Nivalde de Castro
David Alexander
Gustavo Esteves
O Brasil se prepara para enfrentar, entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027, um El Niño previsto como um dos mais intensos, de acordo com organismos internacionais que monitoram esse fenômeno. Tendo em vista o histórico dos impactos sobre a hidrologia, as expectativas negativas sobre o setor elétrico brasileiro são preocupantes em função da importância estratégica das usinas hidrelétricas na matriz elétrica nacional, notadamente sobre o volume dos reservatórios.
Merece destaque que o El Niño se forma quando as temperaturas do Oceano Pacífico Equatorial atingem 0,5ºC acima da média por vários meses consecutivos. Classifica-se como um Super El Niño, quando o aquecimento ultrapassa 2ºC acima da média, pois esse aumento de temperatura provoca reações meteorológicas que alteram os padrões históricos das chuvas em escala global.
Quando o El Niño atinge o território brasileiro, as evidências históricas indicam a imposição de um padrão de comportamento da energia natural afluente assimétrico: mais chuva na Região Sul e estiagem mais severa no Norte e no Nordeste. Uma vez que a fonte hidráulica responde por mais da metade da oferta interna de energia elétrica (51,2% em 2025, segundo dados do Balanço Energético Nacional da Empresa de Pesquisa Energética), os efeitos do evento sobre o cenário hidrológico suscitam preocupações sobre as condições operativas do sistema elétrico e a segurança de suprimento.
A falta de chuva na área em que se concentram as usinas hidrelétricas de Jirau, Santo Antônio, Tucuruí e Belo Monte, que somam aproximadamente 27,1 GW de capacidade instalada, colocam o Sistema Interligado Nacional (SIN) diante de um teste concreto de segurança de suprimento. A variável determinante, ainda com alta imprevisibilidade estatística de ocorrência, é o nível de chuvas no subsistema Sudeste/Centro-Oeste, que detém cerca de 70% do volume total da energia armazenada nos reservatórios do Brasil.
Nesse contexto, cabe evidenciar também que não se trata somente de um risco de balanço energético de "ter ou não ter água" para gerar energia, mas sim de um risco sobre a flexibilidade do SIN. Esse risco deve-se à importância crucial que o parque hidrelétrico brasileiro como o principal recurso de flexibilidade operativa do SIN para acomodar o crescimento da Micro e Mini Geração Distribuída (MMGD) solar, que, ao anoitecer, impõe rampas de subida em gigawatts (GW) cada vez mais acentuadas, em concomitância com o momento de maior demanda de energia elétrica, denominado por "ponta de carga". As usinas hidrelétricas (UHE), sobretudo as que têm reservatório, oferecem às equipes técnicas do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) importantes atributos controláveis de potência e modulação para garantir a segurança e equilíbrio entre demanda e oferta de energia elétrica nos horários em que a rampa até o pico se forma diariamente.
É justamente essa capacidade de resposta rápida que pode ser comprometida pelos impactos do El Niño sobre os reservatórios, diante do risco de estiagem. Se a redução das vazões afetar a capacidade de resposta de usinas importantes para a modulação da rampa até a ponta de carga, o SIN perde energia armazenada e parte da sua principal ferramenta de flexibilidade. Esse efeito poderá exigir o acionamento de termelétricas, que, por serem mais caras, terão um impacto direto no custo de operação do sistema, obrigando o acionamento das bandeiras tarifárias, com reflexos sobre a inflação.
Outras preocupações relacionadas a esse fenômeno climático se estendem para além do setor elétrico. Ao afetar o clima regional, as alterações se propagam por outros setores da economia. Em alguns casos, produzem efeitos cruzados que repercutem de forma indireta sobre o SIN.
Um deles é logístico: a redução de afluências na Região Norte, por exemplo, pode comprometer o transporte fluvial de combustível para térmicas localizadas naquele submercado. Outros impactos relevantes incluem riscos de queimadas ou tempestades, pois regiões com redução pluviométrica tendem a apresentar maior vulnerabilidade da vegetação, o que pode afetar as estruturas da rede elétrica e levar a desligamentos forçados do suprimento de energia.
Raciocínio semelhante se aplica ao aumento do regime de chuvas nas regiões Sudeste e Sul. A ocorrência de tempestades e aumento na afluência dos rios pode implicar na necessidade de um controle de cheias mais rígido das barragens para evitar rompimento. Além disso, há riscos de danos a linhas de transmissão e distribuição em razão dos ventos fortes.
Adicionalmente, há a situação do compartilhamento do recurso hídrico e dos múltiplos usos da água. Conforme estabelecido na Lei nº 15.269/2025, além da geração de energia, há a necessidade de abastecimento das cidades, irrigação e navegação. A competição pelo mesmo recurso nas regiões atingidas pelo fenômeno climático pode contribuir para custos de energia mais altos, pois aumenta o custo de oportunidade do uso da água.
Assim, observa-se que os efeitos do Super El Niño, bem como de futuras alterações climáticas, impõe ao setor elétrico um teste de resiliência que é, no fundo, um teste de logística: a capacidade de redistribuir rapidamente onde e como a energia é gerada, operada e mantida diante de um cenário dinâmico. Essa logística passa por decisões sobre onde gerar energia, deslocando o despacho das usinas hidrelétricas mais afetadas para outras fontes disponíveis; pela adaptação do uso dos recursos hídricos e das restrições operativas impostas às usinas; e pela celeridade no atendimento a ocorrências em redes de transmissão e distribuição, especialmente em áreas mais vulneráveis a queimadas e instabilidades climáticas.
Em síntese, a resiliência do SIN e das redes de distribuição diante de eventos como o Super El Niño depende menos de dispor de um recurso adicional e mais da capacidade de redistribuir, com agilidade, os recursos que já existem.
Diante do reconhecimento da emergência, isto é, dos impactos diretos e indiretos do El Niño no Setor Elétrico Brasileiro (SEB), algumas medidas já foram adotadas para mitigação e elaboração de estratégias de adaptação do SEB aos eventos climáticos extremos (ECEx). Entre as iniciativas em debate estão a reunião realizada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) em 22 de junho, em Manaus, com os principais agentes do setor elétrico e representantes da sociedade civil estratégias e ações de resposta; e a aprovação pelo Senado Federal de sessões especiais junto a entidades sobre a política nacional de energia renovável e os impactos dos fenômenos climáticos.
Diante do reconhecimento da emergência, isto é, dos impactos diretos e indiretos do El Niño no Setor Elétrico Brasileiro (SEB), algumas medidas já foram adotadas para mitigação e elaboração de estratégias de adaptação do SEB aos eventos climáticos extremos (ECEx). Entre as iniciativas em debate estão a reunião realizada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) em 22 de junho, em Manaus, com os principais agentes do setor elétrico e representantes da sociedade civil estratégias e ações de resposta; e a aprovação pelo Senado Federal de sessões especiais junto a entidades sobre a política nacional de energia renovável e os impactos dos fenômenos climáticos.
Na mesma direção, a Aneel enviou, em junho, ofícios às empresas de geração, transmissão e distribuição de energia solicitando a adoção de ações preventivas, como o reforço da resiliência das infraestruturas elétricas e a revisão dos planos de contingência.
No médio prazo, as medidas estruturantes incluem a expansão dos sistemas de armazenamento, tanto por baterias quanto através de usinas hidrelétricas reversíveis (UHR). Nessa perspectiva, merece destaque a realização dos leilões de reserva de capacidade (LRCAPs), voltados à contratação de capacidade para a flexibilidade sistêmica. Tanto os que foram realizados para contratação de usinas termoelétricas, quanto o leilão direcionado a baterias, a ser realizado em dezembro de 2026, bem como o leilão para sistemas de armazenamento hidráulico (UHR) são essenciais para a garantir confiabilidade do SEB.
De todo modo, o fenômeno do El Niño está inserido em um contexto mais amplo de mudanças climáticas e aquecimento global, que tende a aumentar em De todo modo, o fenômeno do El Niño está inserido em um contexto mais amplo de mudanças climáticas e aquecimento global, que tende a aumentar em frequência, duração e intensidade de ECEx, dos quais o Super El Niño de 2026 é apenas o exemplo mais recente. As respostas passam por estratégias que combinam resiliência climática, transição energética, soberania nacional e competitividade, bem como a capacidade do SEB se adaptar com flexibilidade a esses extremos, tende a se tornar cada vez mais determinante para a segurança de suprimento do País.
Fonte: broadcast energia | Linkedin