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FRAGMENTOS EXTRAÍDOS DA REVISTA O SETOR ELÉTRICO – OSE, DE 28/05/2026 (Continuação)

8/6/2026

- Data centers: a fronteira do setor elétrico

Curtailment no Brasil: como os data centers podem transformar energia represada em vantagens competitivas?

Por Alex Santiago

INTRODUÇÃO

    O setor elétrico brasileiro vive hoje uma contradição que precisa ser tratada com mais profundidade. Ao mesmo tempo em que o país amplia sua base renovável e consolida uma das matrizes mais limpas do mundo, cresce também a dificuldade de aproveitar integralmente essa energia. Em várias situações, o problema já não está apenas na capacidade de gerar, mas na capacidade de transmitir, absorver e usar essa energia de forma eficiente.

    É nesse contexto que o curtailment ganha centralidade no debate. Mais do que um evento operacional, ele passou a ser um sintoma claro do descompasso entre a expansão da geração renovável e a evolução da infraestrutura necessária para escoá-la e convertê-la em valor econômico. Em termos simples: o Brasil avança em geração limpa, mas ainda desperdiça parte relevante do potencial que cria.

    Esse tema se torna ainda mais importante quando observamos a dinâmica regional do setor. O crescimento da geração eólica e solar, especialmente no Nordeste, foi muito mais rápido do que a expansão da rede capaz de acomodar esse novo patamar de oferta. O resultado é conhecido pelos agentes do mercado: em determinados momentos, parte da energia disponível precisa ser cortada para preservar a segurança operativa do sistema.

    A resposta estrutural continua sendo a expansão da transmissão. Isso é indiscutível. Mas limitar o debate apenas a esse eixo talvez seja insuficiente diante da velocidade da transformação energética e digital. O que o cenário atual exige é uma agenda complementar: mais flexibilidade, melhor coordenação entre oferta e demanda e, principalmente, uma nova leitura sobre a geografia do consumo elétrico no Brasil.

    É exatamente nesse ponto que os data centers entram de forma mais relevante. Historicamente tratados apenas como grandes consumidores de energia, esses ativos podem assumir um papel mais estratégico na nova dinâmica do setor elétrico. Dependendo do modelo de implantação, da natureza da carga e do ambiente regulatório, podem atuar como demanda qualificada, vetor de agregação de valor à energia renovável e elemento de atração de investimento produtivo para regiões com forte vocação energética.

    A discussão, portanto, não é se os data centers substituem transmissão, armazenamento ou planejamento elétrico. Não substituem. A discussão correta é outra: em que medida essa infraestrutura pode fazer parte de uma solução mais disponível precisa ser cortada para preservar a segurança operativa do sistema. A resposta estrutural continua sendo a expansão da transmissão. Isso é indiscutível. Mas limitar o debate apenas a esse eixo talvez seja insuficiente diante da velocidade da transformação energética e digital. O que o cenário atual exige é uma agenda complementar: mais flexibilidade, melhor coordenação entre oferta e demanda e, principalmente, uma nova leitura sobre a geografia do consumo elétrico no Brasil.

    Dependendo do modelo de implantação, da natureza da carga e do ambiente regulatório, podem atuar como demanda qualificada, vetor de agregação de valor à energia renovável e elemento de atração de investimento produtivo para regiões com forte vocação energética. A discussão, portanto, não é se os data centers substituem transmissão, armazenamento ou planejamento elétrico. Não substituem. A discussão correta é outra: em que medida essa infraestrutura pode fazer parte de uma solução mais ampla, conectando transição energética, economia digital e competitividade.

QUANDO A ABUNDÂNCIA ENCONTRA O LIMITE DA INFRAESTRUTURA

    O curtailment ocorre quando parte da geração disponível precisa ser limitada por razões operativas. No caso brasileiro, isso aparece com frequência em situações de restrição de escoamento, quando a rede não consegue transportar integralmente a energia produzida até os centros de carga ou até outras regiões do sistema.

    Esse fenômeno tende a ganhar relevância em sistemas com elevada participação de fontes renováveis variáveis, especialmente quando a expansão da oferta ocorre em velocidade superior à ampliação da infraestrutura de transmissão. Nesses casos, o problema deixa de ser apenas energético e passa a ser também logístico, sistêmico e econômico.

    No Brasil, esse quadro é particularmente visível no Nordeste. A região reúne alguns dos melhores recursos eólicos e solares do mundo e se consolidou como uma das grandes fronteiras de expansão renovável do país. Ao mesmo tempo, boa parte dessa energia precisa percorrer longas distâncias para alcançar os principais centros de consumo. Quando a geração cresce e a rede opera próxima de seus limites, o ONS precisa restringir parte dessa produção para manter a segurança operativa do SIN. Do ponto de vista técnico, trata-se de uma medida necessária.

    Do ponto de vista econômico, porém, essa situação escancara uma ineficiência relevante. O país investe, instala capacidade, amplia sua base renovável, mas não consegue capturar integralmente o valor dessa energia quando ela está disponível. Esse é o ponto central.

    A partir daqui a discussão precisa evoluir. A transição energética não pode mais ser tratada apenas como expansão de megawatts instalados. Ela precisa ser entendida como uma agenda de coordenação entre geração, transmissão, armazenamento, consumo e inteligência operacional. Em outras palavras, não basta produzir mais energia limpa. É preciso criar condições para usá-la melhor.

APROXIMAR DEMANDA QUALIFICADA DOS POLOS DE GERAÇÃO

    A resposta de longo prazo para esse desafio passa, sem dúvida, pelo reforço da transmissão. Mas há uma agenda complementar que merece mais atenção: aproximar cargas intensivas dos polos de geração renovável, sempre que houver viabilidade técnica, econômica e locacional para isso.

    Esse raciocínio é especialmente importante quando falamos de cargas capazes de transformar eletricidade em valor agregado de forma intensiva e contínua. E é justamente nesse espaço que os data centers se destacam. Durante muito tempo, a lógica de localização dos data centers no Brasil esteve fortemente associada à proximidade dos grandes centros consumidores, à conectividade e à presença de ecossistemas digitais consolidados. Essa lógica continua válida para muitas aplicações, principalmente para aquelas mais sensíveis à latência e à interconexão local. Mas o avanço da nuvem, da inteligência artificial e do processamento de alto desempenho trouxe uma nuance importante para esse debate.

    Nem toda carga digital responde da mesma forma aos critérios locacionais. Aplicações transacionais, ambientes críticos de baixa latência e determinadas arquiteturas distribuídas continuam exigindo proximidade com usuários, redes e grandes hubs. Por outro lado, algumas cargas de trabalho associadas a treinamento de modelos, simulações, processamento em lote, analytics e outras rotinas assíncronas podem admitir maior flexibilidade geográfica.

    Essa distinção muda a qualidade da discussão. Ela abre espaço para pensar determinadas regiões com forte disponibilidade de energia renovável não apenas como exportadoras de eletricidade, mas também como possíveis polos de infraestrutura digital. A energia deixa de ser vista somente como insumo a ser transportado e passa a ser tratada como base para atividades capazes de gerar serviços digitais, capacidade computacional e maior densidade econômica.

DATA CENTERS COMO VETOR DE AGREGAÇÃO DE VALOR

    Existe uma percepção consolidada de que data center é, essencialmente, um problema de carga. Essa leitura não está errada, mas está incompleta. Data centers são, sim, infraestruturas intensivas em energia. Mas também são ativos capazes de atrair investimento, consolidar cadeias de engenharia e tecnologia, ampliar a demanda por conectividade, impulsionar serviços associados e inserir o país em segmentos de maior valor da economia digital.

    Em regiões com abundância renovável e limitações de escoamento, essa infraestrutura pode representar uma forma adicional de capturar valor localmente. Isso não significa defender que energia disponível, por si só, basta para atrair hyperscalers ou grandes operadores. Não basta. A decisão de investimento depende de uma combinação complexa de fatores: fibra, rotas de conectividade, backbone, ambiente regulatório, segurança, mão de obra, prazo de conexão, licenciamento e previsibilidade institucional.

    Mas também não faz sentido subestimar o peso da energia nesse contexto. Em empreendimentos intensivos em eletricidade, o acesso competitivo a uma base renovável robusta pode, sim, se tornar um diferencial estratégico relevante, sobretudo em um cenário global cada vez mais pressionado pela expansão da IA, da nuvem e do processamento de dados em larga escala.

    É por isso que o curtailment precisa ser enxergado para além da ótica estritamente operacional. Ele sinaliza uma perda econômica concreta, mas também revela uma oportunidade. Regiões com energia renovável abundante, quando combinadas com infraestrutura digital, conectividade e ambiente de negócios adequado, podem se posicionar de forma mais competitiva para receber ativos intensivos em energia e dados.

UMA NOVA INTERFACE ENTRE DATA CENTERS E SISTEMA ELÉTRICO

     Se os data centers passam a ter relevância maior nessa discussão, também será necessário atualizar a forma como essa infraestrutura se relaciona com o sistema elétrico. O modelo tradicional sempre foi baseado em uma lógica simples: máxima disponibilidade, alta redundância e consumo essencialmente rígido. Essa lógica continua válida do ponto de vista da missão crítica. Mas ela já não precisa ser tratada como única.

    Com a evolução tecnológica, ganha espaço a possibilidade de uma relação mais inteligente entre data centers e rede elétrica. É aí que conceitos como infraestrutura grid-interactive passam a fazer sentido. Na prática, isso significa incorporar capacidades de gestão energética mais sofisticadas, sem comprometer os requisitos de resiliência e continuidade que são inegociáveis nesse tipo de ambiente.

    Entre essas capacidades estão monitoramento avançado, automação, integração com armazenamento, resposta a sinais tarifários e, em alguns casos, maior modulação de cargas específicas. Data center não é carga convencional, e esse ponto precisa ser respeitado. Mas isso não impede que a infraestrutura evolua para um patamar de gestão energética mais inteligente e mais aderente à nova realidade do setor.

    Nesse contexto, os sistemas de armazenamento por baterias, ou BESS, assumem papel relevante. Tradicionalmente, a infraestrutura elétrica dos data centers esteve associada a UPS e geradores voltados à continuidade operacional. O avanço do armazenamento amplia esse horizonte ao permitir novas estratégias, como deslocamento de consumo no tempo, redução de demanda em horários críticos, reforço de resiliência e melhor coordenação com condições operativas e econômicas da rede.

    É importante fazer a ressalva correta: BESS não transforma automaticamente o data center em solução direta para o curtailment. Para isso, são necessários arranjos regulatórios, econômicos e operacionais adequados. Mas o armazenamento amplia a flexibilidade disponível para consumidores intensivos e pode ser parte importante de modelos mais inteligentes de uso da eletricidade. Ou seja, o papel da bateria deixa de ser apenas contingência e passa a incluir gestão energética.

FLEXIBILIDADE ELÉTRICA E FLEXIBILIDADE DIGITAL

    Além da camada elétrica, há outro ponto que merece atenção: a própria computação está se tornando mais flexível. Em ambientes digitais de grande escala, cresce a capacidade de orquestrar workloads no tempo e no espaço, a partir de critérios técnicos, econômicos e energéticos.

    Esse tema precisa ser tratado com precisão. Não se trata de afirmar que o setor elétrico passará a comandar diretamente a alocação de cargas computacionais. Tampouco seria correto sugerir que toda carga associada à inteligência artificial possa ser deslocada livremente entre regiões. A realidade é mais seletiva e mais sofisticada.

    O que se observa é a convergência entre ferramentas de orquestração, previsibilidade de oferta energética, custo de eletricidade e estratégias de eficiência operacional. Em arquiteturas maduras, determinadas cargas assíncronas, processamento em lote, treinamento de modelos e tarefas de alto consumo computacional podem ser direcionados para ambientes mais favoráveis em termos energéticos e econômicos.

    Essa possibilidade cria uma interface inédita entre flexibilidade digital e flexibilidade elétrica. Para um país com forte expansão renovável, assimetrias regionais de oferta e desafios de escoamento, essa convergência pode se tornar especialmente valiosa. Quanto maior a capacidade de coordenar o uso da energia com inteligência locacional e temporal, maior a chance de transformar variabilidade em eficiência.

REGULAÇÃO, PLANEJAMENTO E VISÃO DE LONGO PRAZO

    Para que essa agenda avance, tecnologia e mercado não bastam. É indispensável que a regulação e o planejamento acompanhem a complexidade dessa nova fase. O amadurecimento do debate sobre armazenamento, flexibilidade, modernização da rede e inserção de novas cargas estratégicas será determinante para abrir espaço a soluções mais sofisticadas.

    No caso dos data centers, previsibilidade regulatória é fator central. São investimentos intensivos em capital, de longo prazo e altamente dependentes de segurança jurídica, qualidade de conexão, estabilidade contratual e coordenação institucional. Se o Brasil pretende atrair empreendimentos digitais de grande porte para regiões com vocação renovável, precisará alinhar política energética, infraestrutura, telecomunicações, desenvolvimento regional e ambiente de negócios.

    A regulamentação do armazenamento tende a ser um dos pilares dessa agenda. Quanto maior a clareza sobre as possibilidades de inserção do BESS e sobre os mecanismos de valorização da flexibilidade, maior será a capacidade do sistema de incorporar arquiteturas energéticas mais eficientes e inteligentes. Para consumidores intensivos, isso pode abrir espaço para novos modelos operacionais e econômicos, mais alinhados com a transição energética em curso.

    Isso vale para políticas locacionais, instrumentos de atração de investimento e planejamento coordenado entre energia e infraestrutura digital. O Brasil reúne atributos relevantes: base renovável robusta, mercado digital em expansão, escala, posição regional estratégica e capacidade técnica. O desafio está em transformar esse conjunto de vantagens em uma estratégia coerente de longo prazo.

CONCLUSÃO

    O curtailment revela algo que vai além de uma restrição operacional do setor elétrico. Ele mostra que a próxima etapa da transição energética brasileira exigirá mais do que expansão da oferta renovável. Exigirá coordenação, flexibilidade, inteligência sistêmica e capacidade de transformar energia disponível em desenvolvimento efetivo.

    Nesse contexto, os data centers podem ocupar um papel mais estratégico do que normalmente se reconhece. Não porque substituam a expansão da transmissão ou resolvam sozinhos os desafios do sistema, mas porque podem integrar uma agenda mais ampla de agregação de valor à energia renovável, interiorização qualificada da demanda e fortalecimento da economia digital.  

    Ao aproximar parte do consumo intensivo de regiões com elevada disponibilidade renovável, o Brasil pode reduzir ineficiências, ampliar sua atratividade para investimentos, estimular novas cadeias produtivas e posicionar-se de forma mais competitiva em um ambiente global cada vez mais dependente de processamento, dados e inteligência artificial.

    O país já possui os recursos naturais, a escala e a capacidade técnica necessárias. O que falta, agora, é transformar essa possibilidade em direção estratégica. Se souber fazer isso, o Brasil poderá converter um problema hoje tratado como limitação em uma vantagem concreta de competitividade no futuro próximo.

*Alex Santiago de Paiva é especialista em Data Centers, eficiência energética e gestão de energia, com mais de 20 anos de experiência em TI e mais de 17 anos dedicados a ambientes de missão crítica. Sua atuação reúne experiência em infraestrutura crítica, sustentabilidade, modernização tecnológica e gestão energética aplicada a Data Centers. Atualmente, é Coordenador de Data Centers do Sicoob e presidente do Capítulo Brasília da Associação Brasileira de Data Center (ABDC).

Fonte: REVISTA O SETOR ELÉTRICO – OSE, DE 28/05/2026

Resumo das Notícias de Hoje

30/3/2026

Dia 30 de março de 2026, segunda-feira

- LEILÃO DE OUTUBRO (transmissão)

A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) já se organiza para o próximo certame de transmissão. A agência reguladora estima realizar a disputa em outubro. O secretário de leilões da autarquia, Ivo Nazareno, revelou que a contratação será de maior porte e os investimentos são estimados em R$ 22 bilhões.

> Continue a leitura em “Aneel: leilão de outubro tem investimento estimado em R$ 22 bilhões”: https://bit.ly/4ccO8WB

- TARIFAS DIFERENCIADAS PARA A MMGD (geração)

A Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Energia Elétrica apresentou esta semana proposta de aplicação de tarifas diferenciadas para a micro e minigeração distribuída. A ideia é que haja variação na tarifa de acordo com o momento em que o consumidor -gerador injetar ou consumir energia da rede.

> Saiba mais na matéria “Apine sugere tarifas diferenciadas para MMGD como solução para curtailment”: https://bit.ly/3NWfWVX

- RECLASSIFICAÇÃO DA UTE ARAUCÁRIA II (expansão)

A Âmbar Energia solicitou à Aneel a reclassificação da UTE Araucária II como empreendimento novo no leilão de capacidade (LRCAP). A medida alteraria o resultado do certame do último dia 18, ao ampliar o contrato de dez para 15 anos. A empresa pede, ainda, que a Aneel considere o preço-médio ofertado no produto potência termelétrica de 2028 para novos projetos.

> Leia mais em “Âmbar pede reclassificação da UTE Araucária II como projeto novo no LRCAP”: https://bit.ly/4v4o080

- EVENTOS (CanalEnergia)

MEETUP | Sistema em Crise: entre a Escassez Hídrica e aumento da Demanda de Energia

Foco da discussão

Data: 31 de março

Local: Online via Teams

Horário: 10h

Inscrições: https://events.teams.microsoft.com/event/4881bdc8-49cc-4518-9164-10a837a5b8ff@2567d566-604c-408a-8a60-55d0dc9d9d6b

- OUTRAS NOTÍCIAS DE HOJE

Engie e Cymi vencem 4 dos 5 lotes negociados no leilão de transmissão: https://bit.ly/3PCJCIf

Leilão de transmissão terminou com deságio médio de 50,69% o mais alto desde o certame realizado no início de 2020.

Eneva vende Pecem II para Diamante Energia: https://bit.ly/4lWeMq6

Térmica a carvão viabilizou contratos no LRCAP valor do negócio pode chegar a cerca de R$ 1 bilhão com antecipação da geração para leilão de potência.

Modernização de Tucuruí mobiliza R$ 1,5 bi em investimentos: https://bit.ly/4sGyIzV

Projeto da Axia Energia inclui renovação de geradores, reforço da infraestrutura elétrica e digitalização da operação.”

Fonte: CanalEnergia

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Leilão de Reserva de Capacidade - Caro ou barato?

30/3/2026

GESEL | Grupo de Estudo do Setor Elétrico - UFRJ

Nivalde de Castro
Roberto Brandão

Os provérbios são a sabedoria dos povos e é de fato verdade que "há males que vêm para o bem". Este é, na opinião dos autores, o caso do Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP), realizado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) nos dias 18 e 20 de março.

O certame, que contratou quase 20 gigawatts (GW) em disponibilidade de potência ao preço médio de R$ 267 por megawatt-hora (MWh), irá impor um custo fixo, a ser pago através da conta Encargo de Serviços do Sistema (ESS) por todos os consumidores de energia elétrica, tanto do mercado cativo quanto do mercado livre, de R$ 39 bilhões por ano, valor este indexado ao IPCA. Estima-se que serão investidos aproximadamente R$ 64,5 bilhões, o que indica que boa parte dos contratos diz respeito a usinas termoelétricas existentes.

A pergunta que se faz é: por que se contratou tanta potência, a um custo relativamente elevado e com a predominância de centrais termoelétricas de diferentes fontes não renováveis? Essas questões que o presente artigo pretende responder de forma objetiva e didática, a partir de uma visão geral.

A origem desse leilão começa quando o processo de transição energética a nível mundial passa a priorizar investimentos em usinas eólicas e solares, com o objetivo de descarbonizar a produção de energia elétrica, já que os insumos que movem essas unidades produtivas - vento e sol - são naturais, renováveis, não poluidores e genuinamente nacionais. Como resultado desse processo, o custo das gerações eólica e, principalmente, solar apresentou uma redução significativa, em grande medida por conta da inclusão dessas fontes no planejamento energético estratégico da China, resultando em ganhos de escala produtiva.

Observa-se que, para a China, a inclusão das fontes eólica e solar em seu planejamento energético estratégico decorre menos em razão da descarbonização e muito mais em decorrência da segurança energética, visando evitar as incertezas do mercado mundial de petróleo e gás, como a invasão da Ucrânia pela Rússia e os ataques dos EUA e de Israel ao Irã demonstram de forma crua.

No caso brasileiro, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) instituiu, em 2012, a figura da micro e minigeração distribuída, com a possibilidade de os consumidores compensarem a energia consumida pela energia que produzissem e injetassem na rede, que apoiou fundamentalmente o desenvolvimento da cadeia produtiva da indústria nascente da energia solar no País. Essa benesse, contudo, se fez através de subsídios cruzados, com a redução dos custos do uso do sistema de distribuição para os consumidores com painéis solares e repasse para aqueles do mercado cativo que não os possuíam.

Aqui, prevaleceu o provérbio nacional de que dar subsídio é fácil, mas retirá-lo é impossível. Em 2019, quando a Resolução Normativa da Aneel que trata sobre o tema previa uma redução gradual dos subsídios para micro e minigeração distribuída, um forte lobby, com a propaganda mentirosa de que "vão taxar o sol", conseguiu, no Congresso Nacional, aprovar uma lei que postergou para até 2045 a redução dos subsídios em modo "conta-gotas". Outro subsídio obsoleto, mas ainda em vigor no Setor Elétrico Brasileiro (SEB), é o incentivo às fontes renováveis, com descontos nas tarifas de distribuição e transmissão. As cadeias produtivas das fontes renováveis já são completamente maduras, porém os subsídios persistem e crescem até hoje.

Como resultado destes lobbies, o SEB passou a conviver com uma "corrida ao ouro" por subsídios instituídos através de leis aprovadas no Congresso, que são contaminadas por "jabutis" e que, ao fim, determinam o crescimento da participação dessas duas fontes renováveis na matriz elétrica brasileiro, cujos valores são pagos principalmente pelos consumidores do mercado cativo. Mas o que esses subsídios têm a ver com o LRCAP? Para elucidar essa questão, toma-se como exemplo a energia solar, que, tendo em vista as suas características técnicas, possibilita o seu aproveitamento por painéis solares residenciais até grandes plantas. Durante o dia, a geração de energia solar cresce a taxas impressionantes e, ao anoitecer, sai de cena. Forma-se, assim, uma situação chamada de "rampa", então enquanto a energia solar vai diminuindo, outras unidades geradoras precisam substitui-la para garantir o equilíbrio entre demanda e oferta.

Por sua vez, quanto mais investimentos são realizados em energia solar, mais a rampa fica íngreme. De tal forma, das 14h às 18h, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem que dispor de unidades geradoras de energia elétrica flexíveis para realizar a substituição da geração solar, através de uma operação do tipo "troca do pneu com o carro andando". Portanto, o ONS enfrenta o desafio diário de acionar unidades geradoras flexíveis para possibilitar a "subida a rampa".

Destaca-se que o crescimento dessas duas fontes não vem ocorrendo em função do aumento da demanda por energia elétrica, mas pela busca dos benefícios dos subsídios, de modo que o ONS, durante horas do dia, é obrigado a cortar (curtailment) a geração de energia elétrica para manter o equilíbrio entre oferta e demanda. Assim, a corrida ao ouro pelos subsídios:

  1. Aumenta a capacidade geradora acima da demanda;
  2. Obriga o ONS a impor curtailments com redução crescente da receita das unidades geradoras cortadas;
  3. Aumento na conta de luz para pagar os subsídios; e
  4. Coloca em risco a confiabilidade do suprimento de energia elétrica.

Deste enquadramento analítico bem didático, pode-se subtrair o problema mais grave, do ponto de vista da operação do sistema elétrico, que é a necessidade de substituir as unidades geradoras de energia solar (e eólica) por outras fontes, em especial no início da noite, período do dia em que a demanda de energia elétrica é mais intensa, chamado de horário de pico.

Esse problema de rampa só vem se agravando, conforme atestam os inúmeros estudos realizados pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e, principalmente, pelo ONS. Portanto, o LRCAP poderia já ter sido realizado, como não foi, a demora explica a quantidade de potência que foi contratada. Ademais, nota-se que o objetivo do LRCAP é proporcionar condições de flexibilidade operativa para o ONS manter a segurança do fornecimento de energia nacional. As usinas contratadas serão utilizadas principalmente para esse objetivo central, mas também podem ser um valioso recurso em períodos de escassez hídrica, haja vista que a crise climática tem reduzido a quantidade de chuvas no período úmido.

Diferentemente dos leilões de energia nova realizados até o início desta década, quando as concessionárias de distribuição estimavam as respectivas demandas para horizontes de até cinco anos (leilão de A-5) e enviavam suas projeções para o MME consolidar e realizar os certames, sem que os investidores tivessem informações sobre o quanto seria contratado, a quantidade a ser contratada pelo LRCAP foi mais transparente e embasada nos estudos da EPE e do ONS. O resultado da confluência da demora na realização do leilão com as informações de mais previsibilidade da quantidade a ser contratada explica, em grande parte, o baixo deságio em relação ao preço teto firmado para os lotes do certame.

No entanto, o custo anual de quase R$ 40 bilhões é o custo da segurança para que não haja apagões e o ONS disponha de recursos de flexibilidade para administrar as rampas diárias. Caro, é ficar sem energia, seja do ponto de vista econômico, seja, principalmente, do ponto de vista político, pois energia é uma variável muito sensível.

A título de conclusão, como resolver o problema do custo da energia, visto que o problema técnico tem nos leilões de reserva a sua solução? Pelo que foi exposto, o vilão da questão são os subsídios, em especial os abocanhados, em valores crescentes, pela energia solar. Contudo, a fraqueza do Poder Executivo frente aos lobbies que ganharam "corações e mentes" do Congresso Nacional dificulta a diminuição dessa conta. Ou seja, ali é onde está o problema, ali é onde está a solução.

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FRASE DA SEMANA

30/3/2026

“Os adjetivos passam e os substantivos ficam.”

Autor: Machado de Assis

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PARA LER COM CALMA

28/3/2026

Para quem está na correria e não conseguiu acompanhar os assuntos dessa semana, aqui vai um resumo:

Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP)

- Contratados 19,5 GW, com investimentos de R$ 65 bilhões. https://bit.ly/4btIAa2

- Incluiu pela primeira vez expansões de usinas hidrelétricas.

- Emissões anuais das usinas térmicas contratadas podem chegar a 40 MtCO₂. https://bit.ly/4bJDAgj

Controvérsias: J&F pediu anulação parcial do resultado e solicita a reabertura da fase de lances e o reprocessamento da fase competitiva dos produtos. https://bit.ly/4lULqZ9

Avaliação: Agentes destacam confiabilidade, mas alertam para custos e desafios operacionais. https://bit.ly/4bsE37L

Leilão de transmissão https://bit.ly/3PCJCIf

- Lotes 1 e 5: Cymi.

- Lotes 2 e 3: Engie (incluindo compensadores síncronos).

- Lote 4: Consórcio BR2ET.

Mercado Livre de Energia

Atratividade: https://bit.ly/41mLXJT

- Diferença entre ACL e ACR está diminuindo, reduzindo a atratividade do mercado cativo.

- Encargo de Cotas de Energia Nuclear agora rateado no mercado livre.

Recorde: Contratos no mercado livre atingiram volume histórico. https://bit.ly/4s1RFvL

Processos Regulatórios e Concessões

Enel SP:

- Justiça suspendeu deliberação da Aneel sobre caducidade, mas liminar foi cassada posteriormente. https://bit.ly/481Jngb

- Aneel está em fase prévia à instauração formal do processo. https://bit.ly/3Puwoxb

Light: Avanço na renovação de concessão, mas lucro caiu 87% em 2025. https://bit.ly/4t4NDUa / https://bit.ly/4sou8Gi

CNPE

- UHEs Reversíveis: Leilão de UHEs reversíveis pode ocorrer em 2027. https://bit.ly/4bwNMKs

- Angra 3: Decisão sobre continuidade das obras adiada (fora da pauta). https://bit.ly/4dFjhTN

Outros Destaques

- Preços de Energia: Fitch elevou projeções para 2026-2028 devido à hidrologia mais seca do que o esperado. https://bit.ly/4lPfRzT

- El Niño: Avanço em 2026 traz desafios adicionais. https://bit.ly/41q0iFw

- Hidrelétricas: UHE Tucuruí tem atuado como fonte de flexibilidade para o SIN. https://bit.ly/4uVsmhB

Fonte: CanalEnergia

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LEILÃO DE TRANSMISSÃO

28/3/2026

Leilão de transmissão: lote 1 fica com Cymi

Deságio oferecido sobre a RAP máxima ficou em 46,85%.

Saiba mais

O Lote 1 do leilão de transmissão foi arrematado pela Cymi que ofereceu RAP de R4 46,6 milhões, deságio de 46,85% sobre a RAP máxima de R$ 87.697.412,81. O Lote tem investimento projetado em pouco mais de R$ 528,8 milhões. O empreendimento leiloado é formado por:

  • LOTE 1, composto pelas seguintes instalações nos Estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais:
  • LT 230 KV Santa Cabeça – Nilo Peçanha C1, CS;
  • SE 230/138 KV Nilo Peçanha;
  • SE 500/138 KV Nova Extrema;
  • Trechos de LT 500 KV entre a SE Nova Extrema;
  • LT 500 KV Estreito; e
  • Fernão Dias C2.

Leilão de transmissão: lote 2 fica com a Engie

Deságio oferecido sobre a RAP máxima ficou em 46,89% ante o estabelecido pela Aneel.

Saiba mais

O Lote 2 do leilão de transmissão foi arrematado pela Engie que ofereceu RAP de R$ 18,1 milhões, deságio de 46,89% sobre a RAP máxima de R$ 34.152.530,30. O Lote tem investimento projetado em pouco mais de R$ 193,6 milhões.

O Lote é composto pela seguinte instalação nos estados do Paraná e Santa Catarina:

  • LT 230 KV Ponta Grossa – Canoinhas C1, CS

Leilão de transmissão: Engie arremata todo o Lote 3 com deságio de 54,83%

Deságio oferecido sobre a RAP máxima ficou em 54,83% ao arrematar os empreendimentos por sublote, Axia ofereceu deságio de 48,22% no lance consolidado.

Saiba mais

Todos os sublotes do Lote 3 do leilão de transmissão foram arrematados pela Engie. A companhia levou os empreendimentos no lance lote a lote, do A ao D. A empresa ofereceu R$ 22.817.987,58 pelo sublote A, R$ 20.636.101,60 pelo sublote B, R$ 39.599.369,24 pelo lote C e R$ 21.635.252,88 pelo sublote D. O deságio de todos ficou em 54,83% sobre a RAP máxima de R$ 231.749.512,31. O Lote 3 tem investimento projetado em pouco mais de R$ 1,3 bilhão. A Axia é que apresentou o menor valor  consolidado por todos os empreendimentos juntos com deságio de 48,22%.

O vencedor obteve o direito pelas seguintes instalações nos Estados do Rio Grande do Norte e Ceará:

Sublote 3 A:

  • SE 500 KV Ceará Mirim II 1 x Compensações Síncronas (-200/+300 Mvar)

Sublote 3 B:  

  • SE 500 KV Quixadá -1 x Compensação Síncrona (-200/+300 Mvar)

Sublote 3 C:

  • SE 500 KV Morada Nova -2 x Compensações Síncronas (-200/+300 Mvar)

Sublote 3 D:

  • SE 500 KV Açú III – 1x Compensação Síncrona (-200/+300 Mvar)

Leilão de transmissão Lote 4: Consórcio BR2ET oferece deságio de 37,89%

Consórcio BR2ET Transmissora apresentou R$ 25.563.777,00 de RAP pelo empreendimento localizado nos Estados da Bahia e Sergipe.

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O lote 4 da primeira etapa do leilão de transmissão ficou com o Consórcio BR2ET Transmissora que ofereceu RAP de R$ 25.563.777,00. Esse valor representa deságio de 37,89% sobre a RAP máxima estabelecida para o empreendimento que é de R$ 41.158.444,64.

O lote tem investimentos estimados de R$ 240 milhões. O ativo é formado por instalações nos Estados da Bahia e Sergipe:

  • LT 230 KV Olindina – Itabaianinha C1, CS, com 73,4 Km;
  • SE 230/69 KV Nossa Senhora da Glória II -2 x 150 MVA;
  • Trechos de LT 230 KV entre a SE Nossa Senhora da Glória II – e a LT 230 KV Paulo Afonso III – Itabaiana C2, com 2 x 20 Km. com

Leilão de transmissão lote 5 fica com a Cymi

O lote 5 do leilão de transmissão foi arrematado pela Cymi que ofereceu RAP de R$ 91,1 milhões, deságio de 50,89%.

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O lote do leilão de transmissão foi arrematado pela Cymi que ofereceu RAP de R$ 91,1 milhões, deságio de 50,89% sobre a RAP máxima de R$ 185.681.377,25. O Lote tem investimento projetado de R$ 1 bilhão. O empreendimento leiloado é formado pelas seguintes instalações no estado de Mato Grosso e Pará:

  • LT 230 KV Cláudia – Cachimbo C1, CS;
  • LT 230 KV Cachimbo – Novo Progresso C1, CS;
  • SE 500/230/138 KV Cláudia;
  • novo pátio 230 KV e transformação 500/230 KV, e novo pátio 138 KV e transformação 230/138 KV;
  • SE 230 KV Cachimbo e Compensação Síncrona;
  • SE 230/138 KV Novo Progresso e Compensação Síncrona.

Fonte: CanalEnergia

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