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INDICE DE MODULAÇÃO DA DCIDE E OS DESCONTOS TARIFÁRIOS DAS FONTES DE ENERGIA

14/9/2026

Por: Antonio Araújo da Silva

A crescente importância da formação horária do preço da energia elétrica no Brasil tornou necessário distinguir dois fenômenos que, embora relacionados à comercialização de energia, possuem naturezas distintas: de um lado, os descontos tarifários regulados pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), incidentes principalmente sobre as Tarifas de Uso dos Sistemas de Transmissão e Distribuição (TUST/TUSD); de outro, o Índice de Modulação da Dcide (IMD), que representa o efeito econômico decorrente do perfil horário de geração em comparação com uma geração hipoteticamente distribuída de maneira uniforme ao longo das horas.

Desde a adoção do PLD horário, em janeiro de 2021, a hora em que a energia é produzida passou a ter impacto crescente sobre o resultado econômico dos agentes. A Dcide desenvolveu, nesse contexto, seus Índices de Modulação por fonte e submercado. O indicador compara o valor econômico da geração efetivamente realizada a cada hora, considerando o PLD horário, com o valor que seria obtido caso a mesma quantidade de energia fosse gerada em um perfil denominado flat, isto é, uniformemente distribuído pelas horas do período. O resultado é expresso em R$/MWh.

Assim, quando o IMD é positivo, a fonte apresenta um prêmio de modulação, pois sua geração tende a ocorrer em horários nos quais o PLD é relativamente mais elevado. Quando o IMD é negativo, verifica-se um desconto de modulação, porque a geração está concentrada em períodos de preços menores. O indicador igual a zero significa, em termos econômicos, que não existe prêmio ou desconto relevante em relação ao perfil flat.

É importante destacar que o IMD da Dcide não representa um desconto tarifário estabelecido pela ANEEL. O indicador é uma referência analítica de mercado. Seu cálculo utiliza, fundamentalmente, a geração horária das usinas disponibilizada pelo ONS e os valores horários do PLD divulgados pela CCEE. Atualmente, a metodologia da Dcide contempla as fontes solar, eólica e hidráulica, nos quatro submercados do Sistema Interligado Nacional — Sudeste/Centro-Oeste, Sul, Nordeste e Norte.

A diferença entre os dois conceitos torna-se especialmente importante quando se analisam as chamadas fontes incentivadas. A legislação brasileira criou mecanismos de redução das tarifas de uso dos sistemas elétricos para estimular determinadas fontes de geração. A Lei nº 9.427/1996, juntamente com sua regulamentação, fundamenta a concessão de descontos na TUST/TUSD para empreendimentos enquadrados nas hipóteses legais. A ANEEL disciplina a aplicação desses benefícios, inclusive por meio da Resolução Normativa nº 1.031/2022 e das regras de comercialização correspondentes.

Na prática, os percentuais de desconto tarifário associados à energia incentivada podem variar conforme o enquadramento da usina e do contrato. A documentação regulatória da ANEEL registra, entre outros, descontos de 50%, 80% e 100%, conforme a situação específica do empreendimento e da energia comercializada. A própria base de dados da CCEE para 2026 identifica montantes de energia incentivada com descontos de 50%, 80% e 100%, além de energia convencional com desconto de 0%.

Dessa forma, pode-se estabelecer uma distinção simplificada:

Categoria| Desconto regulatório TUSD/TUST| Relação com o IMD da Dcide
Energia convencional| 0%| O IMD pode gerar prêmio ou desconto econômico
Energia incentivada| 50%, 80% ou 100%, conforme enquadramento| O desconto tarifário é independente do IMD
Cogeração qualificada| Há hipóteses de 50%, conforme enquadramento| Pode apresentar prêmio/desconto de modulação
Solar| Conforme enquadramento regulatório do empreendimento| IMD tende a ser negativo quando a geração ocorre em horas de PLD baixo
Eólica| Conforme enquadramento regulatório do empreendimento| IMD pode ser positivo quando a geração coincide com preços elevados
Hidráulica| Conforme enquadramento regulatório do empreendimento| IMD pode ser positivo pela capacidade de geração em horários de maior valor

Portanto, não se deve interpretar um desconto de 50%, 80% ou 100% da energia incentivada como sendo o mesmo que o desconto de modulação calculado pela Dcide. O primeiro é um benefício tarifário regulatório, relacionado à utilização da rede de transmissão e/ou distribuição; o segundo é um resultado econômico associado ao comportamento horário da geração diante do PLD.

Essa distinção é particularmente relevante no ambiente de contratação livre. Uma energia incentivada pode possuir, por exemplo, determinado percentual de desconto na TUSD/TUST e, simultaneamente, apresentar prêmio ou desconto de modulação. Os dois efeitos podem coexistir e influenciar a avaliação econômica do contrato, mas são calculados por metodologias distintas.

Os dados mais recentes divulgados pela Dcide demonstram a relevância econômica desse fenômeno. Em maio de 2026, a geração solar apresentou índices negativos em todos os submercados: -R$ 89,94/MWh no Sudeste/Centro-Oeste, -R$ 60,41/MWh no Norte, -R$ 54,87/MWh no Nordeste e -R$ 52,86/MWh no Sul. Em sentido oposto, a geração eólica apresentou índices positivos nos quatro submercados, enquanto a hidráulica também apresentou prêmios positivos.

No caso da energia solar, o fenômeno está relacionado à concentração da geração durante o período diurno, justamente quando a elevada oferta fotovoltaica pode contribuir para reduzir o preço horário da energia. Em maio de 2026, o desconto de modulação da solar no Sudeste/Centro-Oeste chegou a aproximadamente 40,9% do PLD médio daquele submercado.

A geração hidráulica apresentou comportamento oposto: no mesmo mês, o prêmio de modulação variou de R$ 14,20/MWh no Norte a R$ 34,08/MWh no Sul. A explicação econômica está relacionada à maior flexibilidade operacional das hidrelétricas, que permite maior contribuição nos períodos em que a geração solar diminui e o sistema necessita de outras fontes para atendimento da carga.

A fonte eólica também apresentou prêmio positivo em todos os submercados em maio de 2026, variando de R$ 6,24/MWh no Sul a R$ 33,80/MWh no Norte. No Nordeste, região de grande concentração da geração eólica brasileira, o prêmio foi de aproximadamente R$ 9,93/MWh, equivalente a cerca de 6% do PLD médio do submercado.

Os dados evidenciam, portanto, que a simples comparação do preço médio da energia de diferentes fontes pode ser insuficiente. Para uma avaliação econômica mais completa, é necessário considerar pelo menos quatro componentes: (1) preço da energia; (2) desconto regulatório de TUSD/TUST; (3) perfil de geração e seu efeito de modulação; e (4) localização da geração e do consumo nos diferentes submercados.

Em síntese, a regulação da ANEEL cria os mecanismos de incentivo tarifário destinados a determinadas fontes e empreendimentos, enquanto o Índice de Modulação da Dcide procura mensurar o efeito econômico do perfil horário de geração diante do PLD horário. A combinação desses fatores é fundamental para a correta avaliação de contratos de energia no mercado livre. Uma fonte pode possuir significativo benefício regulatório de TUSD/TUST e, ainda assim, sofrer perda econômica decorrente de sua modulação horária; da mesma forma, uma fonte pode apresentar menor ou nenhum benefício tarifário e obter prêmio econômico decorrente da produção em horários de preços elevados.

Por essa razão, na análise de uma operação de compra e venda de energia, o percentual de desconto regulatório não deve ser utilizado isoladamente como medida de vantagem econômica. O valor efetivo da energia depende da interação entre benefício tarifário, preço contratado, perfil de geração, PLD horário, submercado, sazonalidade, flexibilidade contratual e riscos de exposição à CCEE. O Índice de Modulação da Dcide constitui, nesse contexto, importante instrumento complementar para identificar quanto o perfil temporal da geração agrega ou subtrai valor da energia comercializada.

Referências

  • AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA – ANEEL. Resolução Normativa nº 1.031, de 26 de julho de 2022. Estabelece procedimentos para aplicação dos descontos nas tarifas de uso dos sistemas de transmissão e distribuição.
  • BRASIL. Lei nº 9.427, de 26 de dezembro de 1996. Institui a Agência Nacional de Energia Elétrica – ANEEL e disciplina o regime das concessões de serviços públicos de energia elétrica.
  • CÂMARA DE COMERCIALIZAÇÃO DE ENERGIA ELÉTRICA – CCEE. Dados abertos: Energia Incentivada. São Paulo: CCEE, 2026.
  • DCIDE. Índices de Modulação. Campinas: Dcide, jun. 2026.
  • DCIDE. Índices Mensais de Modulação – Análise Maio de 2026. Campinas: Dcide, 2026.
  • ONS – OPERADOR NACIONAL DO SISTEMA ELÉTRICO. Dados de geração do Sistema Interligado Nacional. Rio de Janeiro: ONS.

Antonio Araújo da Silva
Consultor da TATICCA / Tax / Corporate Finance / Advisory

Resumo das Notícias de Hoje

13/8/2026

Dia 13 de agosto de 2026, quinta-feira

- LULA ASSINA DECRETOS QUE REGULAMENTAM TEMAS DE ENERGIA E DA PAUTA VERDE (política)

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou nesta quarta-feira, 12 de agosto, quatro decretos que regulamentam temas do setor de energia e da chamada pauta verde. Os atos tratam da abertura do mercado de energia para a baixa tensão, do marco legal do hidrogênio de baixa emissão de carbono, das atividades de captura e armazenamento de carbono e do Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação (ProBioQAV).

> Saiba mais na notícia “Lula assina decretos de abertura do mercado e da pauta verde”: https://tinyurl.com/5j83f4e5

- ASSOCIAÇÕES DO SETOR QUEREM URGÊNCIA PARA PL 3.716/2026 (política)

Cinco associações do setor querem urgência na tramitação do PL 3.716/2026, que retira do gerador a exclusividade de cobrança de custos de baterias do segmento. Em carta, a Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia, a Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias, a Associação Brasileira dos Investidores em Autoprodução de Energia, a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica e a Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Energia Elétrica reiteram o apoio à aprovação do Projeto de autoria do deputado federal Arnaldo Jardim, que propõe a revogação do § 6º do art. 3º-A da Lei nº 10.848/2004. O artigo trata dos custos da contratação de reserva de capacidade de geração.

> Continue a leitura na matéria “Associações pedem urgência para PL que muda rateio do ERCAP”: https://tinyurl.com/yv6ymp8d

- EVENTOS CANALENERGIA

Brazil Windpower

Data: 27-29 de outubro

Local: São Paulo Expo - SP

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- OUTRAS NOTÍCIAS DE HOJE

Aneel revoga autorização da 2W e mantém processos punitivos: https://tinyurl.com/3m4ysvdu

As empresas ,que estão em recuperação judicial foram desligadas da CCEE por inadimplência em 2025.

Taesa conclui compra de transmissoras da Energisa: https://tinyurl.com/4jvckccn

Operação custou R$ 1,6 bilhões e agregará R$ 305 milhões de RAP.

Aeris vê Sul como novo polo eólico: https://tinyurl.com/hchfhc7w

Menor restrição nas linhas de transmissão tem reduzido o curtailment na região e atraído novos investimentos.

CEEE Equatorial normaliza operação após ciclone: https://tinyurl.com/yc2pzbu2

375 mil clientes chegaram  a ficar sem energia, enquanto cerca de 500 equipes foram mobilizadas para recuperar a rede elétrica.

Fonte: CanalEnergia

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Resumo das Notícias de Hoje

12/8/2026

Dia 12 de agosto de 2026, quarta-feira

- RECURSO DA ENEL SP (distribuição)

A diretoria da Aneel aprovou nesta terça-feira, 11 de agosto, a continuidade do processo de caducidade da concessão da Enel São Paulo. A decisão unânime chancela o voto do relator Fernando Mosna pela rejeição do recurso da distribuidora, que pediu a anulação ou a suspensão do processo punitivo.

> Saiba mais na notícia “Aneel rejeita recurso da Enel SP e mantém processo de caducidade”: https://tinyurl.com/4vwdf4s7

- MANIFESTAÇÃO DE INTERESSE EM RESSARCIMENTO POR CORTES (política)

O Ministério de Minas e Energia informou nesta terça-feira, 11 de agosto, que o Celebra (Sistema de Manifestação de Interesse para Compensação por Cortes de Geração) registrou manifestação de interesse de 1.539 usinas eólicas e solares fotovoltaicas, que somam cerca de 53 GW de capacidade instalada. Nesse sentido, as usinas interessadas manifestam-se para participar das etapas previstas para a celebração do Termo de Compromisso para a compensação pelos cortes de geração ocorridos no período de 1º de setembro de 2023 a 25 de novembro de 2025. O secretário de Energia elétrica do ministério João Daniel Cascalho já havia anunciado o valor na segunda-feira.

> Continue a leitura em “MME: 1.539 usinas eólicas e solares manifestam interesse em ressarcimento por cortes”: https://tinyurl.com/33fpchys

- RESERVATÓRIOS PARA EL NIÑO (geração)

O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) prepara uma operação mais conservadora dos reservatórios para o próximo ciclo de controle de cheias. O órgão avalia ampliar o volume de espera na bacia do rio Paraná diante dos sinais de um cenário úmido associado ao El Niño.

> Leia mais na matéria “ONS prepara reservatórios para El Niño”: https://tinyurl.com/3rdrb92k

- EVENTOS CANALENERGIA

Brazil Windpower

Data: 27-29 de outubro

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- OUTRAS NOTÍCIAS DE HOJE

Mosna se despede da Aneel com balanço do mandato: https://tinyurl.com/3eduuaz2

Mandato do diretor da agência será encerrado na próxima quinta-feira, 13 de agosto.

Taesa obtém licença de instalação para subestação Estância: https://tinyurl.com/56dmm494

Autorização permite o início das obras do empreendimento da concessão Juruá Transmissora de Energia Elétrica.

Energia elétrica residencial registra alta de 3,09% em julho, aponta IPCA: https://tinyurl.com/4d7dcpjm

IPCA registrou 0,07% em julho de 2026, ficando abaixo dos 0,16% observados em junho.”

Fonte: CanalEnergia

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A Amazônia diante da oportunidade de zerar o desmatamento

12/8/2026

Por Carlos Nobre

Terça-feira, 11/08/2026

O Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) apresentou dados positivos para a agenda ambiental brasileira. Os dados mais recentes mostram uma redução dos alertas de desmatamento na Amazônia. A redução do desmatamento é uma notícia que deve ser celebrada e refletida.

Neste artigo, discutirei, primeiro, os efeitos do desmatamento para a Amazônia e, em seguida, por que zerar o desmatamento até 2030 deve ser consolidado como um compromisso de Estado de acordo com a política do governo federal atual.

Os efeitos do desmatamento da Amazônia

O desmatamento da Amazônia produz efeitos que vão muito além da perda direta de cobertura florestal. A remoção da floresta reduz a biodiversidade, altera o ciclo hidrológico, compromete a capacidade dos ecossistemas de armazenar carbono e contribui significativamente para as emissões brasileiras de gases de efeito estufa.

A perda e a fragmentação das florestas também reduzem a capacidade dos ecossistemas de manter seus serviços ambientais e podem afetar atividades econômicas que dependem da biodiversidade e da estabilidade climática regional. Por isso, reduzir o desmatamento não é apenas uma medida de conservação ambiental, mas uma condição necessária para o desenvolvimento sustentável na região.

As populações amazônicas que dependem dos produtos da biodiversidade também são afetadas pelo desmatamento. Desde a década de 1950, estudos têm mostrado que, à medida que o desmatamento aumenta, a produção de frutos e sementes da biodiversidade amazônica é reduzida. Isso pode diminuir o acesso e o consumo de gorduras, carboidratos e proteínas provenientes de espécies nativas, como a castanha-da-Amazônia e o açaí. Em muitas comunidades amazônicas, os frutos dessas espécies representam uma parcela importante dos macro e micronutrientes consumidos anualmente.

O avanço do desmatamento também pode reduzir a resiliência da floresta e aproximá-la de um possível ponto de não retorno. A Amazônia depende de um complexo sistema de reciclagem de água, no qual a própria floresta contribui para a manutenção das chuvas. A eficiente reciclagem da água pela floresta também gera uma grande quantidade de vapor d'água que é exportada para biomas ao sul da Amazônia (Cerrado, Pantanal, Mata Atlântica), os chamados "rios voadores", que explicam grande parte das chuvas desses biomas.

À medida que a cobertura florestal é perdida, esse sistema de reciclagem de água pode ser enfraquecido, aumentando a exposição da floresta a secas, incêndios florestais, períodos prolongados de estiagem. Isso aumenta o risco de uma transição em grande escala para uma vegetação aberta e de baixo porte, como uma savana degradada, conhecida como ponto de não retorno.

Zerar o desmatamento é uma política de Estado

Os dados recentes mostram uma notícia importante que precisa ser reconhecida: o desmatamento da Amazônia brasileira está caindo. Depois de atingir 12.474 km² em 2022, a área desmatada caiu para 7.806 km² em 2023, 6.071 km² em 2024 e 5.111 km² em 2025. Em apenas três anos, houve uma redução de aproximadamente 59% em relação ao pico de 2022. Mais importante, a queda ocorreu de forma contínua, ano após ano.

A série histórica da plataforma Terrabrasilis mostra como as taxas de desmatamento podem variar significativamente entre diferentes períodos de governo. Conforme dados consolidados do sistema Prodes, entre 2019 e 2022, durante o governo Jair Bolsonaro, foram desmatados 45.703 km² na Amazônia, uma média de 11.426 km² por ano. Em 2019, foram 10.701 km², e a taxa chegou a 12.474 km² em 2022. Já entre 2023 e 2025, no governo Luiz Inácio Lula da Silva, foram desmatados 18.988 km², uma média de 6.329 km² por ano. A média anual do período mais recente foi, portanto, cerca de 45% menor que a média observada entre 2019 e 2022.

Os dados do sistema Deter lançados em agosto de 2026 reforçam essa trajetória de queda. Entre agosto de 2025 e julho de 2026, foram registrados 2.874 km² de desmatamento na Amazônia. Isso representa uma redução de 36% em relação ao período anterior. Embora os sistemas Prodes e Deter tenham metodologias e finalidades diferentes, os resultados reforçam a evidência de que o desmatamento está em trajetória de queda. Provavelmente, esse número será o menor desmatamento desde os anos 1970, quando a ditadura militar iniciou os grandes desmatamentos.

Essa diferença mostra a importância das políticas públicas de combate e controle do desmatamento, mas também revela um problema estrutural: zerar os desmatamentos, além de ser uma meta do Governo Federal, também precisa ser uma meta de todos os estados. Mudanças na orientação política não podem significar mudanças na proteção da maior floresta tropical do planeta.

A queda observada da taxa de desmatamentos da Amazônia brasileira nos últimos três anos e, possivelmente, a tendência indicada pelos dados mais recentes de 2026 estão em linha com o objetivo de zerar o desmatamento até 2030. Para isso, será necessário manter a fiscalização eficiente e as políticas de conservação nos quatro anos do próximo governo federal. Adicionalmente, restaurar áreas desmatadas e degradadas e investir na bioindustrialização dos produtos nativos da Amazônia são estratégias que podem gerar emprego e renda sem destruir a floresta.

A Amazônia precisa ser permanentemente submetida a ciclos de redução do desmatamento, degradação e fogo. O Brasil precisa aproveitar a atual trajetória de queda do uso destrutivo da floresta e mantê-la distante do risco de atingir um ponto de não retorno.

Fonte: Ecoa | Carlos Nobre

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CONTA DE CONSUMO DE COMBUSTÍVEIS – CCC

12/8/2026

Por Gentil S.

Energia | Regulação | Infraestrutura | UnB

Hoje o tema é a Conta de Consumo de Combustíveis (CCC). Muita gente ainda acha que ela só paga geração a combustível fóssil nos sistemas isolados. Foi assim na origem, mas desde a Lei nº 12.111/2009 a lógica mudou.
🔎 Hoje a CCC equaliza custos: cobre a diferença entre o custo de gerar energia em regiões não integradas ao Sistema Interligado Nacional (SIN) — sobretudo na Amazônia, onde longas linhas de transmissão são técnica e economicamente inviáveis — e o custo médio do SIN. Não importa a fonte de geração.
E como reduzir a CCC?
1️⃣ Interligando os sistemas isolados ao SIN — como Boa Vista (RR) e Cruzeiro do Sul (AC), recém-conectados.
2️⃣ Adotando tecnologias mais baratas e limpas onde a interligação é inviável: vários municípios a diesel já hibridizam a geração com solar e baterias.
📌 Vale lembrar: a CCC também custeia custos legados de sistemas que um dia foram isolados e hoje estão no SIN — como a infraestrutura de gás natural que atende Manaus.
🔗 Quer se aprofundar? A Câmara de Comercialização de Energia Elétrica - CCEE publica os dados detalhados da CCC no Boletim InfoCCC: https://lnkd.in/dxG7qdGs

Fonte: Linkedin

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Da biodiversidade à bioindustrialização para uma sociobioeconomia em escala

12/8/2026

Por Carlos Nobre

Terça-feira, 04/08/2026

Nos últimos anos, o conceito de sociobioeconomia da biodiversidade, proposto e difundido pelo Painel Científico para a Amazônia (SPA), passou a ocupar espaço crescente nos debates científicos e políticos. Atualmente, essa sociobioeconomia tornou-se uma das principais propostas para conciliar conservação da biodiversidade, desenvolvimento econômico e inclusão social no Brasil. Discuto aqui o que falta para que essa sociobioeconomia deixe de ser um conjunto de experiências locais e se torne uma estratégia nacional de desenvolvimento sustentável.

A bioindustrialização como infraestrutura da sociobioeconomia

Grande parte das iniciativas de sociobioeconomia no Brasil ainda permanece concentrada na produção e comercialização de matérias-primas, como frutos, sementes, castanhas, óleos e fibras naturais. Embora importantes, dificilmente essas atividades com baixa intensidade tecnológica de agregação de valor aos muitos produtos da biodiversidade serão capazes de transformar a estrutura econômica brasileira nos setores da agropecuária e indústria.

Neste artigo, argumento que a bioindustrialização constitui o principal fator habilitador da sociobioeconomia em grande escala no Brasil. Defino bioindustrialização baseada na biodiversidade como o desenvolvimento de capacidades científicas, tecnológicas, industriais, logísticas e empresariais capazes de transformar recursos biológicos em produtos e processos intensivos em conhecimento. O propósito central é agregar valor próximo aos territórios onde os produtos da biodiversidade são conservados e industrializados, promovendo simultaneamente inovação e repartição de benefícios. Dessa forma, a bioindustrialização constitui a infraestrutura produtiva que permite a sociobioeconomia alcançar escala e competitividade.

Trazer escala para a sociobioeconomia por meio da bioindustrialização torna-se evidente quando observamos a infraestrutura disponível na Amazônia, por exemplo. Em um levantamento sistemático foram identificadas 187 biofábricas em toda a Amazônia brasileira. As biofábricas são definidas como unidades produtivas capazes de transformar matérias-primas da biodiversidade em produtos industrializados. Contudo, essas unidades estão presentes em apenas 72 dos 559 municípios amazônicos (13%), enquanto 487 municípios (87%) permanecem sem registros desse tipo de infraestrutura. Como resultado, cerca de 14 milhões de habitantes vivem nos municípios amazônicos brasileiros sem registros dessas estruturas industriais.

Esse vazio tecnológico ajuda a explicar por que um país que concentra entre 15% e 20% da biodiversidade mundial obtém menos de 1% da riqueza nacional — o PIB (Produto Interno Bruto) — a partir dos produtos da biodiversidade. Esses números revelam que o desafio não está na escassez de biodiversidade, mas na limitada capacidade de transformá-la em riqueza.

Da bioindustrialização à transformação econômica

Expandir a bioindustrialização vai muito além da instalação de novas biofábricas. Significa construir um ecossistema de inovação composto por universidades, institutos de pesquisa, centros tecnológicos, laboratórios, startups, mecanismos de financiamento, formação de recursos humanos e empresas capazes de converter conhecimento científico em produtos competitivos. Os povos indígenas e comunidades locais com seus saberes ancestrais terão papel importante nessa transformação econômica intensiva em conhecimento. Isso é relevante porque os indígenas têm acumulado e repassado o conhecimento sobre a biodiversidade ao longo de milhares de anos e as comunidades locais durante séculos. De fato, o antropólogo brasileiro Darcy Ribeiro deixou registrado em suas pesquisas que os indígenas brasileiros possuem um detalhado conhecimento sobre o uso da biodiversidade, sabendo para o que serve e não serve cada espécie, um conhecimento acumulado e repassado ao longo de mais de 10 mil anos de interação com a natureza.Essa expansão econômica e sustentável da biodiversidade pode seguir o exemplo da expansão da agricultura convencional no Brasil, como aconteceu com a soja, por exemplo. A transformação da agricultura tropical brasileira não ocorreu apenas pela expansão da produção agrícola, mas por décadas de investimentos públicos em ciência, tecnologia e inovação. Uma trajetória similar se faz necessária para a sociobioeconomia da biodiversidade. Assim, é importante compreender a bioindustrialização como a infraestrutura científica, tecnológica, logística e industrial necessária para que a sociobioeconomia alcance escala nacional. Sem isso, o Brasil continuará perdendo oportunidades de mercado, como aconteceu com a borracha no século 19, com a castanha-da-Amazônia no século 20 e com o peixe tambaqui no século 21. Sem essa transformação econômica, o Brasil continuará sendo um exportador da imensa biodiversidade, no formato de matérias-primas de baixo valor agregado, e importador de tecnologias e produtos intensivos em conhecimento desenvolvidos a partir de seus próprios recursos biológicos.

Fonte: Ecoa | Carlos Nobre

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