Por Edvaldo Santana | Conselho de empresas e de entidades de filantropia
Ontem, se a MMGD tivesse gerado 40 GW dos 47 GW disponíveis, o sistema teria colapsado
A notícia é impactante, porém esperada. Logo, logo fará parte do nosso cotidiano. É que setor elétrico agora depende de Rá, deus do Sol, e da exuberante Mania, deusa da insanidade.
Domingo foi um dia daqueles como o diabo gosta. Às 12h, a solar, com 32 GW, gerava mais que a soma das UHEs (22 GW), UTEs (7 GW) e eólica (2 GW). A carga, no mesmo instante, era de 65 GW, somada à exportação de 1,5 GW. Ou seja, a solar, sozinha, atendia cerca de 50% da carga.
Mas o mais importante foi o que aconteceu entre 6h e 12h. Às 6h, a hidrelétrica e a eólica produziam, respectivamente, 38 GW e 14 GW, contra quase zero da solar. A carga total era 59 GW. Nas seis horas seguintes, a hidrelétrica e a eólica foram reduzidas, nesta ordem, em 16 GW e 12 GW, e a carga teve um acréscimo de 6 GW. Esses números indicam um curtailment entre 10 e 12 GW, só na eólica. Como o total da solar, centralizada e descentralizada, é 67 GW e a geração máxima da fonte era 32 GW, isto sugere que quase tudo vinha da MMGD. Assim, foi de no mínimo 15 GW, dos 20 GW da capacidade instalada existente, o curtailment da solar centralizada. Total: 25 GW de corte de geração, ou desperdício de energia subsidiada. Um escândalo.
E isso ainda não é o indicador mais grave. Sem o curtailment na solar centralizada, a geração das UHEs cairia para 7 GW, o que representaria um colapso no sistema. De uma carga de 65 GW, as máquinas síncronas (UTEs e UHEs) somariam 14 GW, ou 22%, o que deixaria o sistema muito longe dos seus limites de segurança.
O detalhe é que o quadro seria pior se a MMGD produzisse, no meio do dia, 40 GW dos 47 GW disponíveis. É que, para ontem, o ONS não tinha accionado a (duvidosa) “alavanca de pânico por excesso de oferta”. Nessas circunstâncias, as distribuidoras não teriam como restringir a geração conectada em suas respectivas redes. Seria um caos. Por sorte, Rá, Deus do Sol no Egito antigo, limitou a irradiação, agindo em favor do sistema elétrico.
Outro detalhe: a diferença entre a geração mínima e máxima das UHEs foi da ordem de 43 GW, perto do recorde. Com a barriga do pato rente ao chão, entre 14h e 18h15 a hidro subiu a rampa com seus 40,5 GW, mais que 10 GW por hora. É o pescoço do pato.
Assim, depender perigosamente de Rá é o principal símbolo de fracasso do (imoral) modelo do setor elétrico, que foi dominado por Mania, a exuberante deusa da insanidade.
Conclusão: a “alavanca de pânico por excesso de oferta” deve ficar permanentemente acionada, a menos que a opção seja colocar Rá e Mania no cockpit, isto é, na mesa de operação.
Fonte: Linkedin (26/06/2026)