo de aversão a risco e à formação de preços. E uma variável claramente conjuntural, que é a seca na região sul do país.
“Essa questão de eventual falta de liquidez, a gente tem que ver o contexto global do setor hoje. Por um lado, as empresas podem estar tomando posições mais conservadoras na disponibilização de sua energia. Isso nós não podemos afirmar, temos que fazer uma análise melhor,” disse o diretor-geral da Agência Nacional de Energia Elétrica, Sandoval Feitosa.
O tema foi tratado pelo Canal Energia na Reportagem Especial pulicada na última quinta-feira, 30 de abril. Feitosa conversou nesse mesmo dia com a reportagem para uma avaliação da conjuntura. Estava acompanhado do especialista em regulação e assessor de diretoria Júlio César Resende Ferraz. E também pelo Superintendente de Regulação dos Serviços de Geração e Mercados de Eletricidade da Aneel, Felipe Calábria.
CanalEnergia: Eu queria que vocês me falasse um pouco de como a Aneel está observando o mercado nesse momento. A gente está vendo essa crise de liquidez e tem inclusive comercializadora tradicional com risco de default.
Sandoval Feitosa: Primeiro, o mercado é livre com o seu conceito e os seus riscos, portanto. Então, a gente entende que a aquisição de energia, comercialização de energia num ambiente livre, ele tem os custos de oportunidade, por ser barato em algum momento, mas tem os riscos.
Essa questão de eventual falta de liquidez, a gente tem que ver o contexto global do setor hoje. Por um lado, as empresas podem estar tomando posições mais conservadoras na disponibilização de sua energia. Isso pode ser algum comportamento oportunista? Isso nós não podemos afirmar. Temos que fazer uma análise melhor. Há, necessariamente, outros adquirentes de energia para recompor o lastro, principalmente aqueles que estão sofrendo os efeitos do curtailment, que estão comprando energia também. Tem mais um algum efeito? {pergunta para os técnicos}
Felipe Calábria: Tem toda a discussão da MMGD.
Sandoval Feitosa: Isso acaba afetando a disponibilidade da energia.
Júlio Cesar Resende Ferraz: E a seca do Sul.
Sandoval Feitosa: Tem essa questão conjuntural da seca do sul. E tem questões que podem estar se tornando estruturais, que é a questão de um maior avanço do MMGD. Isso acaba avançando no deslocamento de geração renovável centralizada. Esses agentes precisam estar adquirindo energia e estão competindo com o mercado de comercialização.
E como é que a Aneel está atuando? Primeiro, as decisões foram tomadas por esses agentes, considerando como agentes os consumidores livres, as próprias comercializadoras. Só faz sentido o negócio de comercialização se você puder comprar barato, vender com preço mais caro. Se você realmente não tem o produto, ou ele está escasso e por conta disso está mais caro, você acaba não conseguindo fechar as operações.
Então, a Aneel está trabalhando com a agenda do mine e microgeração distribuída. É claro que isso tem um tempo. A gente está discutindo também a questão do curtailment. A questão da seca do Sul é uma questão conjuntural, não depende aqui da agência. E esse é o desenho. Mais alguma coisa? Por favor Júlio você sabe até mais do que eu desse assunto.
Júlio Ferraz: Tem uma questão. Alguns geradores alegam que estão com dificuldade de observar a garantia das comercializadoras que querem comprar a energia deles. Então, essa é a discussão que passa pelo preço também.
Felipe Calábria: Tem discussão também do modelo. A formação do preço do despacho, aversão a risco, teorias também do modelo.
Sandoval Feitosa: É isso. Esses são alguns diagnósticos para o probo alguns diagnósticos para o problema.
CanalEnergia: Essa história da questão do modelo, da aversão a risco, isso a gente ouviu também. Essa avaliação de preciso ter uma mudança nos parâmetros da CVAr. E parece que esse assunto vai ser tratado no CMSE (Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico) da semana que vem...
Sandoval Feitosa: na verdade, isso é competência do CMSE que está em discussão técnica. Está aberto.
Felipe Calábria: A questão dos parâmetros hoje é 15/40. E há pressão das comercializadoras para baixar para 15/30. E, eventualmente, para 15/35.
Sandoval Feitosa: Isso é que está em discussão. Não temos ainda nenhuma posição. O ONS é que está preparando os estudos. O ONS, a CCEE, dentro do CT (Comitê Técnico PMO/PLD). Tem que enviar hoje (quinta-feira, 30/4, data da entrevista) o relatório , inclusive. Estão mandando o relatório para o ministério. Relatório técnico. Não temos conhecimento dele ainda.
Júlio Ferraz: A gente não tem a pauta ainda do CMSE.
CanalEnergia: Seria uma discussão técnica ainda. Não é uma decisão...
Julio Ferraz: Está ainda na fase de discussão técnica.
Sandoval Feitosa: Qual é o limite da decisão?
Felipe Calabria: Vai até o final do mês de maio.
CanalEnergia: E a proposta era alterar o alfa e o lambda (parâmetros do CVaR) para quanto?
Felipe Calabria: É nesse relatório que eles vão apontar, na nossa análise de critério. E isso vai ainda para deliberação das instituições. Por enquanto, é só um relatório técnico sem grandes posicionamentos. Mas apontando efeitos diversos. Efeito na tarifa, efeito no armazenamento, efeito no despacho técnico, nos custos por fora, de encargo. E aí são escolhas que têm que ser feitas.
CanalEnergia: Mas esse seria um aspecto, porque vocês falaram da questão conjuntural. Esse é um aspecto que poderia estar influenciando nessa crise? Poderia ter outros, é isso? Posso concluir dessa forma?
Julio Ferraz: Algumas comercializadoras alegam que isso poderia ajudar a resolver. Porque, a depender dos parâmetros, você pode reduzir o valor do PLD. Aquelas que tem exposição estariam menos expostas financeiramente.
CanalEnergia: Tem uma discussão de concentração de mercado. O que vocês poderiam falar sobre isso?
Sandoval Feitosa: Lembra que eu falei isso bem no início? A gente tem, os agentes falam: a Axia parou de disponibilizar energia, a Copel também parou de disponibilizar energia. Nós não temos nenhum elemento para isso. A SFF fez um pedido de informações e está analisando, porque a gente precisa entender isso dentro de um contexto histórico. Como é que era feito antes, para entender se tem algum comportamento diferente que justifique parte do problema. Lembrando sempre que esse problema, ele não estaria 100% pautado nessa discussão, porque nós temos naturalmente, uma menor disponibilidade de energia para ser comercializada. Vamos lembrar que temos todos os geradores que estão tendo que comprar energia para recuperar o lastro.
Felipe Calabria: Por conta do curtailment.
Sandoval Feitosa: É claro também que essas empresas, por ser em ambiente livre, elas podem também elas podem também estar um pouco mais conservadoras, exigir mais garantias, o preço pode estar caro, entendeu? Então, a gente precisa avaliar. Nós não temos elementos para afirmar isso aí, inclusive a gente tem falado para todos aqueles que alegam isso que municiem a agência para que a gente possa investigar todas essa circunstâncias.
CanalEnergia: Dá para também imaginar que pode ser uma crise de confiança? Porque teve uns episódios, e aí já é fora desse contexto, que a comercializadora estava com alta alavancagem...
Sandoval Feitosa: Pode ser também. Como eu estou falando, a questão de exigências de maiores garantias, os vendedores podem estar mais conservadores.
Felipe Calabria: A judicialização afeta.
Sandoval Feitosa: A judicialização afeta a confiança.
Felipe Calabria: Você tem a 2W, Electron, Trinity. As últimas três comercializadoras. Mais a outra do 2W que foi no ano passado.
CanalEnergia: Desde 2019, a gente está com umas crises assim. De vez em quando aparece um grupo com problema...
Júlio Ferraz: Sempre teve.
CanalEnergia: Mas você acha que aumentou, ou não?
Sandoval Feitosa: Vamos lembrar que em 2020 veio a pandemia, 21 talvez um pouquinho desse reflexo. A gente tem que olhar isso aí de 22 para cá. De fato, houve alguns episódios como já foi falado. E pode, sim, ter uma crise de confiança. Pode.
CanalEnergia: Agora, pode influenciar também na agenda de segurança de mercado, dependendo do diagnóstico? Vocês vão ter um prazo para fazer o diagnóstico? Como é que vocês estão trabalhando nas áreas técnicas?
Sandoval Feitosa: As pautas que a gente tem estão andando. A questão do monitoramento prudencial esse ano se encerra.
Felipe Calabria: O processo sancionador. Para o ano que vem, o de garantias financeiras no MCP (mercado de curto prazo). A gente precisa fechar esses dois. Principalmente o prudencial que está encaixado com o de garantias.
Sandoval Feitosa: E tem, talvez, um aprimoramento do (tema que trata das regras) de entrada e saída e de permanência. Para o ano que vem também estar na agenda.
Nós já avançamos muito quando nós dividimos as classes de comercializadoras. Tipo 2 e tipo 2. Só que a gente está concluindo que as do tipo 1 podem se alavancar bastante ainda. Então, há uma avaliação preliminar dos próprios agentes que trouxeram aqui pra gente que deveria talvez melhorar um pouco esse grupo 1, evitando ou limitando alavancagens tão elevadas. Ou, eventualmente, até criar outros grupos.
Felipe Calabria: A gente tem discutido reduzir o período de contabiliz ação de mensal para semanal e diário, mas não está ainda na agenda, a gente já está endereçando isso com o fechamento da Tomada de Subsídios 2 do duplo flag. A gente já indicou isso no despacho para receber material da CCEE.
Sandoval Feitosa: Acho que um pouco também é o seguinte: com a abertura da comercialização para o grupo A você criou muito mercado, Aumentou o mercado. E. obviamente, houve nessa discussão aí gente que captou rapidamente clientes que talvez não estivesse 100% preparado para que os estresses naturais que ocorrem no mercado de comercialização. O mais recente, por exemplo, o curtailment, que pode estar influenciando.
CanalEnergia: Falando em abertura de mercado, vocês veem algum risco com a abertura do mercado de varejo a partir do ano que vem? Porque vai ter um universo, teoricamente, bem maior.
Sandoval Feitosa: Nos mercados mais maduros acontece isso.
CanalEnergia: Isso tem ligação com aquela história do preço horário? Do modelo Dessem, de operação de curtíssimo prazo?
Felipe Calabria: Isso aqui é um pouco diferente. O que o mercado financeiro lida quando você tem uma exposição de um dia para o outro fazendo uma negociação em bolsa de valores com a alavancagem, a Bovespa te derruba à noite para você não virá a noite do dia seguinte exposta. Então, se hoje a gente vai acompanhando isso e fechando essas posições no diário, tudo fica mais digamos assim, gerenciado, controlado nessa perspectiva. Até para calibrar todo o resto também depois.
Sandoval Feitosa: A granularidade maior é melhor, não é isso?
Felipe Calabria: É, exatamente. Quanto menor, no caso, a granularidade, nesse sentido aí melhor. Então, chegar no limite de ser diário vai ajudar bastante a ter uma reação mais rápida, porque você vai perceber a coisa. Hoje a gente tem quase dois meses depois.
Aqui você tem tempo de resposta mais rápido, nesse sentido. Mas isso está diretamente relacionado à dupla contabilização. Não é exatamente isso a dupla, claro. O preço horário vem para trazer mais aderência da operação à realidade e ao preço. E a dupla contabilização também. Mas aqui eu estou falando de depois você liquidar a contabilização lá na CCEE, em horizontes bem mais reduzidos.
CanalEnergia: Vocês mencionaram a questão do curtailment. Tem a questão do modelo do CVAR. Enfim, que outros temas, que outras agendas se casariam com esse momento, que podem ter alguma influência? Tem mais algum outro assunto que esbarra nisso?
Sandoval Feitosa: A CP7, Open Energy. Isso, também de alguma forma, casa com essa maior liberalidade do Open Energy.
Felipe Calabria: E a definição do PLD. Do piso e do PLD máximo. E da dupla contabilização.
CanalEnergia: Essa agenda da segurança seria uma coisa que seria mandatória, não é? Mesmo sendo um ambiente livre, você tem que ter algumas balizas...
Sandoval Feitoza: Se não tiver ambiente, se não criar esses contornos, aí você deixa o mercado sem nenhum nível de controle. A intervenção é mínima, mas é necessário tudo isso para evitar o poder de mercado. Para evitar e auxiliar que o mercado tenha liquidez. Porque você tem que ter regras mínimas para permitir que o mercado livre opere com eficiência, sem intervencionismo.
CanalEnergia: Vocês já foram procurados pelo Ministério de Minas e Energia? Tem alguma discussão conjunta ou não?
Sandoval Feitoza: Não. Nós chamamos a CCEE, a Abraceel. Tivemos aqui também a Abrademp, que é uma associação dos pequenos distribuidores. Estamos tentando ver em que medida o consumidor cativo fique mais protegido nesse processo todo e ainda estamos avaliando o cenário como um todo.
Fonte: CanalEnergia