- Escola de Saneamento fortalece qualificação profissional e se consolida como referência no setor
Parceria entre Aesbe e FESPSP amplia oferta de cursos estratégicos, alinhados às demandas das companhias e aos desafios da universalização, inovação e gestão no saneamento brasileiro
Em meio aos desafios da universalização, aos obstáculos impostos pelas mudanças climáticas e ao avanço das novas tecnologias no saneamento, a qualificação profissional tornou-se peça central para o fortalecimento do setor. É nesse contexto que a Escola de Saneamento (ESAN), criada pela parceria entre a Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento (Aesbe) e a Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), consolida-se como um espaço estratégico de formação, troca de conhecimento e desenvolvimento técnico para profissionais de todo o país.
A consolidação da ESAN em pouco tempo de atuação, de acordo com Antonio Miranda, coordenador de Projetos da FESPSP e curador técnico da Escola de Saneamento, é resultado da combinação entre dedicação institucional e uma demanda já existente no setor. “Havia uma lacuna em relação à capacitação profissional e a Escola veio preencher esse espaço. Além disso, houve um grande empenho das equipes da Aesbe e da FESPSP, com apoio das diretorias das duas instituições, que perceberam a relevância estratégica dessa iniciativa”, destaca.
Para o coordenador-geral de Projetos e Pesquisa da FESPSP, Elcires Pimenta, a formação continuada deixou de ser um diferencial e passou a ser uma necessidade permanente para o saneamento. “Os profissionais do setor são desafiados a se adequar a uma grande mudança institucional e técnica. Trata-se de criar um novo paradigma de dinâmica e constância de capacitação em parceria com as empresas e outras instituições, o que beneficiará muito o setor e os profissionais”, afirma.
Pimenta destaca ainda que há uma lacuna histórica na oferta de capacitações específicas para o saneamento no Brasil. “A proposta da ESAN é prover o setor de cursos certificados, desenhados conforme as necessidades e solicitações das empresas. Muitas dessas formações simplesmente não são encontradas no mercado. Além disso, o timing da oferta de determinados cursos por exemplo é muitíssimo importante”, explica.
Formação sob medida
Um dos diferenciais da Escola de Saneamento é justamente o modelo de construção dos cursos. Em vez de ofertar conteúdos prontos ao mercado, a ESAN desenvolve formações sob medida, a partir do diálogo com as companhias e instituições do setor. “Primeiro conversamos com quem precisa daquela capacitação, entendemos quais conteúdos devem ser priorizados e, a partir disso, moldamos os cursos conforme a demanda do contratante”, explica Miranda. Para ele, esse formato permite que as capacitações estejam diretamente conectadas aos desafios atuais do saneamento, como modernização da gestão, inovação e eficiência operacional.
A coordenadora pedagógica Luciana Barreira reforça que o fortalecimento da qualificação profissional é essencial para que o país avance na universalização dos serviços. “O Brasil possui hoje um arcabouço legal de excelência, mas apenas investimentos não bastam. A aplicação da legislação exige capacidade de planejamento, gestão e profissionais qualificados para responder aos desafios do setor”, afirma.
Para definir os temas prioritários das capacitações, a Escola realizou, no fim de 2024, uma pesquisa com as 13 Câmaras Técnicas da Aesbe. A partir desse levantamento, foi estruturado um catálogo com 11 categorias de cursos considerados estratégicos pelas companhias estaduais. Entre os temas destacados estão desenvolvimento técnico-operacional, gestão de ativos e desempenho, planejamento, comunicação, regulação e compliance.
Entre os cursos que já despertaram grande interesse está a formação sobre Reporte de Informações Financeiras Relativas à Sustentabilidade (IFRS/CBPS S1 e S2), voltada às novas exigências de sustentabilidade nas demonstrações financeiras. O curso já chega à segunda edição e reúne especialistas de diferentes áreas para tratar de forma interdisciplinar temas ligados à contabilidade e à sustentabilidade.
Cursos alinhados aos novos desafios do setor
A agenda de novos cursos também reforça o compromisso da Escola com temas emergentes e demandas práticas do setor. Entre as próximas formações previstas estão o curso “Propostas de Projetos de Inovação e Captação de Recursos – Edital Finep Mais Inovação – Rodada 2 – Economia Circular e Cidades Sustentáveis”, que começa em junho, voltado à estruturação de projetos inovadores em água e esgoto.
Em agosto acontece o lançamento do 1º Curso de Ouvidoria em Saneamento do Brasil. “Será uma formação pioneira que abordará a gestão de ouvidorias e o relacionamento com o cliente no contexto do saneamento. Além disso, estão em fase de elaboração cursos sobre Atendimento ao Cliente no Setor de Saneamento e de Modelagem Hidráulica, que aprofundarão conhecimentos em áreas cruciais para a operação e gestão de serviços”, detalha a coordenadora pedagógica, Luciana Barreiro.
Outro aspecto apontado como fundamental para o crescimento da ESAN é o formato das aulas, com forte presença do ensino a distância e metodologias flexíveis, permitindo que profissionais de diferentes regiões do país conciliem capacitação e rotina de trabalho. “À medida que os cursos vão sendo realizados, cresce também o interesse das companhias e dos profissionais. A expectativa é ampliar cada vez mais o atendimento às lideranças, gestores e equipes operacionais do setor”, afirma Antonio Miranda.
Com uma proposta voltada à capacitação continuada, conteúdos customizados e conexão direta com as demandas das companhias estaduais, a Escola de Saneamento avança como uma importante iniciativa para apoiar a transformação do setor e fortalecer a qualificação dos profissionais responsáveis pelos serviços de saneamento no país.
- Aesbe fortalece debate sobre clima e resiliência no saneamento
Realizado pela da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, seminário marcou o lançamento do Núcleo Clima e Saneamento, que reúne especialistas, academia, gestores públicos e financiadores para discutir adaptação climática, investimentos e o futuro dos serviços no Brasil
As mudanças climáticas deixaram de ser um desafio projetado para o futuro e passaram a impactar diretamente a operação e o planejamento do saneamento no Brasil. Eventos adversos, como secas prolongadas, chuvas intensas e ondas de calor, afetam sistemas de abastecimento de água, esgotamento sanitário, drenagem urbana e manejo de resíduos sólidos e exigem respostas cada vez mais rápidas e estruturadas do setor.
É nesse contexto que especialistas, gestores públicos, pesquisadores e representantes de empresas de saneamento se reuniram em São Paulo durante o seminário “Clima e Saneamento: Sustentabilidade, Adaptabilidade e o Financiamento para o Setor”, promovido pelo Núcleo Clima e Saneamento da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), com apoio da Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento (Aesbe).
O encontro, que aconteceu no dia 5 de maio, marcou oficialmente o lançamento do Núcleo Clima e Saneamento (NCS), iniciativa criada para conectar produção acadêmica, formulação técnica e ações práticas voltadas à adaptação do setor frente às mudanças climáticas.
A Aesbe participou ativamente das discussões, representada pelo presidente nacional, Munir Abud, pelo diretor executivo, Sergio Gonçalves, e pelo coordenador da Câmara Técnica de Recursos para Investimento e Financiamento (CTRIF), Joel de Jesus Macedo.
Núcleo fortalece legado da COP30 e preparação do setor
Durante o seminário, representantes da FESPSP e da Aesbe destacaram que o Núcleo Clima e Saneamento nasce como um desdobramento das discussões realizadas durante a COP30, especialmente a partir da experiência da Casa do Saneamento, instalada em Belém. A iniciativa busca consolidar um espaço permanente de articulação entre academia, companhias de saneamento, gestores públicos e especialistas para discutir os impactos das mudanças climáticas sobre os serviços essenciais.
O coordenador do NCS, Elcires Pimenta, afirmou que o núcleo pretende resgatar e aprofundar as propostas debatidas durante a conferência climática, ampliando a participação de diferentes instituições e apoiando o desenvolvimento de programas de adaptação climática voltados ao setor.
“A proposta é que o núcleo, além de formular, debater e divulgar iniciativas, também consiga apoiar sua implementação, desenvolvendo, em conjunto com as companhias de saneamento e demais entidades do setor, programas de adaptação às mudanças climáticas, assim como ações específicas, sejam elas conduzidas pelas companhias ou por órgãos públicos.”, explicou Pimenta.
O coordenador também ressaltou que a parceria entre a FESPSP e a Aesbe já possui um histórico consolidado em iniciativas de formação e qualificação profissional, como os MBAs em Saneamento Ambiental e a Escola Nacional de Saneamento. Para ele, o novo núcleo amplia essa cooperação em um momento em que o setor precisa fortalecer sua capacidade técnica para enfrentar eventos climáticos extremos.
O presidente nacional da Aesbe e presidente da Companhia Espírito-santense de Saneamento (Cesan), Munir Abud de Oliveira, ressaltou o caráter estruturante do núcleo: “A criação do NCS marca um passo estratégico para o saneamento brasileiro ao reunir conhecimento técnico e experiência prática para apoiar o setor no enfrentamento de eventos climáticos extremos, na gestão de riscos e na construção de soluções para proteger a segurança hídrica e a saúde pública. É uma iniciativa que nasce do senso de urgência e da responsabilidade com o futuro: planejar hoje para garantir resiliência, eficiência e sustentabilidade nos serviços de água e esgoto, sem deixar ninguém para trás”.
Sergio Gonçalves, diretor executivo da Aesbe, acrescentou que o setor de saneamento precisa estar cada vez mais envolvido na discussão sobre mudanças climáticas porque os impactos recaem diretamente sobre os serviços: “O núcleo nasce para ajudar o setor a se preparar melhor para o enfrentamento desses desafios”.
Gonçalves ressaltou que os efeitos das mudanças climáticas já exigem mudanças no planejamento das operações e na concepção de projetos de engenharia. Questões como aquisição de equipamentos mais resilientes, revisão de planos de contingência e preparação para situações de emergência passam a integrar, de forma permanente, a gestão das companhias.
“Quando acontece algum evento fora do trivial, o impacto é direto no abastecimento de água, na coleta e tratamento de esgoto, além da drenagem urbana e dos resíduos sólidos. Precisamos garantir que os serviços continuem funcionando mesmo diante de situações adversas”, pontuou.
NCS: produção técnica e apoio às companhias
O coordenador de Projetos da FESPSP e também coordenador do NCS, Antonio Miranda, explicou que a proposta é transformar o espaço em um ponto focal para estudos, projetos e assistência técnica voltados à adaptação climática no saneamento.
Segundo ele, embora a relação entre mudanças climáticas e saneamento já seja percebida pelos profissionais do setor, ainda existe necessidade de aprofundamento técnico e científico sobre os impactos específicos e as melhores estratégias de enfrentamento: “O núcleo pretende conectar pesquisa acadêmica e aplicação prática, ajudando municípios, estados e prestadores de serviços a se prepararem melhor para os desafios climáticos”.
Debate estruturado e aproximação com a sociedade
Responsável pela conferência de abertura, o presidente da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), Alexandre Motta*, destacou a importância de ampliar o debate sobre clima e saneamento para além do ambiente técnico, aproximando a discussão da sociedade.
Para ele, iniciativas como o Núcleo Clima e Saneamento fortalecem a capacidade de produzir reflexão qualificada e integrar diferentes perspectivas sobre o tema: “Precisamos levar o debate sobre a relação entre clima e saneamento para a sociedade. Isso exige reflexão intelectual estruturada e diversidade de abordagens. Quando reunimos diferentes visões, enriquecemos o debate e ampliamos a capacidade de responder às preocupações da população”, afirmou.
Motta também ressaltou que muitos dos impactos climáticos já são percebidos pela sociedade, ainda que, em muitos casos, as pessoas não consigam identificar claramente sua relação com o saneamento e a infraestrutura urbana.
Financiamento é desafio central para universalização
Durante o seminário, o presidente da Aesbe, Munir Abud, chamou atenção para um dos principais entraves à universalização do saneamento no país: o financiamento dos investimentos necessários para alcançar as metas estabelecidas pelo Marco Legal do Saneamento.
Segundo ele, embora os objetivos de atendimento — 99% de acesso à água potável e 90% de coleta e tratamento de esgoto até 2033 — sejam conhecidos pelo setor, a viabilidade financeira ainda representa um grande desafio.
“Estamos falando de algo entre 800 bilhões e 1 trilhão de reais em investimentos necessários. E esse recurso não está disponível nem nas companhias, nem nos orçamentos públicos”, afirmou.
Abud destacou que a ampliação do acesso a financiamentos será decisiva para garantir o avanço dos projetos, incluindo recursos de bancos públicos, organismos multilaterais e instrumentos do mercado de capitais.
*À época da realização do evento em questão, em 5 de maio, Alexandre Motta ocupava a presidência da Funasa, atualmente liderada por Lenildo Morais.
- Mulheres à frente do saneamento brasileiro
A universalização do saneamento exige investimento, planejamento, capacidade de execução e, sobretudo, habilidade de liderar. Em diferentes regiões do país, mulheres têm ocupado espaços estratégicos à frente de companhias responsáveis por levar água, esgoto tratado e dignidade a milhões de brasileiros.
Nesta edição do Espaço CEO, a Revista Sanear conversa com três presidentes que vivem de perto os desafios e as oportunidades do setor: Deisiane Erculano de Souza, da Companhia de Saneamento do Amazonas (Cosama); Nádia Belarmino, da Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte (Caern); e Samanta Takimi, da Companhia Riograndense de Saneamento (Corsan). Nas entrevistas, elas compartilham suas visões sobre gestão, inovação, eficiência operacional, investimentos e o papel das empresas de saneamento na construção de um Brasil mais sustentável e universalizado.
Deisiane Erculano de Souza, diretora-presidente da Cosama
Sanear - Como a senhora analisa o cenário atual, os impactos da mudança climática e as novas demandas ambientais e regulatórias do setor?
Deisiane Erculano - Vivemos no Amazonas a crise climática de forma concreta e urgente. As secas recordes de 2023 e 2024 nos mostraram que não há tempo a perder: comunidades ficaram isoladas, rios baixaram a níveis históricos e a pressão sobre nossos sistemas de abastecimento foi enorme. A logística já é, por si só, um dos maiores desafios do saneamento na Região Norte, e as mudanças climáticas amplificam cada obstáculo. Nós sempre enxergamos a crise climática como algo distante da nossa realidade, pelo fato de estarmos na maior bacia hidrográfica do mundo. Quando pensávamos em mudanças climáticas, pensávamos no derretimento das calotas polares e dos glaciais, nunca imaginamos que a Amazônia seria tão impactada de forma negativa. A Amazônia é um ecossistema complexo, e as alterações no ciclo hidrológico geraram danos socioambientais severos. Essas mudanças impactam em diferentes escalas: em 2023, por exemplo, os danos da seca na capital Manaus foram menores do que no interior, onde as famílias ribeirinhas sofreram os maiores impactos. Levar saneamento a essas comunidades é um desafio multidimensional que envolve questões técnicas, logísticas, ambientais e sociais, mas também uma grande oportunidade de transformação. Nos antecipamos: reforçamos estoques de insumos e garantimos que nenhum dos 15 municípios onde a Cosama atua ficasse sem abastecimento durante as crises. Paralelamente, avançamos com o Programa Água Boa, hoje com 52 sistemas implantados em 47 comunidades de 15 municípios, com capacidade de atender até mil pessoas por dia. Desde 2019, o Governo do Amazonas, por meio da Cosama, investiu no eixo de água tratada, ampliando nossa atuação de 12 para 15 municípios, inaugurando novas agências, novos poços artesianos, estações de tratamento e sistemas simplificados. O Marco Regulatório nos impõe metas ambiciosas até 2033 e seguimos avançando para cumpri-las.
Sanear - Em sua visão, quais são os principais desafios da região para avançar na universalização do saneamento? Deisiane Erculano - O Amazonas tem 62 municípios, uma extensão territorial maior do que muitos países e uma malha de rios que é, ao mesmo tempo, nossa identidade e nosso maior desafio logístico. A Cosama atende hoje 15 municípios, um avanço significativo frente às 12 cidades que operávamos em 2019. Ampliar esse número exige estudos técnicos, volume de investimento e decisão política firme. O Estado tem sido parceiro essencial: sem o seu suporte, não teríamos chegado até onde chegamos. As distâncias são imensas, o transporte é predominantemente fluvial, e cada obra exige planejamento especial. Mesmo assim, seguimos avançando: novos poços artesianos entregues, sistemas revitalizados, comunidades ribeirinhas alcançadas pelo Projeto Água Boa e parcerias estratégicas com UNICEF, com os Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI) e municípios, além de equipe técnica multidisciplinar capacitada. A meta de universalização até 2033 é desafiadora para o Amazonas, mas não é impossível.
Sanear - Como as lideranças do setor podem atuar de forma mais eficaz e inovadora para garantir investimentos, ampliar cobertura e manter a sustentabilidade econômico-financeira? Gostaria de citar casos de sua empresa? Deisiane Erculano - Acredito em gestão baseada em diagnóstico real de campo, parcerias estratégicas e uso inteligente de tecnologia social. Na Cosama, o exemplo concreto é o Projeto Água Boa, premiado em 1º lugar no 2º Prêmio Nacional Universalizar da Aesbe, na categoria Justiça Ambiental. O projeto usa sistemas modulares de baixo custo, adaptados à Amazônia, com tratamento completo por coagulação, floculação, sedimentação, filtração e desinfecção. Embora seja um sistema simplificado, ele contempla todas as fases essenciais do tratamento. A Companhia implementou neste semestre um cronograma de treinamento e capacitação para os colaboradores operacionais de todas as agências; em 2026, temos a meta de alcançar todas as equipes de ponta.
Sanear - Como a senhora vê o papel da Aesbe na construção de soluções conjuntas para os desafios do saneamento? Deisiane Erculano - A Aesbe é um espaço essencial de convergência. A parceria com a Aesbe, Funasa e Unicef, e o alinhamento com outras companhias, são fundamentais para avançar no saneamento em estados como o nosso, que têm realidades tão específicas. Foi pela Aesbe que o Projeto Água Boa ganhou visibilidade nacional. A agenda da Aesbe já antecipou a importância do saneamento na COP30. Isso é visão de futuro. Precisamos que o Brasil inteiro entenda o que significa fazer saneamento na Amazônia: aqui, saneamento reflete diretamente a qualidade de vida e a preservação do meio ambiente.
Sanear - Como a presença de mulheres em posições de liderança no saneamento tem contribuído para transformar a gestão e a visão de futuro no setor?
Deisiane Erculano - Sou a primeira mulher a presidir a Cosama nos seus 56 anos de história, e isso me move com profunda responsabilidade e orgulho. Cheguei à presidência pelos degraus da própria Companhia: passei pela área comercial, pela gestão de licitações, compras e chefia de gabinete. Conheço a Cosama de dentro para fora. A liderança feminina agrega ao setor um olhar técnico aguçado, combinado à sensibilidade para enxergar o impacto real do saneamento: na saúde das crianças, na dignidade das mulheres ribeirinhas, na qualidade de vida das comunidades mais distantes. Meu foco é ampliar a cobertura, fortalecer os sistemas existentes e garantir que a água chegue com qualidade a cada família, seja nos 15 municípios, seja nas comunidades alcançadas pelo Projeto Água Boa. Hoje a gestão da Cosama é majoritariamente feminina, e isso nos dá ainda mais segurança para afirmar: quando uma mulher assume a liderança numa Companhia de saneamento, ela também inspira outras e isso transforma o setor de dentro para fora.
Nádia Belarmino, diretora-presidente da Caern
Sanear - Como a senhora analisa o cenário atual, os impactos da mudança climática e as novas demandas ambientais e regulatórias do setor?
Nádia Belarmino - As mudanças climáticas já são a nossa realidade, trazendo desafios como a escassez e os eventos extremos, mas o nosso olhar agora é de antecipação e construção. Nós, que atuamos na linha de frente do saneamento, temos a missão de projetar a resiliência hídrica das próximas décadas. É com essa visão de futuro que encaro o avanço das exigências ambientais e regulatórias: não como um obstáculo, mas como o principal acelerador da nossa jornada ESG. O nosso foco daqui para frente é estruturar a Companhia para os novos tempos, aprimorar a governança e inovar nos processos, garantindo que nossa agenda rumo à universalização caminhe lado a lado com a responsabilidade socioambiental e a segurança hídrica das futuras gerações.
Sanear - Em sua visão, quais são os principais desafios da região para avançar na universalização do saneamento?
Nádia Belarmino - O desafio da universalização é amplo, afeta todo o país e demanda investimentos na casa dos bilhões. Quando olhamos para a nossa realidade regional, no semiárido, lidamos com uma herança desafiadora: o esforço histórico para mitigar a escassez hídrica fez com que o avanço do esgotamento sanitário ficasse em segundo plano. Apesar desse cenário, a Caern não tem medido esforços para acelerar o cumprimento das metas. Um grande reflexo disso é a nossa capital, Natal, que já está muito perto de alcançar a universalização. Para dar capilaridade a esse avanço, estamos com o processo em andamento para a nossa primeira Parceria Público-Privada focada em esgotamento sanitário, um passo estratégico que vai transformar a realidade do saneamento no Rio Grande do Norte.
Sanear - Como as lideranças do setor podem atuar de forma mais eficaz e inovadora para garantir investimentos, ampliar cobertura e, ao mesmo tempo, manter a sustentabilidade econômico-financeira dos serviços? Gostaria de citar casos de sua empresa?
Nádia Belarmino - Para garantir sustentabilidade no longo prazo, a liderança precisa ter a coragem de quebrar paradigmas. Nós superamos aquela fase em que o saneamento não era priorizado. Hoje, munidos do Marco Legal, temos o dever de ir ao mercado buscar soluções. A forma mais eficaz de atuar é combinando a expertise técnica do corpo da Companhia com a agilidade e o capital das parcerias privadas. O processo da nossa primeira PPP de esgotamento sanitário ilustra bem essa virada de chave na Caern: é um modelo que nos permite alavancar quase R$ 3,8 bilhões em investimentos diretos na expansão da rede. E para que essa conta feche, mantendo a sustentabilidade econômico-financeira, a gestão precisa ser inclusiva. Instrumentos como a Tarifa Social são essenciais para ampliar a base de clientes com segurança. Inovar no saneamento, hoje, é ter essa visão sistêmica: fechar grandes parcerias bilionárias em uma ponta e garantir, na outra, que a população tenha o amparo social necessário para se conectar à rede.
Sanear - Como a senhora vê o papel da Aesbe na construção de soluções conjuntas para os desafios do saneamento?
Nádia Belarmino - A Aesbe é, indiscutivelmente, a grande referência institucional do saneamento no Brasil. Em toda a minha trajetória profissional, sempre me pautei pela força da colaboração. Gosto muito de repetir aquela premissa: “se quer ir rápido, vá sozinho, mas se quer ir longe, vá em grupo”. E essa é exatamente a essência da nossa relação com a Associação. A Aesbe exerce um papel integrador fundamental, garantindo que as companhias não sejam vozes isoladas lutando contra desafios imensos. Ela nos permite ecoar uma voz coletiva e uníssona em nível nacional, fomenta uma troca de experiências riquíssima entre as associadas e fortalece a nossa atuação diária. É caminhando juntos que vamos superar os desafios da universalização.
Sanear - Como a presença de mulheres em posições de liderança no saneamento tem contribuído para transformar a gestão e a visão de futuro no setor?
Nádia Belarmino - O fato de eu ser a primeira mulher a assumir a presidência da Caern em mais de meio século de história mostra que, somente agora, em 2026, conseguimos romper uma pesada barreira invisível. A presença feminina na liderança transforma o saneamento porque trazemos para a mesa de decisão uma vivência e uma sensibilidade que são urgentes. Como a ONU muito bem destacou neste ano no Dia Mundial da Água, ao debater o tema ‘Água e Gênero’, a falta de acesso ao saneamento pune de forma desproporcional mulheres e meninas, que são as verdadeiras gestoras da água nos lares mais vulneráveis. Ter mais mulheres ocupando os espaços de poder não é apenas uma questão de representatividade, é a garantia de que as políticas e os investimentos terão o foco correto para erradicar essas desigualdades.
Samanta Takimi, diretora-presidente da Corsan
Sanear - Como a senhora analisa o cenário atual, os impactos da mudança climática e as novas demandas ambientais e regulatórias do setor?
Samanta Takimi - O saneamento brasileiro vive um momento decisivo. O Marco Legal estabeleceu metas claras de universalização, mas a realidade ainda revela um déficit histórico muito profundo, que não faz distinção entre territórios mais ou menos desenvolvidos. É o caso também do Rio Grande do Sul. Hoje, o Estado coleta cerca de 34% do esgoto gerado, enquanto a média nacional está em torno de 56%. Isso significa que enormes volumes de esgoto, algo em torno de 443 piscinas olímpicas ao ano, ainda são lançados diariamente na natureza, pressionando rios, mananciais e sistemas de abastecimento. As mudanças climáticas tornaram esse cenário ainda mais desafiador. A enchente histórica de 2024 mudou definitivamente a forma de pensar e operar o saneamento no Rio Grande do Sul. O que antes era tratado como evento excepcional passou a exigir preparação permanente da infraestrutura. A água deixou de ser apenas uma pauta operacional e passou a ocupar o centro das discussões estratégicas e preocupações das políticas públicas sobre segurança das cidades, saúde, planejamento urbano e adaptação climática. O resultado é que hoje, o setor precisa responder intensa e simultaneamente a demandas ambientais, regulatórias, sociais e econômicas. Isso exige capacidade de investimento, inovação tecnológica, modernização operacional e planejamento de longo prazo. Na Corsan, estruturamos um Plano de Resiliência Hídrica de R$ 1,88 bilhão para preparar os sistemas diante de eventos extremos, com interligação de estruturas, ampliação da reservação, modernização operacional e reforço da segurança hídrica em dezenas de municípios. É um programa que já foi protocolado para análise e aprovação das agências reguladoras. Também avançamos em digitalização, telemetria e monitoramento em tempo real do controle da qualidade da água. Atualmente, a Corsan opera mais de 6 mil pontos de coleta e realiza mais de 1,3 mil análises por hora para monitorar quase 200 parâmetros de qualidade da água distribuída à população. Isso demonstra que saneamento é inteligência operacional, mas, sobretudo, infraestutura e ciência para proteção da vida.
Sanear - Em sua visão, quais são os principais desafios da região para avançar na universalização do saneamento?
Samanta Takimi - O principal desafio do Rio Grande do Sul é superar um déficit estrutural acumulado ao longo de décadas. Quando a operação da Corsan passou para o novo modelo de gestão, em 2023, a cobertura de esgotamento sanitário era de aproximadamente 19% nos municípios atendidos pela Companhia, e 257 cidades não possuíam qualquer cobertura de esgoto. Esse é um cenário incompatível com a dimensão econômica do Estado e com as metas nacionais de universalização. O desafio agora é, ao mesmo tempo em que aceleramos investimentos, manter o ritmo e excelência da execução das obras e a capacidade operacional em uma escala que nunca existiu anteriormente. Historicamente, a Corsan investia cerca de R$ 400 milhões por ano. Hoje, esse volume chega a aproximadamente R$ 1,5 bilhão anuais. Em menos de três anos, mais de R$ 4,3 bilhões foram investidos em infraestrutura de água e esgoto. São números que traduzem a proporção do marco civilizatório que é a universalização do saneamento para um país, estados e municípios. O RS vive o maior ciclo de obras do setor na sua história. Já são aproximadamente mil quilômetros de redes implantadas e cerca de 400 mil ligações de esgoto prontas para conexão intradomiciliar, um volume que representa aproximadamente 40% de todos os ramais disponibilizados em quase 60 anos de história da Corsan. Mas universalizar o saneamento não depende apenas de obras. Existe um desafio importante de conscientização e adesão da população às redes implantadas. O saneamento só cumpre plenamente sua função quando a infraestrutura construída efetivamente retira o esgoto da natureza e dá mais condições de saúde, dignidade e desenvolvimento à população.
Por isso, cidade, operação e sociedade precisam avançar juntas. Outro desafio fundamental é preparar a infraestrutura para eventos extremos. O setor precisa operar com visão de futuro, porque segurança hídrica e resiliência climática passaram a ser condições básicas para o funcionamento das cidades.
Sanear - Como as lideranças do setor podem atuar de forma mais eficaz e inovadora para garantir investimentos, ampliar cobertura e, ao mesmo tempo, manter a sustentabilidade econômico financeira dos serviços? Gostaria de citar casos de sua empresa?
Samanta Takimi - A universalização do saneamento exige um movimento coordenado de liderança capaz de combinar visão estratégica, responsabilidade social, capacidade de execução e coragem para enfrentar desafios históricos. Não existe transformação dessa dimensão sem investimento em larga escala, inovação e eficiência operacional e é preciso entender o papel complementar do poder público, iniciativa privada, sociedade civil organizada e cidadão nessa transformação. Os processos, impactos e benefícios precisam ser pensados coletivamente. Na Corsan, por exemplo, temos trabalhado para estruturar uma operação preparada para atuar em escala industrial, sem perder a sensibilidade social. Isso envolve modernização de processos, incorporação de tecnologia e fortalecimento da cultura de eficiência. Um exemplo é a implantação, em Esteio, de uma fábrica própria de tubos com capacidade de produção de até 200 quilômetros por mês, criada para acelerar a expansão das obras nos 317 municípios atendidos pela Companhia. Também incorporamos tecnologias inovadoras como a SCOTTE, um sistema compacto e transportável de tratamento de esgoto desenvolvido a partir da realidade gaúcha. A solução reduz o tempo de implantação de estações de tratamento de até dois anos para cerca de três meses. Outro ponto central é a redução de perdas de água. Em 2023, aproximadamente 44,3% da água produzida era perdida antes de chegar às residências. Para enfrentar esse desafio, estruturamos um programa baseado em tecnologia e inteligência operacional. Mais de 36,8 mil quilômetros de rede já foram mapeados somente com sensoriamento remoto por satélite e geofones, permitindo identificar e corrigir mais de 32 mil vazamentos ocultos. Sustentabilidade econômico-financeira também significa proteger o equilíbrio do sistema para garantir continuidade dos investimentos e inclusão social. Na área Corsan, a tarifa social será ampliada de cerca de 40 mil para aproximadamente 700 mil famílias beneficiadas, alcançando quase 2 milhões de pessoas com redução de 50% na fatura para consumo de até 15m³. Isso demonstra que expansão de infraestrutura e redução de desigualdades precisam caminhar juntas. Saneamento é uma agenda comum e multidisciplinar, demanda maturidade de gestão e a visão de que exige investimentos estruturantes, de escala, mas, especialmente, proximidade com as pessoas. Melhorar o serviço é sobre melhorar a vida das comunidades, pensar em meio ambiente para o futuro, dar condições de saúde pública, desenvolvimento urbano e competitividade econômica para os territórios.
Sanear - Como a senhora vê o papel da Aesbe na construção de soluções conjuntas para os desafios do saneamento?
Samanta Takimi - A Aesbe ocupa hoje um espaço estratégico na construção do futuro do saneamento brasileiro. O setor atravessa uma transformação histórica, com metas de universalização extremamente desafiadoras, mudanças regulatórias profundas e uma pressão crescente provocada pelos eventos climáticos extremos. Nesse contexto, nenhuma companhia conseguirá responder sozinha à complexidade dessa agenda. A associação tem um papel fundamental ao promover integração técnica, articulação institucional e inteligência coletiva entre as companhias estaduais e os diferentes atores do setor. Representar empresas, nesse contexto, significa ajudar a construir pensamento estratégico para o saneamento brasileiro que nos permita avançar como sociedade diante de desafios dessa magnitude. O país precisa avançar em debates estruturantes sobre resiliência climática, reuso de água, segurança hídrica, inovação operacional, eficiência energética, redução de perdas, financiamento de longo prazo e ampliação do tratamento de esgoto em larga escala. Esses temas exigem capacidade de formulação técnica, troca de experiências e construção conjunta de soluções aplicáveis às diferentes realidades do Brasil. Também considero muito importante o papel da Aesbe na valorização do saneamento como agenda prioritária de desenvolvimento nacional. Durante muito tempo, o setor foi tratado apenas como infraestrutura operacional. Hoje, está cada vez mais claro que saneamento é saúde pública, preservação ambiental, adaptação climática, valorização urbana, competitividade econômica e redução de desigualdades. Portanto, vivemos um momento-chave e estamos, hoje, construindo a nova história do setor. Acredito que o saneamento brasileiro precisa deixar de atuar apenas reagindo aos problemas e passar a liderar uma agenda de cidades mais resilientes, inteligentes e sustentáveis. E isso só será possível por meio de cooperação, inovação e capacidade de pensar o setor de forma integrada e de longo prazo. A Aesbe tem papel central nessa missão.
Sanear - Como a presença de mulheres em posições de liderança no saneamento tem contribuído para transformar a gestão e a visão de futuro no setor?
Samanta Takimi - O saneamento exige conhecimento técnico, gestão operacional e decisões estratégicas, mas também exige escuta, diálogo, sensibilidade social e visão humana sobre os impactos das decisões. Portanto, ser a primeira mulher a liderar a Corsan, em quase 60 anos de história da Companhia, é um símbolo importante de abertura de caminhos e de transformação cultural em um setor historicamente masculino. Ao longo da minha trajetória, aprendi que liderar no saneamento é cuidar de pessoas. Estamos falando de um serviço essencial que impacta diretamente saúde, dignidade, permanência das famílias nos territórios e proteção ambiental. Cada decisão tomada dentro de uma companhia de saneamento repercute na vida de milhões de pessoas. Acredito muito em uma liderança baseada em integração, responsabilidade e propósito coletivo. Mulheres muitas vezes contribuem trazendo uma visão mais conectada entre eficiência operacional, cuidado humano e sustentabilidade de longo prazo. O saneamento transforma realidades de forma “invisível”, mas profunda. E liderar esse processo é compreender que infraestrutura também é justiça social. Cada rede implantada, cada estação construída e cada família atendida representam uma transformação concreta na qualidade de vida e no futuro das cidades.
- “A Amazônia está muito próxima do ponto de não retorno”
Por Carlos Nobre
Apontado como um dos cientistas brasileiros mais reconhecidos no mundo por seus trabalhos sobre mudanças climáticas e a Amazônia, o pesquisador Carlos Nobre acaba de ser indicado pelo Papa Leão XIV para integrar o Conselho do Vaticano. O acadêmico integrará o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, em razão de sua veemente defesa da floresta, seus povos e o preocupante alerta que faz sobre as possibilidades de o desmatamento na região atingir um ponto de não-retorno. Veja a seguir, a entrevista que Nobre concedeu à Sanear.
Sanear - O que significa para um brasileiro ser indicado pelo Papa para o Dicastério do Vaticano? E como o Vaticano pode contribuir na discussão sobre as mudanças climáticas?
Carlos Nobre - Fiquei muito honrado com a indicação. Sou cientista da área ambiental, climática e amazônica, e acredito que essa foi a razão da escolha. O Vaticano confirmou que minha participação no Sínodo da Amazônia em 2019 foi um dos motivos. O Papa Francisco tem liderado a busca por soluções para a emergência climática, e o Vaticano, com 1,4 bilhão de católicos, muitos em países com altas emissões, tem um papel importante em mostrar os riscos e a necessidade de mudança.
Sanear - O senhor acha que conseguiremos atingir o “net zero” (zero emissões líquidas de carbono) até 2050?
Carlos Nobre - A ciência indicava em 2021 que deveríamos reduzir 43% das emissões até 2030 e zerar as emissões líquidas até 2050. No entanto, nos últimos três anos, a temperatura já atingiu 1,5°C. Artigos recentes mostram que atingiremos permanentemente 1,5°C em 2030. Se zerarmos as emissões apenas em 2050, ultrapassaremos 2°C. Na COP30, propusemos zerar as emissões líquidas até 2040 ou 2045, com uma redução de 5% ao ano até 2030. Infelizmente, muitos países não concordaram.
Sanear - A diplomacia ambiental, inclusive a promovida pelo Vaticano, terá resultados concretos diante da diversidade de realidades e interesses dos países? Carlos Nobre - Temos grande expectativa. O Papa Francisco e agora o Papa Leão XIV têm sido líderes na questão da emergência climática. Minha atuação no Dicastério será semelhante à minha participação no Sínodo da Amazônia, onde levei os riscos da Amazônia e a urgência de soluções, como zerar o desmatamento e valorizar os povos indígenas. Acredito que a divulgação e a oportunidade de discutir o que está acontecendo já são um trabalho positivo.
Sanear - Qual sua avaliação da COP30? Carlos Nobre - Pontos positivos foram a menção aos afrodescendentes e quilombolas e o consenso sobre a urgência de acelerar a adaptação a eventos extremos, com a necessidade de 300 bilhões de dólares anuais para isso. A frustração foi a falta de acordo para acelerar a redução das emissões, especialmente as de combustíveis fósseis e desmatamento, devido à necessidade de consenso entre os países.
Sanear - Como o Brasil deve se posicionar no cenário global. Continuará sendo um líder ambiental? Carlos Nobre - A Amazônia está muito próxima do ponto de não retorno. Se o desmatamento atingir 20-25% e o aquecimento 2°C, perderemos 70-77% da floresta em 30-50 anos. É essencial zerar o desmatamento o quanto antes, não depois de 2030, e fazer mega restauração florestal. O Brasil lançou na COP28 um plano para restaurar 240.000 km² até 2050. Se não fizermos isso, não haverá mais volta.
Sanear - Quanto o Brasil e o mundo podem perder financeiramente com as mudanças climáticas?
Carlos Nobre - Os custos dos eventos extremos são altíssimos. Destroem infraestrutura, afetam a produção agrícola, causam mortes. É mais barato buscar soluções. Por exemplo, proteger as pessoas das ondas de calor é mais econômico do que tratar as consequências médicas. O sistema econômico mundial ainda não está indo nessa direção.
Sanear - Pode-se afirmar que existe dinheiro, mas não vontade política para combater as mudanças climáticas? Carlos Nobre - Sim. Os gastos militares globais, incluindo as guerras, são o quarto maior emissor de gases de efeito estufa. O presidente Lula, na COP30, mencionou que os países gastam 2,3 trilhões de dólares por ano em guerras, muito mais do que o necessário para combater a emergência climática.
Ele disse: “Parem todas as guerras”, e haverá recursos. É um absurdo gastar tanto em conflitos que matam milhares de pessoas.
Sanear - Como garantir que a nova economia da sociobiodiversidade inclua comunidades indígenas, ribeirinhas e quilombolas sem repetir modelos de exploração?
Carlos Nobre - É totalmente factível. Cooperativas de produtos da biodiversidade amazônica mostram que os cooperados e fornecedores atingem a classe média, melhorando suas vidas e mantendo a floresta. A socioeconomia da floresta em pé, embora represente apenas 1,5% do PIB da Amazônia brasileira, tem um enorme potencial. A pecuária, que causa desmatamento, representa 17% do PIB e gera pouquíssimos empregos. É preciso valorizar os produtos da biodiversidade e os sistemas agroflorestais.
Sanear - Como convencer os setores econômicos a manter a Amazônia em pé? Carlos Nobre - É preciso ter políticas públicas que forcem a mudança. O agronegócio, culturalmente, não muda facilmente. É necessário zerar o desmatamento e promover a agropecuária regenerativa, que é mais produtiva, sem desmatamento e resiliente a eventos extremos. Atualmente, menos de 15% das fazendas brasileiras adotam essa prática.
Sanear - Qual o papel do setor de saneamento no combate às mudanças climáticas? Carlos Nobre - O saneamento é um grande desafio no Brasil, com muitas residências sem acesso. Isso representa um risco para a saúde humana e a biodiversidade. O saneamento também gera emissões de metano, mas há maneiras de diminuí-las. O maior benefício do saneamento é social, físico e medicinal para a população.
Sanear - Qual sua mensagem para os profissionais do setor de saneamento?
Carlos Nobre - Parabéns pelo trabalho. O desafio é enorme, quase dobrar o saneamento em todo o Brasil para toda a população. É preciso ter poder político para alcançar essa meta.
- O papel das entidades de saneamento na universalização
Especialistas ressaltam que, mais do que esforços isolados, o avanço do setor depende do fortalecimento da articulação entre diferentes atores
À medida que o prazo para a universalização do saneamento se aproxima, especialistas e operadores do setor debatem se os sete anos restantes serão suficientes para alcançar a meta de 99% de acesso à água potável e 90% de cobertura na coleta e tratamento de esgoto. Os últimos anos foram marcados por avanços significativos, mas lacunas em investimento, planejamento e coordenação entre as entidades do setor podem frear a evolução completa dos serviços até 2033.
Até o momento, 28 municípios já alcançaram a universalização do abastecimento de água, sendo 11 deles no estado de São Paulo. Os dados são do Ranking do Saneamento, elaborado pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a GO Associados, que também evidencia as dificuldades enfrentadas pelas regiões Norte e Nordeste. Recife, por exemplo, registra 78,9% de cobertura no abastecimento de água, enquanto Porto Velho tem apenas 30,7%.
São necessários R$ 900 bilhões para alcançar a meta, o dobro do que vem sendo alocado anualmente, segundo dados do instituto. “As parcerias público-privadas (PPPs) têm avançado muito, o que consegue responder em parte à universalização. Mas ainda necessitamos de uma mudança institucional referente às fontes de financiamento que propiciem avançarmos de forma mais efetiva, principalmente às populações mais vulneráveis”, avalia o diretor executivo da Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento (Aesbe), Sérgio Gonçalves.
Para ele, o fortalecimento do diálogo institucional entre as diferentes entidades do setor é o principal caminho para consolidar a agenda do saneamento. “As normas de referência para a regulação são fundamentais. Além disso, cada ente estadual, municipal ou consorcial responsável pela regulação pode colaborar com o processo de universalização. A troca de experiências na prestação dos serviços e na regulação, especialmente naquilo que puder ser homogeneizado, ajudará muito”, aponta.
Nesse cenário, as companhias estaduais, presentes em mais de 3 mil municípios brasileiros, tornam-se cada vez mais cruciais, segundo o diretor executivo da Aesbe. “Elas possuem um compromisso público em levar saneamento como uma missão que ultrapassa o compromisso institucional. As companhias estão a cada dia avançando nas agendas ESG/ASG e também nas agendas de mudança climática, se modernizando e permanecendo atentas aos movimentos políticos-institucionais”
É cada vez mais importante que as companhias dialoguem especialmente com os municípios, apontados por Francisco dos Santos Lopes, secretário executivo da Associação Nacional dos Serviços Municipais de Saneamento (Assemae), como um dos principais protagonistas na agenda da universalização. “A cooperação entre municípios, estados, União e entidades do setor é um dos caminhos mais poderosos para superar as desigualdades regionais no acesso ao saneamento. Quando trabalhamos de forma integrada, conseguimos somar capacidades, compartilhar soluções e construir estratégias que respeitam as diferenças territoriais do Brasil, sem deixar nenhum município para trás”, defende.
Para a Assemae, a universalização só será possível se houver articulação permanente entre os diferentes níveis de governo e as instituições que atuam no saneamento. “Trabalhamos para aproximar gestores, promover o diálogo técnico e político e criar espaços em que as experiências bem-sucedidas possam ser replicadas em regiões que ainda enfrentam grandes desafios. Quando unimos esforços, ampliamos o acesso a financiamentos, fortalecemos a regulação, qualificamos a gestão e garantimos que as políticas públicas cheguem de forma mais equilibrada a todas as regiões. É por isso que seguimos empenhados em construir pontes, estimular parcerias e fortalecer o saneamento público municipal como peça central de uma estratégia nacional capaz de reduzir desigualdades e transformar realidades em todo o país”, completa.
A importância de investimentos públicos e privados
A Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental possui atualmente 1.844 empreendimentos, que somam R$ 67,7 bilhões em investimentos. Entre 2023 e 2026, foram contratadas mais de 1.200 operações de repasse, totalizando R$ 19 bilhões, além de 146 operações de financiamento com recursos do FGTS, que representam R$ 11,9 bilhões em empréstimos e R$ 13,3 bilhões em investimentos. O setor também conta com participação crescente das debêntures incentivadas de infraestrutura, cuja carteira reúne 91 projetos, com R$ 73,1 bilhões em investimentos.
Diretora-presidente da Associação Brasileira das Empresas de Saneamento (Abcon), Christianne Dias diz que os investimentos do setor privado são essenciais para mobilizar os R$ 900 bilhões necessários à universalização. “Desde o Marco, os avanços foram significativos, elevando a operação privada para 37,2% dos municípios e gerando a contratualização de R$ 205,1 bilhões em investimentos via 67 leilões. Com isso, o setor de saneamento registra investimento recorde pelo terceiro ano consecutivo, alcançando R$ 29,1 bilhões em 2024”, analisa.
A especialista aponta que modelos de concessão e PPPs são aceleradores da expansão dos serviços, especialmente em regiões deficitárias de atendimento. “Esses modelos combinam eficiência operacional e a capacidade de investimento do setor privado com planejamento de longo prazo. Cada modelo possui suas particularidades e vantagens. Muitas concessões e PPPs foram desenhadas para atender ao modelo de regionalização do atendimento de água e esgoto, juntando no mesmo bloco municípios grandes, com maior rentabilidade, e municípios menores, que não se viabilizariam sozinhos. Isso resulta em subsídios cruzados que promovem a universalização”, explica.
As concessões têm sido amplamente utilizadas no avanço do atendimento de água e esgoto, concentrando 57 dos leilões realizados. Já as PPPs têm sido um instrumento essencial para ampliar a capacidade de investimento das companhias estaduais e acelerar a construção de redes para alcançar a universalização.
Para atrair investimentos de longo prazo, a diretora-presidente da Abcon explica que é necessário segurança jurídica, com respeito aos contratos, aderência aos termos de reajustes e aos reequilíbrios econômico-financeiros de acordo com as matrizes de risco pré-estabelecidas. “Outra condição essencial é a coerência regulatória, que significa alinhamento de objetivos das políticas públicas, para evitar que uma política interfira ou comprometa os objetivos de universalização do saneamento. As normas de referência da ANA [Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico] têm um papel importante de harmonização regulatória no setor de saneamento e contribuem tanto para a segurança jurídica quanto para a coerência regulatória”, completa.
Universalização que chega aos rincões do país
Um dos grandes feitos da universalização será levar o acesso ao saneamento básico às regiões mais afastadas dos centros urbanos, como pequenos municípios, áreas rurais e comunidades mais vulneráveis. Para a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), o Marco Legal permite alcançar populações que ficaram ficou historicamente mais distantes dessas políticas públicas.
“Estamos falando de milhões de brasileiros que ainda convivem com dificuldades de acesso à água tratada, esgotamento sanitário e serviços básicos de saúde ambiental. A Funasa [Fundação Nacional de Saúde] conhece essa realidade de perto porque atua há décadas ao lado desses municípios, especialmente os de menor porte, de até 50 mil habitantes. Muitas vezes, são localidades que não conseguem atrair grandes investimentos e que dependem muito do apoio técnico e institucional do governo federal para tirar projetos do papel”, evidencia Lenildo Morais, presidente da Fundação.
Levar saneamento para essas áreas, segundo ele, é uma questão de saúde pública, já que a ausência desses serviços impacta diretamente os índices de doenças, na qualidade de vida e no desenvolvimento econômico local. Nesse contexto, instituições como a Funasa, que acumulam experiência técnica e presença nos territórios, têm um papel muito importante por ajudar os municípios em várias frentes ao mesmo tempo.
“Não se trata apenas de executar obras, mas de apoiar o planejamento, capacitar equipes locais e construir soluções adequadas para cada realidade. Na prática, muitos municípios enfrentam dificuldades até para estruturar projetos e acessar recursos. É aí que a atuação técnica faz diferença. A Funasa, por
exemplo, tem uma experiência histórica de apoio aos municípios de menor porte, principalmente em áreas rurais e localidades mais vulneráveis”, diz Morais.
Ele destaca ainda que o saneamento não pode ser visto isoladamente, pois está associado diretamente à saúde pública, à preservação ambiental e à qualidade de vida das pessoas. Dessa forma, a visão integrada busca soluções sustentáveis e funcionais no dia a dia das comunidades. “O Brasil tem realidades muito diferentes. Em áreas rurais e comunidades mais isoladas, por exemplo, os custos costumam ser maiores e, muitas vezes, as soluções tradicionais não atendem da melhor forma. Isso exige tecnologias adaptadas e modelos mais flexíveis. Por isso, a Funasa entende que o apoio técnico permanente é fundamental. Fortalecer os municípios, capacitar gestores e desenvolver soluções apropriadas para cada território são passos essenciais para avançarmos de forma consistente na universalização do saneamento”, avalia o presidente da Funasa.
Sociedade civil mobilizada pelo saneamento
O acesso universal ao saneamento também depende da mobilização da sociedade civil. Entidades como o Instituto Trata Brasil auxiliam na conscientização da população, como enfatiza sua presidente-executiva, Luana Pretto. “Temos um desafio grande. Para que possamos possa conscientizar a população e fazer ela entender a importância desse acesso, precisamos tocar o coração das pessoas e mostrar que o saneamento básico pode mudar a vida delas. A produção de dados coloca o
saneamento na ordem do dia dessas localidades” explica.
Ao abordar temas como desenvolvimento infantil, mudanças climáticas, produtividade no trabalho, renda e turismo, o instituto tangibiliza o impacto do acesso pleno ao saneamento. “Trazer esses dados de uma maneira acessível é algo que pode conectar a população com o tema e fazer com que ela cobre dos governantes o acesso e que os governantes possam promover políticas públicas que fomentem isso”, diz Luana Pretto.
Na mesma linha, o Instituto Água e Saneamento (IAS) defende que a pressão e o acompanhamento da sociedade civil são ações essenciais para que poder público e legisladores formulem políticas que atendam aos interesses da população com maior transparência na aplicação dos recursos públicos.
“No caso do saneamento, existe em todo o país uma extensa rede de ONGs, movimentos sociais e associações que monitoram atentamente diferentes aspectos dessa área, incluindo saneamento indígena, adaptação climática, universalização e governança, com capacidade para fazer contribuições pertinentes e bem informadas. São atores que fortalecem o controle social previsto na legislação brasileira, ampliando a participação popular em conselhos, audiências públicas e processos decisórios. O IAS procura fazer pontes entre os diferentes atores da água, saneamento e clima, além de subsidiar a sociedade com dados e informações por meio de seus relatórios e ferramentas como municípios e saneamento”, explica Paula Pollini, especialista em políticas públicas e co- -coordenadora de Articulação e Incidência do IAS.
Segundo ela, essa mobilização é importante porque os impactos da precariedade do saneamento afetam desproporcionalmente diferentes grupos. Comunidades periféricas, áreas rurais, povos indígenas, quilombolas e moradores de assentamentos precários sofrem mais com enchentes, contaminação da água, insegurança hídrica e eventos climáticos extremos.
“Nesse sentido, discutir universalização sem considerar justiça climática e desigualdade social pode reproduzir exclusões históricas. O IAS tem uma grande preocupação com os estados e municípios que não conseguirão atender as metas de 99% de água e 90% de esgoto até 2033, previstas no Marco Legal de 2020. São, notadamente, estados que têm os piores índices, boa parte nas regiões Norte e Nordeste. Mas, em qualquer região do Brasil que olharmos, o déficit se concentra em grupos e territórios como populações rurais, comunidades ribeirinhas, povos indígenas, quilombolas, moradores de favelas e periferias urbanas, pessoas em situação de rua e pequenos municípios com baixa capacidade financeira. São esses recortes sociais que correm o maior risco de ficar de fora da meta de 90% almejados pela universalização do esgotamento sanitário, por exemplo”, conclui.
Universalização cria oportunidades
Muitas soluções e inovações têm surgido no setor em resposta à demanda da universalização. O desenvolvimento do reúso da água é um dos destaques e pode estabelecer o Brasil como um grande case de sucesso para o mundo, como explica a fundadora e diretora-executiva do Instituto Reúso de Água (IRdA), Ana Silvia Santos.
Também professora associada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, ela conta que os índices de atendimento de água e esgoto já são próximos de 100% nos países em desenvolvimento desde o século passado, quando universalizar o esgotamento sanitário significava coletá-lo e tratá-lo, a nível secundário, para posterior descarte em corpos hídricos com segurança e de acordo com a legislação pertinente.
Recentemente, em função das alterações do clima, do crescimento populacional e das mudanças nos hábitos de consumo da sociedade, as águas residuais tratadas têm ganhado protagonismo ao serem reinseridas no ciclo do uso para diversas finalidades, como aplicações urbanas, agrícolas e industriais. No entanto, a prática de reúso demanda tecnologias de tratamento mais avançadas e uma logística de distribuição mais estruturada, o que leva países desenvolvidos e universalizados a otimizar suas instalações existentes.
Enquanto isso, o Brasil pode universalizar já no contexto de projetos mais inteligentes. “Somente 50% dos esgotos são tratados e, assim, a concepção de novas instalações deve caminhar em paralelo com as ações de adaptação às alterações do clima, para o desenvolvimento de cidades mais resilientes, com vistas à segurança hídrica regional”, analisa Ana Silva Santos, que vê condições técnicas e tecnológicas no país para garantir qualidade de água e segurança sanitária e ambiental.
“O Instituto Reúso de Água é uma organização não governamental, sem fins lucrativos, que tem o objetivo de criar uma cultura de inovação e de construção coletiva do conhecimento de modo a pavimentar o caminho do avanço seguro e responsável do reúso de água no país. Com base na inovação estabelecida no mundo, concentramos nossos esforços em ações educacionais e técnico-científicas para o estabelecimento de pontes entre os principais players públicos e privados do setor e entre eles e a sociedade”, completa.
Muito além de metas numéricas
Investimentos corretos e cooperação entre entidades têm se revelado a melhor combinação para uma entrega efetiva, sustentável e de qualidade para a população. Para o presidente nacional da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), Marcel Sanches, o país avançou muito nos últimos anos em termos de estruturação institucional, novos contratos e ampliação da capacidade de investimento, mas a universalização exige muito mais do que metas numéricas.
“Ela depende de execução eficiente, maturidade técnica, capacidade de gestão e forte coordenação entre planejamento, engenharia, regulação, financiamento e operação. Do ponto de vista técnico, há desafios relevantes relacionados à elaboração de bons projetos, licenciamento ambiental, capacidade da cadeia de fornecedores, formação de mão de obra especializada, gestão de contratos, eficiência operacional e resiliência climática. Precisamos acelerar obras sem perder qualidade, segurança ou sustentabilidade econômica”, argumenta.
Segundo ele, também será fundamental ampliar a capacidade de planejamento de longo prazo. O setor precisará investir cada vez mais em segurança hídrica, redução de perdas, reúso, digitalização e adaptação a eventos extremos.
“Universalizar significa garantir acesso com qualidade, continuidade e sustentabilidade operacional para toda a população. A visão da ABES é que o país precisa combinar investimento, capacidade técnica, inovação, boa regulação e cooperação institucional. O saneamento é uma agenda de saúde pública, desenvolvimento econômico, proteção ambiental e dignidade humana. A universalização será resultado da capacidade de transformar planejamento em entrega concreta para a sociedade”, explica o especialista.
Por isso, a ABES tem se comprometido a exercer um papel estratégico como espaço de convergência entre conhecimento técnico, formulação institucional e articulação setorial. Em seis décadas de atuação, a entidade se consolidou como uma das principais referências técnico-científicas do saneamento brasileiro, promovendo a integração entre academia, operadores públicos e privados, reguladores, governos, empresas, centros de pesquisa e profissionais do setor.
“A ABES atua como uma ponte entre conhecimento e implementação. Isso significa transformar experiências, pesquisas, inovação e boas práticas em diretrizes, debates e soluções concretas capazes de apoiar políticas públicas, decisões regulatórias e investimentos estruturantes. Além disso, a ABES tem um papel importante na construção de consensos técnicos em um setor que vive uma profunda transformação institucional. O saneamento precisa de estabilidade, previsibilidade e visão de longo prazo. A contribuição da ABES é justamente oferecer um ambiente técnico qualificado, plural e institucionalmente equilibrado para apoiar essa evolução”, conclui Sanches.
Na mesma perspectiva, Agostinho Geraldes, presidente da Associação dos Engenheiros da Sabesp (AESabesp), diz que a cooperação entre entidades do saneamento, governo, operadores, universidades e organismos internacionais é essencial porque a universalização é um desafio multidimensional. “Nenhuma instituição consegue resolver sozinha questões que envolvem infraestrutura, financiamento, tecnologia, regulação, desenvolvimento urbano, meio ambiente e inclusão social”, evidencia.
A universalização, segundo ele, não depende apenas de obras, mas de articulação institucional, continuidade de políticas públicas, qualificação técnica e capacidade coletiva de construir soluções sustentáveis para o país. “O poder público define políticas e metas, os operadores executam e investem, a academia produz pesquisa e inovação, entidades técnicas articulam conhecimento e formação, e organismos internacionais contribuem com financiamento, experiências globais e cooperação técnica”, explica.
Quando esses atores trabalham de forma integrada, o setor ganha mais capacidade de inovação, troca de experiências bem-sucedidas, maior eficiência regulatória, planejamento de longo prazo e acesso a novas tecnologias e modelos de gestão. Dentro dessa perspectiva, a AESabesp atua no papel estratégico de ponte entre conhecimento técnico, formulação de políticas públicas e integração institucional do setor de saneamento. Como entidade associativa, ajuda a reunir profissionais, operadores, pesquisadores, empresas e gestores públicos em torno de um objetivo comum: ampliar o acesso à água e ao esgotamento sanitário com qualidade e sustentabilidade.
“A atuação da AESabesp em capacitação e disseminação de conhecimento é importante porque o setor de saneamento vive uma fase de transformação acelerada. Hoje, os desafios envolvem não apenas engenharia tradicional, mas também mudanças climáticas, segurança hídrica, digitalização e automação, ESG, reúso de água, eficiência energética e novas exigências regulatórias e de financiamento. Ao promover cursos, congressos, feiras técnicas e intercâmbio entre especialistas, a AESabesp contribui para atualizar continuamente os profissionais do setor. Eventos como a Fenasan (Feira Nacional de Saneamento e Meio Ambiente) e o Encontro Técnico (Congresso Nacional de Saneamento e Meio Ambiente), que juntos formam a maior realização de saneamento ambiental das Américas, têm justamente esse papel, reunindo profissionais e empresas e conectando conhecimento técnico, inovação e os olhares da academia, dos operadores e do mercado”, finaliza o presidente da AESabesp.
Fonte: REVISTA SANEAR Nº 53 – AESBE – Comunicação de 27/08/2026