O setor elétrico brasileiro pode estar prestes a enfrentar um dos cenários climáticos mais complexos de sua história. O retorno do El Niño em 2026, combinado com as temperaturas mais elevadas já registradas no planeta, promete transformar o panorama energético do país. A tendência é de impactos que variam entre as regiões e devem se estender até 2027. As empresas especializadas em previsão do tempo apontam as consequências dessa combinação explosiva. Enquanto a Climatempo enfatiza os riscos de irregularidade das chuvas nas principais bacias do país. Adicionalmente, projeta um cenário de desafios operacionais, especialmente para as principais bacias hidrográficas do Sudeste e Centro-Oeste, enquanto o Sul deve enfrentar excesso de chuvas. Já a Nottus alerta para a combinação de El Niño forte com aquecimento global extremo. Contudo, a Thymos Energia projeta um cenário de preços relativamente estável no curto prazo. Porém, as incertezas são crescentes para 2027.
Período Úmido 2025/2026: Um alívio relativo Comparando com os últimos cinco anos, o período chuvoso de 2025/2026 apresentou características semelhantes ao de 2024/2025 nas bacias do Sudeste e do Centro-Oeste. Segundo a especialista em clima da Climatempo, Ana Clara Marques, a chuva ocorreu de forma irregular, principalmente durante a primavera, mas sem a presença de bloqueios atmosféricos persistentes sobre as principais bacias. “O cenário, no entanto, foi mais favorável do que o observado em 2023/2024, durante o último El Niño, quando períodos prolongados de calor e seca no Sudeste resultaram em precipitações significativamente abaixo da média”, disse Ana Clara.
El Niño: formação iminente.
Esse aquecimento já se encontra dentro dos limiares utilizados para a caracterização do El Niño.
Segundo a especialista, o Pacífico Equatorial já apresenta anomalias positivas de temperatura da superfície do mar em uma área extensa. “Esse aquecimento já se encontra dentro dos limiares utilizados para a caracterização do El Niño”, explicou. Tanto é que o NOAA confirmou na quinta feira, 11 de junho, o início do fenômeno climatológico. Esse fato era esperado pela meteorologista, pois houve a persistência das anomalias que levam à saída da neutralidade para a ocorrência do El Niño. De acordo com a Climatempo, o fenômeno de intensidade forte altera significativamente o padrão de chuvas e temperaturas no Brasil, com impactos que variam de acordo com a região. Regiões “O fenômeno reduz drasticamente o volume de chuvas na região Norte e Nordeste, afetando severamente os reservatórios de água e os níveis dos rios da bacia amazônica”, ressaltou Ana Clara. Nesse sentido, a tendência é de ondas de calor e baixa umidade no Sudeste e Centro-Oeste, com períodos de estiagem prolongados. Essa combinação de calor intenso e baixa umidade do ar aumenta o risco de incêndio na vegetação ressecada e pode afetar o nível dos reservatórios, exigindo monitoramento constante do setor elétrico. “Contudo, no Sul, a tendência é de excesso de chuvas, com riscos para enchentes e deslizamentos de terra”, disse a especialista em clima. Bacias hidrográficas sob pressão De acordo com a Climatempo, o El Niño forte tende a trazer menos chuvas para as regiões das principais bacias hidrográficas brasileiras. Durante o ciclo do El Niño de 2023/2024, semelhante ao atual, o setor de energia enfrentou forte pressão operacional, com aumento da demanda de consumo, maior necessidade de acionamento de usinas termelétricas e crescimento relevante de ocorrências associadas a incêndios e queimadas. Segundo Ana Clara, para as bacias do São Francisco e do Tocantins-Araguaia, a tendência é de atraso no retorno das chuvas e de um período chuvoso bastante irregular. Para a bacia do Paraná, a chuva não necessariamente fica abaixo da média, mas tende a ocorrer de forma menos uniforme, alternando episódios de chuva forte com períodos mais longos de tempo seco. “Esse comportamento pode dificultar a recuperação dos reservatórios”. Período seco 2026 A previsão da Climatempo para o inverno de 2026 indica uma passagem relativamente frequente de frentes frias pelo Sul e pelo Sudeste do país. Isso deve favorecer a manutenção das vazões e da geração hidrelétrica no Sul. A região deve concentrar os maiores volumes de chuva nos próximos meses. A tendência é de um inverno com passagem frequente de frentes frias e alguns episódios de chuva mais intensa, embora localizados. “Os eventos mais expressivos devem ocorrer principalmente durante a primavera, especialmente entre outubro e novembro, favorecendo as afluências e a geração hidrelétrica na região”, destacou Ana Clara. Já no Sudeste, embora o período seco continue predominando, ele pode ser menos rigoroso do que o normal, com alguns episódios de chuva alcançando áreas do Baixo e Médio Paraná e contribuindo pontualmente para o aumento das vazões durante o inverno. Atualmente, o maior risco está concentrado no Centro-Norte do país, especialmente nas bacias dos rios Tocantins e Xingu. A tendência é de atraso no retorno das chuvas, prolongando o período seco em direção à primavera. Mesmo depois do início da estação chuvosa, a chuva pode ocorrer de forma bastante irregular, o que tende a retardar a recuperação dos níveis dos rios na região. Perspectiva para 2026/2027: recuperação desigual. De acordo com a Climatempo, o El Niño deve ser o principal modulador do clima durante a primavera e o verão de 2026/2027. Se o fenômeno realmente ganhar força nos próximos meses, a tendência é de concentração das chuvas na região Sul, com eventos mais frequentes de chuva intensa e vazões elevadas. A Climatempo acredita que, para os reservatórios do Sudeste, o cenário é menos favorável. A chuva tende a ocorrer de forma mais irregular, alternando períodos chuvosos com intervalos de tempo seco e temperaturas acima da média. Isso pode tornar a recuperação dos reservatórios mais lenta e menos eficiente ao longo do período úmido. Segundo a consultoria, o setor elétrico brasileiro deverá manter monitoramento constante das condições climáticas e estar preparado para ajustes operacionais que garantam a segurança energética do país diante deste cenário desafiador.
Cenário inédito com planeta superaquecido.
Cenário climático inédito para o segundo semestre de 2026: a combinação de um El Niño muito forte com as temperaturas mais elevadas já registradas no planeta.
A avaliação do sócio-diretor e meteorologista da Nottus, Alexandre Nascimento, é de que o setor elétrico brasileiro se prepara para enfrentar um cenário climático inédito no segundo semestre de 2026. Ele reforça que a combinação de um El Niño muito forte virá com as temperaturas mais elevadas já registradas no planeta. Sendo assim, o impacto será significativo e diferenciado nos subsistemas do Sistema Interligado Nacional (SIN). Segundo o executivo, a primeira parte do período úmido, correspondente ao último trimestre de 2025, apresentou volumes de chuva abaixo do esperado. As condições do SIN não se deterioraram ainda mais porque as temperaturas permaneceram abaixo da média histórica durante grande parte do período, o que contribuiu para conter o crescimento da demanda por energia. “As temperaturas mais elevadas concentraram-se entre o Natal e o Ano Novo”, disse. No entanto, ao longo do primeiro trimestre de 2026, o cenário se mostrou mais favorável. Houve aumento significativo das precipitações no SIN, resultando na recuperação das afluências e na elevação dos níveis dos reservatórios dos subsistemas Sudeste/Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Segundo dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), o ano começou com reservatório em 42% no SE-CO, 46% no NE e 55% no Norte, totalizando 46% no SIN. Em 16 de abril de 2026, o reservatório chegou a 67% no SE-CO, 95% no NE, 96% no Norte e 71% no SIN, resultado considerado bastante satisfatório. Em 8 de junho de 2026, os níveis estavam em 66% no SE-CO, 92% no NE, 98% no Norte e 72% no SIN, mantendo-se relativamente estáveis. Desempenho por subsistema Segundo a Nottus, o Norte e, principalmente, o Nordeste apresentaram uma recuperação rápida e expressiva ao longo do período úmido. O subsistema Sudeste/Centro-Oeste também registrou melhora significativa, revertendo parte das condições desfavoráveis observadas no fim de 2025. Já o subsistema Sul apresentou maior volatilidade, com oscilações mais acentuadas ao longo do período. “Essa questão é muito mais difícil do que estão falando, não é tão simples a resposta”, alerta Nascimento. O meteorologista traça um histórico comparativo: em 2015/16 houve um El Niño muito forte, mas o planeta não estava tão quente. Nesse sentido, ocorreu novamente em 2018/19 mas de intensidade fraca e com um planeta não tão quente. Contudo, em 2023/24, o El Niño moderado coincidiu com o ano mais quente da história. “Este ano promete algo inédito, o El Niño muito forte com um planeta muito quente, que pode bater recorde”, destaca o especialista. Projeções para o segundo semestre de 2026 Segundo a Nottus, até o momento, os modelos climáticos são claros quanto às tendências para o segundo semestre. Excesso de precipitação, com risco de eventos extremos de chuva não apenas no Rio Grande do Sul, mas também nas bacias do Paranapanema, Paraná e até mesmo no Tietê. No Nordeste e Tocantins haverá um déficit hídrico significativo, com volumes de chuva abaixo do esperado. No Sudeste/Centro-Oeste, Madeira e Xingu existirá um padrão irregular de precipitação, alternando momentos de chuva intensa com períodos mais secos. Ao longo da primavera, pode chover até mais do que o normal no SE-CO, mas a chuva pode reduzir ao longo do verão. Com relação às temperaturas, o executivo da Nottus acredita que ficarão muito mais altas do que o normal em praticamente todo o país, com ondas de calor frequentes (semanas com temperatura em torno de 5 a 7 graus acima do normal). Impactos operacionais e lições do passado.
Historicamente, eventos de El Niño forte trouxeram desafios significativos para a operação energética brasileira. O calor intenso no SIN, com ondas de calor prolongadas, resulta em momentos de carga muito elevada. Em 2023/24, essa condição provocou picos de preço horário elevado. Além disso, o fenômeno pode trazer eventos de vendaval em todo o país. E ainda, chuvas torrenciais nas bacias do Sul e do Madeira, e episódios extremos de precipitação em diversas regiões. Apesar dos riscos, Nascimento identifica aspectos positivos no início do fenômeno. “Antes de atrapalhar, ele pode ajudar o SIN”, afirma o meteorologista. Segundo a Nottus, o El Niño deve causar melhora nas condições de afluência e reservatórios no Sul e pode retardar o deplecionamento do subsistema SE-CO, devido à chuva que deve chegar com força em alguns momentos durante o inverno e a primavera. Adicionalmente, o fenômeno manterá forte influência sobre a safra de ventos, beneficiando a geração eólica.
Perspectivas para 2027
Segundo a Nottus, com o El Niño consolidado, a expectativa é de finalização do período com níveis bem menores no Norte e Nordeste. E maiores no Sul e uma tendência de redução no SE-CO, embora a magnitude dessa redução seja difícil de precisar. “Ainda é cedo para falar se não teremos recuperação, nem que seja parcial no SE-CO. Por outro lado, é fácil afirmar uma condição pior para 2027 no Norte e Nordeste do que no ano anterior. Além de uma maior frequência de ondas de calor, pressionando o sistema”, conclui Nascimento. O setor elétrico brasileiro deverá manter vigilância constante e flexibilidade operacional para navegar por este cenário climático sem precedentes. E deve equilibrar os desafios regionais e aproveitando as oportunidades que o fenômeno pode trazer nos próximos meses.
Fonte: CanalEnergia