São Paulo, 22 de abril de 2026 – O primeiro dia do Energy Solutions Show 2026 consolidou um novo eixo de discussão no setor elétrico: mais do que a abertura do mercado livre, o foco passou a ser a reorganização estrutural do modelo, a pressão crescente de custos e a necessidade de gestão de riscos por parte dos consumidores empresariais.
Realizado no Distrito Anhembi, em São Paulo, o evento reuniu executivos, especialistas e representantes de associações para discutir os desafios de operar em um ambiente mais aberto, porém mais complexo, em que energia se torna variável estratégica para a competitividade das empresas.
- Reforma do setor e aumento de encargos entram no centro do debate
No painel sobre reforma do setor elétrico, especialistas apontaram a necessidade de uma reestruturação ampla para corrigir distorções e redistribuir custos do sistema.
Helder Sousa, diretor de Regulação e Mercado da TR Soluções, afirmou que os reajustes tarifários devem ficar em média em 15,5% em 2026, pressionados principalmente pelo aumento da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), da Tarifa Social, da geração termelétrica, nuclear e da expansão da reserva de capacidade. Segundo ele, apenas os custos ligados à contratação de potência podem adicionar cerca de R$ 13 bilhões ao sistema já no próximo ano.
“O consumidor está começando a perceber que a energia não vai ficar mais barata. A tendência é de aumento de custos e maior complexidade tarifária”, afirmou.
Ao longo da discussão, ganhou força a avaliação de que o modelo atual se tornou mais fragmentado, concentrando encargos em uma parcela menor de consumidores.
Luiz Barata, presidente da Frente Nacional dos Consumidores de Energia, destacou a necessidade de convergência entre os diferentes agentes do setor para viabilizar uma reforma mais ampla.
“Não se consegue fazer uma reforma se não tiver todo mundo sentado em volta da mesa. Cada grupo tem seus interesses e, enquanto não houver um pacto, vamos continuar empurrando os problemas”, afirmou.
Mario Menel, presidente do Fórum das Associações do Setor Elétrico (FASE), reforçou que 2026 representa uma janela importante para estruturar mudanças que possam ser implementadas a partir de 2027.
“A gente precisa preparar agora uma agenda para implementar a partir de janeiro de 2027. Não podemos perder essa janela”, disse.
- Curtailment e excesso de oferta pressionam decisões do consumidor
A discussão sobre competitividade trouxe um alerta relevante para consumidores industriais: o Brasil convive hoje com um cenário de sobreoferta de energia em relação à demanda, o que amplia a necessidade de cortes de geração.
Paulo Pedrosa, presidente executivo da Associação Brasileira dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (ABRACE), destacou que esse contexto exige atenção redobrada na tomada de decisão.
“A nossa grande oportunidade como país é fazer energia limpa e renovável. Se tivermos capacidade de industrializar, o Brasil pode produzir de forma muito competitiva”, afirmou.
Segundo ele, o cenário atual impõe a necessidade de considerar o curtailment em qualquer estratégia de contratação.
“Hoje temos mais oferta de energia do que consumo. Se não corta, o sistema pendura. O curtailment tem que ser gerenciado e precificado em qualquer opção de mercado”, disse.
- Mercado livre avança, mas exige maior preparo das empresas
Nos debates sobre mercado livre, o consenso foi de que a migração já é realidade, mas ainda ocorre com assimetrias de informação e preparo.
No painel moderado por Adriana Luz, professora do IBMEC, participantes reforçaram que a decisão de contratação exige coerência entre estratégia, perfil de consumo e capacidade de gestão.
Edvaldo Santana, CEO da Neal, destacou que a falta de planejamento pode comprometer resultados e expor empresas a riscos contratuais e operacionais.
A flexibilidade do mercado livre segue como vantagem, mas exige estrutura técnica para lidar com volatilidade, contratos e gestão de portfólio.
- Segurança energética e riscos globais entram na agenda empresarial
O debate também avançou sobre segurança energética, ampliando a discussão para fatores externos que impactam diretamente o fornecimento e os custos de energia.
Elisa Bastos Silva, diretora de Assuntos Corporativos do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), destacou que a confiabilidade do sistema depende de planejamento e coordenação entre agentes, em um cenário impactado por eventos climáticos e mudanças no perfil de consumo.
Os participantes também citaram riscos associados a conflitos geopolíticos e seus efeitos sobre combustíveis como gás natural e diesel, com impacto direto na geração de energia elétrica.
- Energia se consolida como variável estratégica para o negócio
Ao longo do dia, ficou evidente que a energia deixou de ser apenas um custo operacional e passou a ser um elemento central na estratégia das empresas.
A exposição a riscos, a pressão de encargos e a complexidade regulatória exigem maior governança interna, acesso à informação qualificada e suporte especializado.
Sem essa estrutura, empresas podem enfrentar impactos diretos na operação, na margem e na competitividade.
Energy Solutions Show 2026 encerra edição com foco em reforma estrutural, gestão de riscos e novo papel do consumidor
São Paulo, 23 de abril de 2026 – O segundo e último dia do Energy Solutions Show 2026 consolidou um novo eixo de discussão no setor elétrico: mais do que a abertura do mercado livre, o foco passou a ser a reorganização estrutural do modelo, a pressão crescente de custos e a necessidade de gestão de riscos por parte dos consumidores empresariais.
Realizado no Distrito Anhembi, em São Paulo, o evento reuniu executivos, especialistas e representantes de associações para discutir os desafios de operar em um ambiente mais aberto, porém mais complexo, em que energia se torna variável estratégica para a competitividade das empresas.
- Reforma estrutural e pressão de custos
Ao longo dos dois dias de programação, representantes do setor destacaram que o avanço da abertura de mercado trouxe ganhos importantes, mas também expôs distorções estruturais, especialmente relacionadas à formação de preços, encargos e sinais econômicos. A necessidade de uma reforma mais ampla do modelo elétrico foi apontada como essencial para garantir previsibilidade, eficiência e equilíbrio entre os agentes.
Outro ponto recorrente foi o aumento da pressão de custos sobre os consumidores, impulsionado por encargos setoriais, volatilidade de preços e mudanças regulatórias. Nesse contexto, a gestão de energia deixa de ser operacional e passa a ocupar espaço nas decisões estratégicas das empresas, com impacto direto na competitividade e na sustentabilidade dos negócios.
- Contratação mais complexa e gestão de riscos
Os debates também evidenciaram a crescente complexidade na contratação de energia, com maior necessidade de análise de risco, estruturação de contratos e acompanhamento constante do mercado. A combinação entre variáveis técnicas, regulatórias e financeiras reforça a importância de especialização e planejamento de longo prazo.
- Consumidor mais ativo e gestão da demanda
No segundo dia, as discussões avançaram para a operação prática desse novo cenário, com destaque para o papel mais ativo do consumidor e o avanço da gestão da demanda. A capacidade de responder a sinais de preço, ajustar consumo e atuar de forma mais estratégica passa a ser determinante para a eficiência operacional das empresas.
- Tecnologia e armazenamento ganham escala
A volatilidade do mercado livre e a maior exposição a sinais de preço têm levado empresas a revisar contratos e adotar estratégias mais sofisticadas. Nesse ambiente, soluções como sistemas híbridos e armazenamento por baterias (BESS) ganharam relevância como ferramentas para mitigar riscos, ajustar o perfil de consumo e aumentar a previsibilidade.
Especialistas apontaram que, embora a expansão das fontes renováveis tenha reduzido o custo de geração, também aumentou a intermitência e a necessidade de equilíbrio em tempo real, impactando diretamente a estrutura dos contratos e a operação do sistema.
- DSO e a nova lógica operacional do sistema
O segundo dia também destacou a evolução do papel das redes de distribuição, com o avanço do conceito de operador do sistema de distribuição (DSO), que exige maior integração entre dados, ativos e comportamento do consumidor em um ambiente mais descentralizado e digital.
- Encerramento: um setor mais complexo e estratégico
No fechamento, o Energy Solutions Show 2026 consolidou a percepção de que o setor elétrico brasileiro entra em uma nova fase, marcada por maior complexidade, necessidade de coordenação entre agentes e crescente protagonismo do consumidor, que passa a atuar de forma mais estratégica na gestão da energia.
Fonte: ENERGY SOLUÇÕES SHOW – 22 e 23/04/2026