Por: Carlos Nobre
No período de maio a julho de 2026, ondas de calor atingiram grande parte da Europa, levando as temperaturas a níveis recordes em vários países e, em alguns locais, às maiores temperaturas máximas diárias de toda a série histórica. O calor extremo também provocou impactos graves à saúde, com registros de milhões de mortes associadas às altas temperaturas na França. O calor também veio acompanhado de seca generalizada, que, somada às altas temperaturas, favoreceu a ocorrência de incêndios florestais, principalmente na Península Ibérica e no sul da França.
Aqui no Brasil, o verão de 2026 foi marcado por ondas de calor recorrentes, embora, em escala nacional, tenha sido menos extremo do que o verão de 2023?2024, que permanece como o mais quente da série histórica do Brasil. O verão de 2026 ficou entre os mais quentes desde 1961, mantendo a tendência de aquecimento observada nas últimas décadas. A primeira onda de calor ocorreu da última semana de dezembro de 2025 até a primeira semana de janeiro. Diversas cidades do Centro-Oeste, Sudeste e parte do Sul registraram máximas superiores a 38°C a 40°C. A segunda onda aconteceu entre aproximadamente 24 e 31 de janeiro, e registrou temperaturas acima de 38°C em áreas de Mato Grosso do Sul, Paraná, Rio Grande do Sul e oeste de São Paulo. A terceira onda de calor persistiu durante a primeira semana de fevereiro, e houve estresse térmico significativo sobre áreas agrícolas do Sul do Brasil, com impactos potenciais para soja, milho e pecuária.
Nos anos anteriores, o ano de 2023 foi o mais quente já observado até então, com temperatura média 0,69°C acima da climatologia (1991?2020), o ano de 2024 superou o de 2023 e tornou-se o ano mais quente da série histórica iniciada em 1961, com anomalia de +0,79°C em relação à média climatológica. O ano de 2025 foi mais quente do que a média em praticamente todo o Brasil, com uma anomalia de +0,33°C. Entre 2023 e 2025, o Brasil registrou alguns dos maiores valores de temperatura máxima desde o início das observações meteorológicas. O período foi marcado por sucessivas ondas de calor, associadas ao forte El Niño de 2023?2024 e ao aquecimento global. Em 2023, a maior temperatura já registrada no Brasil desde o início da série histórica do Inmet foi registrada em Araçuaí (MG), em 11 de novembro, durante uma intensa onda de calor associada ao forte El Niño. Uma das maiores temperaturas da história do país em 2024 ocorreu no dia 6 de outubro, com 44,5°C em Goiás (GO), e, no mesmo dia, Cuiabá registrou 44,1°C. Naquele ano, foram registrados 58 dias com temperaturas iguais ou superiores a 40°C em diferentes localidades brasileiras, principalmente entre setembro e outubro. Em 2025, Quaraí (RS) registrou 43,8°C no dia 2 de fevereiro, o recorde histórico do Rio Grande do Sul e a temperatura mais alta. Todos estes recordes ocorreram durante episódios de ondas de calor. O verão de 2024?2025 foi o sexto mais quente do Brasil desde 1961, com três ondas de calor que atingiram principalmente o Sul do país.
Episódios de ondas de calor são definidos com base em temperaturas máximas e mínimas muito acima do climatológico, por períodos de três a cinco dias ou mais. As ondas de calor se caracterizam por temperaturas acima do normal, baixa umidade relativa do ar, noites excepcionalmente quentes, afetando simultaneamente diversas regiões brasileiras.
A maior frequência é observada em anos de El Niño, embora também ocorra em anos neutros e de La Niña. A causa são os chamados bloqueios atmosféricos persistentes, que impedem a chegada de frentes frias e favorecem o céu limpo e o forte aquecimento. No Brasil, estes bloqueios ocorrem na região central do país. Um fator que também favorece ondas de calor é o solo seco (feedback solo-atmosfera).
As ondas de calor são um dos eventos climáticos extremos que mais cresceram em frequência, duração e intensidade no Brasil nas últimas décadas. Esse aumento está associado ao aquecimento global antropogênico, à variabilidade climática natural (especialmente durante eventos de El Niño) e a fatores locais, como a urbanização acelerada e as ilhas de calor urbanas. Estudos recentes do Cemaden mostram que a frequência desses eventos aumentou significativamente desde os anos 2000 e tende a continuar crescendo. Este aumento na frequência, duração e intensidade resulta em impactos adversos à saúde humana e maior mortalidade entre grupos fisiologicamente vulneráveis. O aspecto mais preocupante é que mais de 90% do território brasileiro registrou ondas de calor desde 2001, incluindo as regiões Nordeste e Norte, que raramente eram afetadas nas décadas anteriores. Em 2025, as ondas de calor no Sul e Sudeste do Brasil bateram recordes e afetaram desproporcionalmente grupos vulneráveis. As ondas de calor tornaram-se uma preocupação significativa para a saúde pública e um risco de incêndios.
Geograficamente, as regiões mais afetadas são o Centro-Oeste, com episódios prolongados, temperaturas frequentemente acima de 40°C. No Norte e na Amazônia, o calor extremo é frequentemente associado a secas severas, em eventos complexos de seca-calor que, na região, aumentam o risco de incêndio. No Sudeste, o fenômeno pode se intensificar devido às ilhas de calor urbanas, especialmente nas grandes metrópoles. No Sul, há um aumento expressivo da frequência desde os anos 2000, com vários recordes históricos. No Norte e Nordeste tem-se observado desde 2000 uma tendência de maior número de ondas de calor, em relação a décadas anteriores, e o calor pode estar associado à escassez hídrica e estresse hídrico.
Atualmente, o Brasil registra, em média, entre oito e 14 ondas de calor por ano, com tendência de aumento devido ao aquecimento global e à variabilidade climática, especialmente em anos de El Niño. As ondas de calor no Brasil podem ocorrer em qualquer época do ano, mas são muito mais frequentes entre a primavera e o verão, quando a insolação é maior e sistemas atmosféricos favorecem a persistência de massas de ar quente. Nos últimos anos, também têm sido registradas ondas de calor no outono e, ocasionalmente, até no inverno, especialmente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Houve uma onda de calor durante a segunda quinzena de junho de 2024, embora tenha sido menos abrangente do que as grandes ondas observadas entre setembro e novembro de 2023 ou entre agosto e outubro de 2024, e tenha afetado o Centro-Oeste, o interior do Sudeste e parte da Região Sul.
Entre os setores mais afetados pelas ondas de calor, podemos mencionar a saúde. A desigualdade socioeconômica amplia a exposição e reduz a capacidade de adaptação ao calor extremo. De fato, as ondas de calor representam um importante risco para a saúde pública, e seus impactos se refletem no aumento da mortalidade por doenças cardiovasculares, no aumento de internações por doenças respiratórias, na desidratação e na exaustão térmica, na piora de doenças crônicas e no maior risco para idosos, crianças, gestantes e trabalhadores expostos ao ar livre. Estimou-se que as ondas de calor foram responsáveis por aproximadamente 120 mil mortes atribuíveis no período de 2000 a 2019, 0,6% do total de mortes, com frações atribuíveis substancialmente maiores entre idosos e para as doenças respiratórias. Estes resultados constam em um relatório do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações em conjunto, esses achados indicam que os efeitos são mais intensos sobre populações vulneráveis, moradores de periferias urbanas, pessoas em situação de rua, trabalhadores rurais e da construção civil, garis, e outros que trabalham em áreas externas. Os efeitos e impactos das ondas de calor sobre a mortalidade no Brasil são social e climaticamente desiguais, refletindo a interação entre exposição climática, vulnerabilidades demográficas e desigualdades estruturais.
Durante as ondas de calor de 2023, o sistema de saúde do Brasil registrou aumento da demanda, especialmente entre idosos, crianças e pessoas com doenças crônicas. Um estudo da Opas (Organização Pan-Americana da Saúde) estimou um excesso de mortalidade de 1.392 pessoas em um curto período no Rio de Janeiro, afetando desproporcionalmente idosos e mulheres, com muitas mortes ocorridas em casa. Em 2025, o Brasil enfrentou diversas ondas de calor intensas, com temperaturas recordes nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Sul. Até a última semana de dezembro de 2025, São Paulo registrou um aumento de 27,2% nos atendimentos ambulatoriais por insolação e condições relacionadas, no período de janeiro a outubro, em comparação com o mesmo período de 2024, segundo a Secretaria de Estado da Saúde. Foram registrados 1.052 atendimentos em 2025 e 827 em 2024. No Rio de Janeiro, segundo a Secretaria Municipal de Saúde, mais de 5.000 pessoas (3.000 em janeiro e cerca de 2.400 no início de fevereiro) buscaram atendimento médico em 2025 devido a problemas relacionados ao calor ? incluindo desidratação e complicações de doenças crônicas, número mais de duas vezes superior ao registrado em anos recentes. Em dias com temperaturas próximas a 40°C, algumas unidades de saúde registraram cerca de 450 casos de estresse térmico, incluindo desmaios e mal-estar.
*Colaborou José Marengo
Fonte: Ecoa | Carlos Nobre – 21/07/2026