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Setor Elétrico

Veja aqui as informações e notícias mais recentes sobre o setor elétrico. A curadoria do conteúdo é feita por nossos especialistas, considerando a importância do tema para o mercado.

INDICE DE MODULAÇÃO DA DCIDE E OS DESCONTOS TARIFÁRIOS DAS FONTES DE ENERGIA

14/9/2026

Por: Antonio Araújo da Silva

A crescente importância da formação horária do preço da energia elétrica no Brasil tornou necessário distinguir dois fenômenos que, embora relacionados à comercialização de energia, possuem naturezas distintas: de um lado, os descontos tarifários regulados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), incidentes principalmente sobre as Tarifas de Uso dos Sistemas de Transmissão e Distribuição (TUST/TUSD); de outro, o Índice de Modulação da Dcide (IMD), que representa o efeito econômico decorrente do perfil horário de geração em comparação com uma geração hipoteticamente distribuída de maneira uniforme ao longo das horas.

Desde a adoção do PLD horário, em janeiro de 2021, a hora em que a energia é produzida passou a ter impacto crescente sobre o resultado econômico dos agentes. A Dcide desenvolveu, nesse contexto, seus Índices de Modulação por fonte e submercado. O indicador compara o valor econômico da geração efetivamente realizada a cada hora, considerando o PLD horário, com o valor que seria obtido caso a mesma quantidade de energia fosse gerada em um perfil denominado flat, isto é, uniformemente distribuído pelas horas do período. O resultado é expresso em R$/MWh.

Assim, quando o IMD é positivo, a fonte apresenta um prêmio de modulação, pois sua geração tende a ocorrer em horários nos quais o PLD é relativamente mais elevado. Quando o IMD é negativo, verifica-se um desconto de modulação, porque a geração está concentrada em períodos de preços menores. O indicador igual a zero significa, em termos econômicos, que não existe prêmio ou desconto relevante em relação ao perfil flat.

É importante destacar que o IMD da Dcide não representa um desconto tarifário estabelecido pela ANEEL. O indicador é uma referência analítica de mercado. Seu cálculo utiliza, fundamentalmente, a geração horária das usinas disponibilizada pelo ONS e os valores horários do PLD divulgados pela CCEE. Atualmente, a metodologia da Dcide contempla as fontes solar, eólica e hidráulica, nos quatro submercados do Sistema Interligado Nacional — Sudeste/Centro-Oeste, Sul, Nordeste e Norte.

A diferença entre os dois conceitos torna-se especialmente importante quando se analisam as chamadas fontes incentivadas. A legislação brasileira criou mecanismos de redução das tarifas de uso dos sistemas elétricos para estimular determinadas fontes de geração. A Lei nº 9.427/1996, juntamente com sua regulamentação, fundamenta a concessão de descontos na TUST/TUSD para empreendimentos enquadrados nas hipóteses legais. A ANEEL disciplina a aplicação desses benefícios, inclusive por meio da Resolução Normativa nº 1.031/2022 e das regras de comercialização correspondentes.

Na prática, os percentuais de desconto tarifário associados à energia incentivada podem variar conforme o enquadramento da usina e do contrato. A documentação regulatória da ANEEL registra, entre outros, descontos de 50%, 80% e 100%, conforme a situação específica do empreendimento e da energia comercializada. A própria base de dados da CCEE para 2026 identifica montantes de energia incentivada com descontos de 50%, 80% e 100%, além de energia convencional com desconto de 0%.

Dessa forma, pode-se estabelecer uma distinção simplificada:

Categoria| Desconto regulatório TUSD/TUST| Relação com o IMD da Dcide
Energia convencional| 0%| O IMD pode gerar prêmio ou desconto econômico
Energia incentivada| 50%, 80% ou 100%, conforme enquadramento| O desconto tarifário é independente do IMD
Cogeração qualificada| Há hipóteses de 50%, conforme enquadramento| Pode apresentar prêmio/desconto de modulação
Solar| Conforme enquadramento regulatório do empreendimento| IMD tende a ser negativo quando a geração ocorre em horas de PLD baixo
Eólica| Conforme enquadramento regulatório do empreendimento| IMD pode ser positivo quando a geração coincide com preços elevados
Hidráulica| Conforme enquadramento regulatório do empreendimento| IMD pode ser positivo pela capacidade de geração em horários de maior valor

Portanto, não se deve interpretar um desconto de 50%, 80% ou 100% da energia incentivada como sendo o mesmo que o desconto de modulação calculado pela Dcide. O primeiro é um benefício tarifário regulatório, relacionado à utilização da rede de transmissão e/ou distribuição; o segundo é um resultado econômico associado ao comportamento horário da geração diante do PLD.

Essa distinção é particularmente relevante no ambiente de contratação livre. Uma energia incentivada pode possuir, por exemplo, determinado percentual de desconto na TUSD/TUST e, simultaneamente, apresentar prêmio ou desconto de modulação. Os dois efeitos podem coexistir e influenciar a avaliação econômica do contrato, mas são calculados por metodologias distintas.

Os dados mais recentes divulgados pela Dcide demonstram a relevância econômica desse fenômeno. Em maio de 2026, a geração solar apresentou índices negativos em todos os submercados: -R$ 89,94/MWh no Sudeste/Centro-Oeste, -R$ 60,41/MWh no Norte, -R$ 54,87/MWh no Nordeste e -R$ 52,86/MWh no Sul. Em sentido oposto, a geração eólica apresentou índices positivos nos quatro submercados, enquanto a hidráulica também apresentou prêmios positivos.

No caso da energia solar, o fenômeno está relacionado à concentração da geração durante o período diurno, justamente quando a elevada oferta fotovoltaica pode contribuir para reduzir o preço horário da energia. Em maio de 2026, o desconto de modulação da solar no Sudeste/Centro-Oeste chegou a aproximadamente 40,9% do PLD médio daquele submercado.

A geração hidráulica apresentou comportamento oposto: no mesmo mês, o prêmio de modulação variou de R$ 14,20/MWh no Norte a R$ 34,08/MWh no Sul. A explicação econômica está relacionada à maior flexibilidade operacional das hidrelétricas, que permite maior contribuição nos períodos em que a geração solar diminui e o sistema necessita de outras fontes para atendimento da carga.

A fonte eólica também apresentou prêmio positivo em todos os submercados em maio de 2026, variando de R$ 6,24/MWh no Sul a R$ 33,80/MWh no Norte. No Nordeste, região de grande concentração da geração eólica brasileira, o prêmio foi de aproximadamente R$ 9,93/MWh, equivalente a cerca de 6% do PLD médio do submercado.

Os dados evidenciam, portanto, que a simples comparação do preço médio da energia de diferentes fontes pode ser insuficiente. Para uma avaliação econômica mais completa, é necessário considerar pelo menos quatro componentes: (1) preço da energia; (2) desconto regulatório de TUSD/TUST; (3) perfil de geração e seu efeito de modulação; e (4) localização da geração e do consumo nos diferentes submercados.

Em síntese, a regulação da ANEEL cria os mecanismos de incentivo tarifário destinados a determinadas fontes e empreendimentos, enquanto o Índice de Modulação da Dcide procura mensurar o efeito econômico do perfil horário de geração diante do PLD horário. A combinação desses fatores é fundamental para a correta avaliação de contratos de energia no mercado livre. Uma fonte pode possuir significativo benefício regulatório de TUSD/TUST e, ainda assim, sofrer perda econômica decorrente de sua modulação horária; da mesma forma, uma fonte pode apresentar menor ou nenhum benefício tarifário e obter prêmio econômico decorrente da produção em horários de preços elevados.

Por essa razão, na análise de uma operação de compra e venda de energia, o percentual de desconto regulatório não deve ser utilizado isoladamente como medida de vantagem econômica. O valor efetivo da energia depende da interação entre benefício tarifário, preço contratado, perfil de geração, PLD horário, submercado, sazonalidade, flexibilidade contratual e riscos de exposição à CCEE. O Índice de Modulação da Dcide constitui, nesse contexto, importante instrumento complementar para identificar quanto o perfil temporal da geração agrega ou subtrai valor da energia comercializada.

Referências

  • AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA – ANEEL. Resolução Normativa nº 1.031, de 26 de julho de 2022. Estabelece procedimentos para aplicação dos descontos nas tarifas de uso dos sistemas de transmissão e distribuição.
  • BRASIL. Lei nº 9.427, de 26 de dezembro de 1996. Institui a Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL e disciplina o regime das concessões de serviços públicos de energia elétrica.
  • CÂMARA DE COMERCIALIZAÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA – CCEE. Dados abertos: Energia Incentivada. São Paulo: CCEE, 2026.
  • DCIDE. Índices de Modulação. Campinas: Dcide, jun. 2026.
  • DCIDE. Índices Mensais de Modulação – Análise Maio de 2026. Campinas: Dcide, 2026.
  • ONS – OPERADOR NACIONAL DO SISTEMA ELÉTRICO. Dados de geração do Sistema Interligado Nacional. Rio de Janeiro: ONS.

Antonio Araújo da Silva
Consultor da TATICCA / Tax / Corporate Finance / Advisory

RESUMO DAS NOTÍCIAS DE HOJE

21/10/2026

Dia 21 de outubro de 2026, quarta-feira

CONTRATOS E CRÉDITOS DE PIS COFINS COM REFORMA TRIBUTÁRIA

A diretoria da Aneel vai discutir em consulta pública a adequação dos contratos regulados de geração e de comercialização de energia elétrica, em razão da Reforma Tributária. A agência também aprovou abertura de consulta com tratamento para os créditos remanescentes de PIS e Cofins de distribuidoras e transmissoras.

Saiba mais em “Aneel abre discussão sobre contratos  créditos de LPIS Cofins com Reforma Tributária”: https://tinyurl.com/323rhay3

AGÊNCIAS REGULADORAS

O procurador geral da Aneel, Eduardo Ramalho, afirmou nesta terça-feira que o parecer da Advocacia Geral da União que trata da substituição temporária de diretor-geral de agências reguladoras é vinculante. Isso significa que todas as agências federai estão, teoricamente submetidas à interpretação da AGU de que o cargo só pode ser exercido interinamente por algum integrante da própria diretoria colegiada.

Continue a leitura na matéria “Parecer da AGU sobre diretor-geral de agências é vinculante, diz procurador”: https://tinyurl.com/jh3htfss

ENERGIA SOLAR

O Brasil poderá alcançar um custo e US$ 41 por megawatt-hora (MWh) para a geração de energia solar firme em 2035. A projeção é da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena) e considera a combinação de usinas fotovoltaicas e baterias, com confiabilidade de 95%. Nesse cenário, o país ficará na segunda posição entre os mercados avaliados, empatando com Omã e atrás apenas da China, com US$ 33/MWh.

Leia mais na notícia “Brasil terá energia solar firme a US$ 41/MHh em 2035, aponta Absolar”: https://tinyurl.com/bddhcxbz

OUTRAS NOTÍCIAS DE HOJE

- El Niño pode mudar regime de ventos e afetar geração eólica no NE em 2027: https://tinyurl.com/5n8b4v24

- Aneel aprova revisão provisória de 1,92% da Neoenergia Brasília: https://tinyurl.com/ms29t5as

- Rio prevê 15 eletropostos até 2028: https://tinyhurl.com/5n7b6335

Fonte: CanalEnergia

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FRAGMENTOS EXTRAÍDOS DA VOLT ROBOTICS DE 20/10/2026

21/10/2026

- Quando o calendário regulatório muda, o plano de negócios muda junto

Por: Volt Robotics Desenvolvimento em Energia Ltda

24 de setembro de 2026

R$ 1,35 bilhão. Essa era a previsão de arrecadação da Taxa de Fiscalização de Serviços de Energia Elétrica, a TFSEE, para 2025. Recolhida pelas empresas do setor, a taxa também chega ao consumidor por meio dos custos reconhecidos nas tarifas. Quem paga a conta de luz ajuda a financiar a instituição responsável por fiscalizar a qualidade do serviço que recebe. Previsão de arrecadação e manifestação dos consumidores.

No orçamento do ano seguinte, a ANEEL - Agência Nacional de Energia Elétrica recebeu uma dotação inicial de R$ 440,7 milhões para sua estrutura e suas atividades, incluindo pessoal e benefícios. Dentro desse montante, R$ 177,8 milhões correspondiam às despesas discricionárias de custeio e investimento. São valores de exercícios consecutivos, mas o contraste de escala é claro: uma cobrança anual prevista na casa do bilhão convive com uma capacidade de funcionamento financiada por algumas centenas de milhões. LOA de 2026, páginas 129–131.

E mesmo essa parcela enfrenta restrições. Em junho de 2026, um bloqueio de R$ 34,3 milhões motivou alertas da diretoria sobre riscos à fiscalização, aos processos tarifários e à modernização tecnológica. A cobrança tem um calendário. A disponibilidade de recursos para cumprir a função que ela financia fica sujeita a sucessivas revisões. Registro do bloqueio e dos alertas da diretoria.

É esse descompasso que precisa chegar à discussão sobre o próximo governo. A sociedade financia a regulação e precisa receber, em contrapartida, uma agência com condições de trabalhar. O setor elétrico colocou o tema entre suas prioridades: a Agenda FASE 2027–2030 propõe fortalecer a ANEEL já nos primeiros cem dias da próxima gestão federal.

Para entender o que está em jogo, imagine uma empresa de geração que prepara um novo empreendimento. A engenharia avançou, os fornecedores apresentaram propostas e o financiamento começa a tomar forma. Na região que receberá a obra, há expectativa de contratos, empregos e renda. Uma autorização da ANEEL ainda precisa ser obtida antes que a empresa assuma os próximos compromissos.

A empresa já opera outros ativos e recolhe regularmente a TFSEE. Agora, considere que seu novo projeto encontre uma agência com capacidade de análise insuficiente para atender à demanda. O diretor financeiro terá de reorganizar os desembolsos. Os fornecedores precisarão rever as datas. As contratações poderão esperar. A obrigação de contribuir segue em dia, enquanto a decisão que permitiria avançar passa a depender de uma estrutura pressionada pela falta de recursos.

A empresa já opera outros ativos e recolhe regularmente a TFSEE. Agora, considere que seu novo projeto encontre uma agência com capacidade de análise insuficiente para atender à demanda. O diretor financeiro terá de reorganizar os desembolsos. Os fornecedores precisarão rever as datas. As contratações poderão esperar. A obrigação de contribuir segue em dia, enquanto a decisão que permitiria avançar passa a depender de uma estrutura pressionada pela falta de recursos.

O efeito econômico aparece nesse encadeamento. Uma espera maior pode exigir a renovação de propostas, alterar condições de crédito e deslocar a entrada em operação. O capital continua comprometido com estudos e preparação, mas a produção e a receita ficam para depois. Para quem aguardava uma encomenda ou uma oportunidade de trabalho, o atraso ganha um significado muito concreto.

A pressão sobre a capacidade regulatória já está documentada. Em setembro de 2026, a ANEEL anunciou o remanejamento de nove atividades de sua agenda para 2028, mencionando demandas crescentes e recursos humanos limitados. Nesse caso, são entregas regulatórias reprogramadas. Para negócios que dependem dessas definições, a mudança do calendário exige rever premissas e decisões de investimento. Revisão da agenda regulatória.

O problema tampouco começou neste ano. Em junho de 2025, restrições orçamentárias afetaram a fiscalização e a ouvidoria. Houve liberação parcial no mês seguinte, mas a recomposição posterior reforça a necessidade de previsibilidade: contratos, equipes de apoio e atividades de campo precisam ser organizados antes de sua execução. Administrar uma agência por sucessivos apertos e alívios dificulta esse trabalho. Efeitos operacionais em 2025 e liberação parcial.

A leitura detalhada do orçamento ajuda a localizar o problema. O total formal da unidade ANEEL na LOA de 2026 é de R$ 2,99 bilhões, mas inclui R$ 1,94 bilhão em transferências à Conta de Desenvolvimento Energético e R$ 612,4 milhões em reserva de contingência financeira. Esses valores não compõem a dotação para sua estrutura e suas atividades. É por isso que os R$ 440,7 milhões são a referência pertinente para discutir o financiamento da instituição, e os R$ 177,8 milhões identificam sua parcela discricionária inicial. Detalhamento da LOA.

A pergunta que esses números colocam é direta: o Estado está assegurando os meios necessários para entregar a fiscalização e a regulação que cobra do setor? Arrecadação, autorização orçamentária e execução da despesa são etapas distintas. A responsabilidade de conectá-las a um serviço público adequado precisa estar no centro da decisão governamental.

A independência regulatória depende dessa capacidade. Equipes qualificadas precisam de sistemas, informações e condições de trabalho para avaliar pedidos, fiscalizar serviços e fundamentar decisões. Em sua avaliação da ANEEL, publicada em 2021, a OCDE reconheceu a competência técnica da agência e apontou fragilidades no financiamento e na recomposição de pessoal. O diagnóstico continua relevante para compreender o mecanismo: a autonomia perde força quando faltam os meios para exercê-la. Avaliação da OCDE.

Para o consumidor, uma agência fortalecida significa maior capacidade de acompanhar a qualidade do fornecimento, exigir correções e examinar os custos que chegam à tarifa. Para quem investe, significa decisões técnicas e processos mais previsíveis. Ambos dependem de uma instituição capaz de cumprir suas atribuições com rigor e prestar contas de suas entregas.

A Agenda FASE reúne essa preocupação das associações do setor elétrico em uma proposta concreta para o próximo presidente: descontingenciar recursos, recompor os quadros e modernizar os sistemas da ANEEL. As medidas se complementam e precisam ser acompanhadas por prioridades claras, transparência dos prazos e resultados verificáveis. Fortalecer a regulação é parte da infraestrutura necessária para transformar energia em desenvolvimento.

Na empresa do exemplo, a próxima parcela da TFSEE continuará vencendo. Na casa do consumidor, a conta de luz também. Cabe ao próximo governo assegurar que esse esforço de financiamento corresponda a uma agência capaz de fiscalizar e decidir. Quando o calendário regulatório muda, o plano de negócios muda junto e a data em que o investimento se transforma em produção, emprego e renda também.

- Redata foi sancionado. O que ainda falta para um data center sair do papel

Por: Volt Robotics Desenvolvimento em Energia Ltda

27 de setembro de 2026

O incentivo fiscal pode melhorar a conta de um data center. A data da conexão pode decidir se ele será construído.

Entre escolher o terreno e ligar o primeiro servidor, o investidor precisa de uma resposta objetiva: quanta potência estará disponível naquele endereço, com qual segurança e a partir de quando? Essa resposta organiza a compra de equipamentos, a contratação de clientes, o financiamento e o início da receita. Quando ela muda, o plano de negócios muda junto.

O Redata foi sancionado em 15 de setembro. O regime cria incentivos para investimentos em infraestrutura digital e estabelece contrapartidas. É um avanço para disputar projetos. Sua execução, porém, exige que a política de atração de investimentos e o planejamento elétrico trabalhem com o mesmo calendário. MDIC.

É nessa passagem entre a oportunidade anunciada e a capacidade de entrega que o Brasil precisa acelerar.

Data centers procuram energia competitiva, fornecimento confiável e condições para reduzir as emissões de suas operações. O país tem recursos para construir essa oferta. Tem também um problema que torna a oportunidade ainda mais urgente: parte da geração renovável disponível é cortada, enquanto novos consumidores encontram obstáculos para obter acesso à rede.

Esse desencontro já chegou às decisões de investimento.

Em abril de 2025, a ANEEL - Agência Nacional de Energia Elétrica negou acesso de datacenters relacionados a projetos no Pecém, seguindo avaliação do ONS - Operador Nacional do Sistema Elétrico sobre risco de sobrecarga. Em maio, o Ministério de Minas e Energia anunciou o encaminhamento de dois pareceres de conexão para data centers, com atendimento previsto a partir de janeiro de 2027. A solução envolvia as subestações Pecém II e Pecém III. A sequência foi registrada pela imprensa especializada. Notícia de 29 de maio de 2025.

O episódio mostra quanto pode depender da articulação entre a demanda empresarial, os estudos elétricos e a infraestrutura necessária. Para quem precisa comprometer capital, a distância entre uma negativa e uma solução representa incerteza sobre o próprio projeto.

Outras atividades intensivas em eletricidade enfrentaram dificuldade semelhante. Em abril de 2025, a Reuters relatou a negativa de acesso a um projeto de hidrogênio verde no Ceará. Segundo a empresa, havia um descompasso entre a demanda pretendida para 2029 e a infraestrutura considerada para 2032. É um registro daquele momento, mas ilustra o conflito de calendários que a atração de grandes cargas precisa resolver. Reuters, publicada pelo InvestNews.

A questão ganha dimensão nacional no planejamento do próprio ONS. O PAR/PEL 2025 registra pressão de novos pedidos de acesso de grandes cargas, especialmente data centers, e necessidades de reforço no atendimento a São Paulo. O mesmo documento aponta que os cortes por razões energéticas se tornaram a principal causa das restrições de geração em 2025. Há, portanto, duas frentes a coordenar: aproveitar melhor a produção disponível e preparar a rede para novos usos. ONS — PAR/PEL 2025.

Também há obras sendo entregues. Segundo o MME, 2.314 quilômetros de linhas de transmissão entraram em operação entre janeiro e maio de 2026. O avanço físico é concreto. A pergunta empresarial é como cada expansão se traduz em capacidade de atendimento aos polos que disputam novos investimentos. MME — Boletim de maio de 2026, p. 30.

Quilômetros construídos medem uma parte do esforço. Para o investidor, a entrega decisiva é poder consumir a potência contratada, no local escolhido e no prazo do empreendimento.

Uma região pode produzir muita energia renovável e ainda precisar de subestações, reforços e recursos de controle para atender uma grande carga com segurança. O excedente de algumas horas também não garante abastecimento contínuo. Por isso, a energia hoje desperdiçada deve orientar a busca de soluções que combinem localização, infraestrutura e perfil de consumo.

O custo de não fazer essa coordenação aparece dos dois lados. A geração perde aproveitamento, e o investimento produtivo perde previsibilidade. O país deixa de transformar parte de sua vantagem energética em atividade econômica.

É por isso que a Agenda FASE 2027–2030 coloca a eletrificação e o atendimento às novas cargas entre as ações propostas para o próximo governo. Sua contribuição para o debate do Redata é tratar os elementos necessários à implantação como uma responsabilidade conjunta.

A Agenda propõe um mapa de novas cargas estratégicas, com base pública em cem dias, e um plano de reforços de rede para a eletrificação. A lógica é aproximar a demanda produtiva real das decisões de infraestrutura, considerando localização, potencial de desenvolvimento e responsabilidade pelos custos. Também propõe um programa de data centers de baixo carbono, articulando energia, eficiência, uso racional de água e conexão. São propostas do FASE, ainda dependentes de implementação.

Traduzida para a decisão empresarial, essa orientação exige conhecer antecipadamente os projetos, sua maturidade, a evolução do consumo e as obras de que dependem. Uma intenção de investimento e uma demanda com compromissos firmes precisam receber tratamento compatível com seu grau de certeza. Planejar cedo exige informação confiável e compromissos verificáveis.

A Agenda inclui ainda contratos de conexão flexível. Onde houver viabilidade técnica e operacional, uma carga pode antecipar seu acesso assumindo obrigações de redução do consumo em condições críticas. Essa possibilidade precisa ser desenhada conforme a atividade: parte do processamento pode admitir ajustes; serviços que exigem continuidade têm outras necessidades. A flexibilidade tem valor quando pode ser efetivamente entregue.

Cabe transformar essas propostas em uma sequência executável: identificar a demanda, estudar o atendimento, definir os reforços, atribuir custos, contratar as obras e acompanhar os prazos. MME, EPE, ONS, ANEEL, transmissoras, distribuidoras e investidores precisam compartilhar os marcos que condicionam a entrada em operação. Cada etapa deve ter responsável e consequência clara para o cronograma.

Para o executivo, isso coloca a análise de conexão no início da escolha de localização. Para o governo, coloca a capacidade de atendimento no centro da política industrial. O incentivo fiscal e a infraestrutura precisam convergir antes que o empreendimento chegue à decisão final de investimento.

O Redata abriu uma oportunidade. Aproveitá-la exige que o Brasil consiga oferecer, junto com o benefício tributário, uma trajetória confiável até a operação.

O primeiro servidor só será ligado quando essa trajetória chegar à rede. E a data precisa caber no plano de negócios.

- Eletrificar a indústria: qual investimento faz sentido para cada processo

Por: Volt Robotics Desenvolvimento em Energia Ltda

1º de outubro de 2026

A primeira proposta sobre a mesa era para comprar caminhões elétricos. A segunda, para substituir a caldeira. A terceira chegou por e-mail, com um aviso da manutenção: a fábrica precisava decidir logo.

Clara, diretora de uma indústria de alimentos nesta história fictícia, tinha orçamento para começar uma mudança importante. Precisava escolher por onde.

Os caminhões chamavam atenção. Rodariam pela cidade levando os produtos e mostrando que a empresa estava mudando. A caldeira ficaria escondida na casa de máquinas, como sempre. Mas era responsável por uma parcela relevante do consumo de combustível.

Clara pediu que os responsáveis apresentassem quanto cada investimento economizaria. Recebeu três planilhas que não podiam ser comparadas. Uma mostrava litros de diesel evitados. Outra, redução de emissões. A terceira trazia o preço do equipamento.

Faltava responder à pergunta que justificaria o investimento: quanto custaria produzir e entregar o mesmo produto depois da mudança?

Ela decidiu começar pela fábrica.

Durante a visita, viu o sistema de refrigeração retirando calor do leite. Pouco adiante, a caldeira queimava combustível para fornecer calor a outras etapas. Perguntou ao engenheiro se parte do calor descartado poderia ser aproveitada.

A pergunta mudou o estudo.

Uma bomba de calor poderia usar eletricidade para recuperar esse calor e elevá-lo à temperatura necessária em determinadas aplicações. Antes de comprar outra caldeira, a equipe precisava descobrir quanto aquecimento conseguiria atender dessa forma.

Havia um exemplo concreto. Na Irlanda, a Aurivo modernizou uma unidade de processamento de leite combinando mudanças no processo, refrigeração e bombas de calor. Segundo a GEA, participante do projeto, o conjunto reduziu em 80% as emissões de CO₂ da instalação. O resultado veio da integração das soluções. Era justamente o que faltava às propostas recebidas por Clara. Fonte: GEA.

A equipe passou a separar as necessidades. Uma parte do aquecimento poderia aproveitar calor recuperado. Outra exigia vapor em condições diferentes. Para essa parcela, uma caldeira elétrica merecia avaliação própria.

Clara pediu que calculassem o custo do vapor entregue à produção, incluindo instalação, energia, conexão e manutenção. Queria saber também o que aconteceria se a eletricidade encarecesse ou a fábrica produzisse menos. A economia precisava resistir a uma rotina menos perfeita que a da apresentação.

Na semana seguinte, chegou a vez dos caminhões.

O gerente de logística levou um mapa. Alguns veículos faziam percursos previsíveis e voltavam à garagem todas as noites. Outros passavam dias fora, com cargas e destinos variáveis. Comprar o mesmo modelo para toda a frota deixara de parecer uma boa ideia.

A equipe começou pelas rotas conhecidas: distância, peso transportado, horário de retorno e tempo disponível para recarga. Depois verificou se a instalação elétrica suportaria os carregadores. O investimento incluía o veículo e as condições para mantê-lo trabalhando.

Uma experiência norueguesa ajudou a explicar essa lógica. O ferry elétrico MF Ampere completou dez anos e mais de 100 mil viagens, segundo a Norled. Sua operação contou com baterias nos terminais para viabilizar a recarga onde a rede tinha capacidade limitada. A solução havia sido desenhada para uma travessia específica. Fonte: Norled.

Na mineração, Clara encontrou outro aprendizado. A Boliden utiliza alimentação elétrica aérea para auxiliar caminhões em Kevitsa, na Finlândia. O relato operacional apontava economia de diesel, mas também um custo total ainda superior ao convencional nas condições avaliadas. A infraestrutura precisava ser paga ao longo do trabalho realizado. Poupar combustível, sozinho, não encerrava a conta. Fonte: relato da Boliden.

Quando as propostas voltaram à diretoria, já respondiam a perguntas semelhantes. Quanto custaria cada unidade produzida ou transportada? Qual investimento seria necessário? Que risco poderia interromper a operação? Quando chegaria a hora de substituir o equipamento atual?

A decisão começou a ganhar forma: aprofundar a recuperação de calor, testar a eletrificação nas rotas mais previsíveis e avaliar separadamente o vapor que continuaria necessário. Cada processo teria seu caminho.

É essa lógica que a Agenda FASE propõe levar à política industrial: identificar onde a eletrificação melhora produtividade, competitividade e emissões, respeitando as características de cada aplicação. O documento também propõe financiamento BNDES/Finep para a conversão industrial e recarga inteligente para transportes e logística.

Isso importa porque a empresa desembolsa primeiro e colhe a economia depois. Crédito, conexão e implantação precisam acompanhar o projeto. A redução de emissões também pode ajudar a acessar mercados, desde que seja comprovada e reconhecida pelos compradores.

Clara encerrou a reunião com uma decisão diferente da que imaginara. A transformação começaria pelo calor que a fábrica jogava fora e pelas rotas que conhecia melhor.

O próximo investimento precisava melhorar o negócio. Era ali que a eletrificação deveria começar.

Fonte: VOLT ROBOTICS (AGENDA FASE – 2027/2030), DE 20/10/2026

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RESUMO DAS NOTÍCIAS DE HOJE

20/10/2026

Dia 20 de outubro de 2026, terça-feira

SISTEMAS DE ARMAZENAMENTO HIDRÁULICO

A Empresa de Pesquisa Energética publicou as Instruções para Solicitação de Cadastramento e Habilitação Técnica de Sistemas de Armazenamento Hidráulico de Energia. O documento estabelece a forma de apresentação da documentação e os requisitos aplicáveis ao processo de cadastramento e habilitação técnica na EPE.

Continue a leitura na notícia “EPE publica Instruções para cadastramento de sistemas de armazenamento hidráulico”: https://tinyurl.com/3v7zv9t3

UTE JORGE LACERDA

A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) homologou os novos valores do Custo Variável Unitário (CVU) das quatro unidades do Complexo Termelétrico Jorge Lacerda, da Diamante Geração de Energia. Também foi revisada a receita fixa anual prevista no Contrato de Energia de Reserva nº 478/25, firmado entre a empresa e a Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).

Saib mais em “Aneel revisa custos e receita fixa de UTE Jorge Lacerda”: https://tinyurl.com/5s78ufzr

OUTRAS NOTÍCIAS DE HOJE

- Geração térmica líquida da Eneva recua 38% no 3º trimestre: https://tinyurl.com/ymx67ump

- Aggreko compra seis usinas termelétricas da BBF no Amazonas: https://tinyurl.com/mtr4v2fc

- IFC libera US$ 79 milhões em rede elétrica da EDP ES: https://tinyurl.com/2rsuzae6

- Memória da Eletricidade completa 40 anos: https://tinyurl.com/5cend6jz

Fonte: CanalEnergia

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CONFIRA AS CONSULTAS PÚBLICAS TERMINANDO NA PRÓXIMA SEMANA

20/10/2026

Data final: 26/10/2026

- Consulta Pública 032/2026

Obter subsídio para o aprimoramento da minuta do Edital e dos Anexos do Leilão nº 1/2027- ANEEL

Data final: 30/10/2026

- Consulta Pública 035/2026

Obter subsídios para a definição dos critérios e da metodologia aplicáveis à extensão de prazo prevista no § 7º do art. 26 da Lei nº 9.427/1996, referente à prorrogação por prazo suficiente à amortização dos investimentos de acréscimo de capacidade de geração, objetivando o aproveitamento ótimo, do potencial hidráulico.

Saiba mais no site: https://bit.ly/Aneel-ConsultaPública

Fonte: CanalEnergia

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RESUMO DAS NOTÍCIAS DE HOJE

19/10/2026

Dia 19 de outubro de 2026, segunda-feira

AUMENTO NA CARGA PARA OUTUBRO

A revisão semanal do Programa Mensal de Operação de outubro a ponta uma elevação de 4,9% na carga em relação ao mesmo período do ano anterior. Os dados foram divulgados nesta sexta-feira pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico. No maior submercado do país, no Sudeste/Centro-Oeste, a estimativa é de aumento de 3,5%. Na Região Norte a previsão é de elevação de 10,3%. Já no Nordeste deverá ter o maior crescimento, com 11,8%. Enquanto isso, no Sul deverá ter recuo de 0,8%.

Leia mais na notícia “ONS aponta aumento de 4,9% na carga para outubro”: https://tinyurl.com/3m3avcak

PEDIDOS DE RECONTABILIZAÇÃO

A Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) reduziu de quase seis meses  para cerca de um mês o tempo total necessário para que os agentes percebam os efeitos financeiros completos de um processo de recontabilização, entre janeiro e agosto de 2026.

Saiba mais na matéria “CCEE reduz em 75% o prazo médio para processar pedidos de recontabilização”: https://tinyurl.com/23f8m786

TRANSIÇÃO ENERGÉTICA

A aceleração da transição energética pode gerar ganhos econômicos de aproximadamente US$ 47 trilhões até 2050, em comparação com a trajetória baseada nos planos e políticas energéticas atuais. A estimativa é da Agência Internacional de Energias Renováveis (Irena), apresentada no relatório World Energy Transition Outlook 2026: 15ºC Pathway.

Continue a leitura em “Transição energética pode elevar PIB global em US$ 47 tri até 2050, aponta Irena”: https://tinyurl.com/4ut6sdh5

OUTRAS NOTÍCIAS DE HOJE

Alta das tarifas em 2026 leva indústria a cortar desperdícios sem reduzir produção: https://url.com/459r352m

Aneel revisa custos e receita fixa de UTE Jorge Lacerda: https://tinyurl.com/5s78ufzr

ONS, CCEE e EPE abrem código de novo modelo: https://tinyurl.com/vnsusxzn

Fonte: CanalEnergia

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