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FRAGMENTOS EXTRAÍDOS DA REVISTA O SETOR ELÉTRICO – OSE, DE 28/05/2026 (Continuação)

8/6/2026

- Data centers: a fronteira do setor elétrico

Curtailment no Brasil: como os data centers podem transformar energia represada em vantagens competitivas?

Por Alex Santiago

INTRODUÇÃO

    O setor elétrico brasileiro vive hoje uma contradição que precisa ser tratada com mais profundidade. Ao mesmo tempo em que o país amplia sua base renovável e consolida uma das matrizes mais limpas do mundo, cresce também a dificuldade de aproveitar integralmente essa energia. Em várias situações, o problema já não está apenas na capacidade de gerar, mas na capacidade de transmitir, absorver e usar essa energia de forma eficiente.

    É nesse contexto que o curtailment ganha centralidade no debate. Mais do que um evento operacional, ele passou a ser um sintoma claro do descompasso entre a expansão da geração renovável e a evolução da infraestrutura necessária para escoá-la e convertê-la em valor econômico. Em termos simples: o Brasil avança em geração limpa, mas ainda desperdiça parte relevante do potencial que cria.

    Esse tema se torna ainda mais importante quando observamos a dinâmica regional do setor. O crescimento da geração eólica e solar, especialmente no Nordeste, foi muito mais rápido do que a expansão da rede capaz de acomodar esse novo patamar de oferta. O resultado é conhecido pelos agentes do mercado: em determinados momentos, parte da energia disponível precisa ser cortada para preservar a segurança operativa do sistema.

    A resposta estrutural continua sendo a expansão da transmissão. Isso é indiscutível. Mas limitar o debate apenas a esse eixo talvez seja insuficiente diante da velocidade da transformação energética e digital. O que o cenário atual exige é uma agenda complementar: mais flexibilidade, melhor coordenação entre oferta e demanda e, principalmente, uma nova leitura sobre a geografia do consumo elétrico no Brasil.

    É exatamente nesse ponto que os data centers entram de forma mais relevante. Historicamente tratados apenas como grandes consumidores de energia, esses ativos podem assumir um papel mais estratégico na nova dinâmica do setor elétrico. Dependendo do modelo de implantação, da natureza da carga e do ambiente regulatório, podem atuar como demanda qualificada, vetor de agregação de valor à energia renovável e elemento de atração de investimento produtivo para regiões com forte vocação energética.

    A discussão, portanto, não é se os data centers substituem transmissão, armazenamento ou planejamento elétrico. Não substituem. A discussão correta é outra: em que medida essa infraestrutura pode fazer parte de uma solução mais disponível precisa ser cortada para preservar a segurança operativa do sistema. A resposta estrutural continua sendo a expansão da transmissão. Isso é indiscutível. Mas limitar o debate apenas a esse eixo talvez seja insuficiente diante da velocidade da transformação energética e digital. O que o cenário atual exige é uma agenda complementar: mais flexibilidade, melhor coordenação entre oferta e demanda e, principalmente, uma nova leitura sobre a geografia do consumo elétrico no Brasil.

    Dependendo do modelo de implantação, da natureza da carga e do ambiente regulatório, podem atuar como demanda qualificada, vetor de agregação de valor à energia renovável e elemento de atração de investimento produtivo para regiões com forte vocação energética. A discussão, portanto, não é se os data centers substituem transmissão, armazenamento ou planejamento elétrico. Não substituem. A discussão correta é outra: em que medida essa infraestrutura pode fazer parte de uma solução mais ampla, conectando transição energética, economia digital e competitividade.

QUANDO A ABUNDÂNCIA ENCONTRA O LIMITE DA INFRAESTRUTURA

    O curtailment ocorre quando parte da geração disponível precisa ser limitada por razões operativas. No caso brasileiro, isso aparece com frequência em situações de restrição de escoamento, quando a rede não consegue transportar integralmente a energia produzida até os centros de carga ou até outras regiões do sistema.

    Esse fenômeno tende a ganhar relevância em sistemas com elevada participação de fontes renováveis variáveis, especialmente quando a expansão da oferta ocorre em velocidade superior à ampliação da infraestrutura de transmissão. Nesses casos, o problema deixa de ser apenas energético e passa a ser também logístico, sistêmico e econômico.

    No Brasil, esse quadro é particularmente visível no Nordeste. A região reúne alguns dos melhores recursos eólicos e solares do mundo e se consolidou como uma das grandes fronteiras de expansão renovável do país. Ao mesmo tempo, boa parte dessa energia precisa percorrer longas distâncias para alcançar os principais centros de consumo. Quando a geração cresce e a rede opera próxima de seus limites, o ONS precisa restringir parte dessa produção para manter a segurança operativa do SIN. Do ponto de vista técnico, trata-se de uma medida necessária.

    Do ponto de vista econômico, porém, essa situação escancara uma ineficiência relevante. O país investe, instala capacidade, amplia sua base renovável, mas não consegue capturar integralmente o valor dessa energia quando ela está disponível. Esse é o ponto central.

    A partir daqui a discussão precisa evoluir. A transição energética não pode mais ser tratada apenas como expansão de megawatts instalados. Ela precisa ser entendida como uma agenda de coordenação entre geração, transmissão, armazenamento, consumo e inteligência operacional. Em outras palavras, não basta produzir mais energia limpa. É preciso criar condições para usá-la melhor.

APROXIMAR DEMANDA QUALIFICADA DOS POLOS DE GERAÇÃO

    A resposta de longo prazo para esse desafio passa, sem dúvida, pelo reforço da transmissão. Mas há uma agenda complementar que merece mais atenção: aproximar cargas intensivas dos polos de geração renovável, sempre que houver viabilidade técnica, econômica e locacional para isso.

    Esse raciocínio é especialmente importante quando falamos de cargas capazes de transformar eletricidade em valor agregado de forma intensiva e contínua. E é justamente nesse espaço que os data centers se destacam. Durante muito tempo, a lógica de localização dos data centers no Brasil esteve fortemente associada à proximidade dos grandes centros consumidores, à conectividade e à presença de ecossistemas digitais consolidados. Essa lógica continua válida para muitas aplicações, principalmente para aquelas mais sensíveis à latência e à interconexão local. Mas o avanço da nuvem, da inteligência artificial e do processamento de alto desempenho trouxe uma nuance importante para esse debate.

    Nem toda carga digital responde da mesma forma aos critérios locacionais. Aplicações transacionais, ambientes críticos de baixa latência e determinadas arquiteturas distribuídas continuam exigindo proximidade com usuários, redes e grandes hubs. Por outro lado, algumas cargas de trabalho associadas a treinamento de modelos, simulações, processamento em lote, analytics e outras rotinas assíncronas podem admitir maior flexibilidade geográfica.

    Essa distinção muda a qualidade da discussão. Ela abre espaço para pensar determinadas regiões com forte disponibilidade de energia renovável não apenas como exportadoras de eletricidade, mas também como possíveis polos de infraestrutura digital. A energia deixa de ser vista somente como insumo a ser transportado e passa a ser tratada como base para atividades capazes de gerar serviços digitais, capacidade computacional e maior densidade econômica.

DATA CENTERS COMO VETOR DE AGREGAÇÃO DE VALOR

    Existe uma percepção consolidada de que data center é, essencialmente, um problema de carga. Essa leitura não está errada, mas está incompleta. Data centers são, sim, infraestruturas intensivas em energia. Mas também são ativos capazes de atrair investimento, consolidar cadeias de engenharia e tecnologia, ampliar a demanda por conectividade, impulsionar serviços associados e inserir o país em segmentos de maior valor da economia digital.

    Em regiões com abundância renovável e limitações de escoamento, essa infraestrutura pode representar uma forma adicional de capturar valor localmente. Isso não significa defender que energia disponível, por si só, basta para atrair hyperscalers ou grandes operadores. Não basta. A decisão de investimento depende de uma combinação complexa de fatores: fibra, rotas de conectividade, backbone, ambiente regulatório, segurança, mão de obra, prazo de conexão, licenciamento e previsibilidade institucional.

    Mas também não faz sentido subestimar o peso da energia nesse contexto. Em empreendimentos intensivos em eletricidade, o acesso competitivo a uma base renovável robusta pode, sim, se tornar um diferencial estratégico relevante, sobretudo em um cenário global cada vez mais pressionado pela expansão da IA, da nuvem e do processamento de dados em larga escala.

    É por isso que o curtailment precisa ser enxergado para além da ótica estritamente operacional. Ele sinaliza uma perda econômica concreta, mas também revela uma oportunidade. Regiões com energia renovável abundante, quando combinadas com infraestrutura digital, conectividade e ambiente de negócios adequado, podem se posicionar de forma mais competitiva para receber ativos intensivos em energia e dados.

UMA NOVA INTERFACE ENTRE DATA CENTERS E SISTEMA ELÉTRICO

     Se os data centers passam a ter relevância maior nessa discussão, também será necessário atualizar a forma como essa infraestrutura se relaciona com o sistema elétrico. O modelo tradicional sempre foi baseado em uma lógica simples: máxima disponibilidade, alta redundância e consumo essencialmente rígido. Essa lógica continua válida do ponto de vista da missão crítica. Mas ela já não precisa ser tratada como única.

    Com a evolução tecnológica, ganha espaço a possibilidade de uma relação mais inteligente entre data centers e rede elétrica. É aí que conceitos como infraestrutura grid-interactive passam a fazer sentido. Na prática, isso significa incorporar capacidades de gestão energética mais sofisticadas, sem comprometer os requisitos de resiliência e continuidade que são inegociáveis nesse tipo de ambiente.

    Entre essas capacidades estão monitoramento avançado, automação, integração com armazenamento, resposta a sinais tarifários e, em alguns casos, maior modulação de cargas específicas. Data center não é carga convencional, e esse ponto precisa ser respeitado. Mas isso não impede que a infraestrutura evolua para um patamar de gestão energética mais inteligente e mais aderente à nova realidade do setor.

    Nesse contexto, os sistemas de armazenamento por baterias, ou BESS, assumem papel relevante. Tradicionalmente, a infraestrutura elétrica dos data centers esteve associada a UPS e geradores voltados à continuidade operacional. O avanço do armazenamento amplia esse horizonte ao permitir novas estratégias, como deslocamento de consumo no tempo, redução de demanda em horários críticos, reforço de resiliência e melhor coordenação com condições operativas e econômicas da rede.

    É importante fazer a ressalva correta: BESS não transforma automaticamente o data center em solução direta para o curtailment. Para isso, são necessários arranjos regulatórios, econômicos e operacionais adequados. Mas o armazenamento amplia a flexibilidade disponível para consumidores intensivos e pode ser parte importante de modelos mais inteligentes de uso da eletricidade. Ou seja, o papel da bateria deixa de ser apenas contingência e passa a incluir gestão energética.

FLEXIBILIDADE ELÉTRICA E FLEXIBILIDADE DIGITAL

    Além da camada elétrica, há outro ponto que merece atenção: a própria computação está se tornando mais flexível. Em ambientes digitais de grande escala, cresce a capacidade de orquestrar workloads no tempo e no espaço, a partir de critérios técnicos, econômicos e energéticos.

    Esse tema precisa ser tratado com precisão. Não se trata de afirmar que o setor elétrico passará a comandar diretamente a alocação de cargas computacionais. Tampouco seria correto sugerir que toda carga associada à inteligência artificial possa ser deslocada livremente entre regiões. A realidade é mais seletiva e mais sofisticada.

    O que se observa é a convergência entre ferramentas de orquestração, previsibilidade de oferta energética, custo de eletricidade e estratégias de eficiência operacional. Em arquiteturas maduras, determinadas cargas assíncronas, processamento em lote, treinamento de modelos e tarefas de alto consumo computacional podem ser direcionados para ambientes mais favoráveis em termos energéticos e econômicos.

    Essa possibilidade cria uma interface inédita entre flexibilidade digital e flexibilidade elétrica. Para um país com forte expansão renovável, assimetrias regionais de oferta e desafios de escoamento, essa convergência pode se tornar especialmente valiosa. Quanto maior a capacidade de coordenar o uso da energia com inteligência locacional e temporal, maior a chance de transformar variabilidade em eficiência.

REGULAÇÃO, PLANEJAMENTO E VISÃO DE LONGO PRAZO

    Para que essa agenda avance, tecnologia e mercado não bastam. É indispensável que a regulação e o planejamento acompanhem a complexidade dessa nova fase. O amadurecimento do debate sobre armazenamento, flexibilidade, modernização da rede e inserção de novas cargas estratégicas será determinante para abrir espaço a soluções mais sofisticadas.

    No caso dos data centers, previsibilidade regulatória é fator central. São investimentos intensivos em capital, de longo prazo e altamente dependentes de segurança jurídica, qualidade de conexão, estabilidade contratual e coordenação institucional. Se o Brasil pretende atrair empreendimentos digitais de grande porte para regiões com vocação renovável, precisará alinhar política energética, infraestrutura, telecomunicações, desenvolvimento regional e ambiente de negócios.

    A regulamentação do armazenamento tende a ser um dos pilares dessa agenda. Quanto maior a clareza sobre as possibilidades de inserção do BESS e sobre os mecanismos de valorização da flexibilidade, maior será a capacidade do sistema de incorporar arquiteturas energéticas mais eficientes e inteligentes. Para consumidores intensivos, isso pode abrir espaço para novos modelos operacionais e econômicos, mais alinhados com a transição energética em curso.

    Isso vale para políticas locacionais, instrumentos de atração de investimento e planejamento coordenado entre energia e infraestrutura digital. O Brasil reúne atributos relevantes: base renovável robusta, mercado digital em expansão, escala, posição regional estratégica e capacidade técnica. O desafio está em transformar esse conjunto de vantagens em uma estratégia coerente de longo prazo.

CONCLUSÃO

    O curtailment revela algo que vai além de uma restrição operacional do setor elétrico. Ele mostra que a próxima etapa da transição energética brasileira exigirá mais do que expansão da oferta renovável. Exigirá coordenação, flexibilidade, inteligência sistêmica e capacidade de transformar energia disponível em desenvolvimento efetivo.

    Nesse contexto, os data centers podem ocupar um papel mais estratégico do que normalmente se reconhece. Não porque substituam a expansão da transmissão ou resolvam sozinhos os desafios do sistema, mas porque podem integrar uma agenda mais ampla de agregação de valor à energia renovável, interiorização qualificada da demanda e fortalecimento da economia digital.  

    Ao aproximar parte do consumo intensivo de regiões com elevada disponibilidade renovável, o Brasil pode reduzir ineficiências, ampliar sua atratividade para investimentos, estimular novas cadeias produtivas e posicionar-se de forma mais competitiva em um ambiente global cada vez mais dependente de processamento, dados e inteligência artificial.

    O país já possui os recursos naturais, a escala e a capacidade técnica necessárias. O que falta, agora, é transformar essa possibilidade em direção estratégica. Se souber fazer isso, o Brasil poderá converter um problema hoje tratado como limitação em uma vantagem concreta de competitividade no futuro próximo.

*Alex Santiago de Paiva é especialista em Data Centers, eficiência energética e gestão de energia, com mais de 20 anos de experiência em TI e mais de 17 anos dedicados a ambientes de missão crítica. Sua atuação reúne experiência em infraestrutura crítica, sustentabilidade, modernização tecnológica e gestão energética aplicada a Data Centers. Atualmente, é Coordenador de Data Centers do Sicoob e presidente do Capítulo Brasília da Associação Brasileira de Data Center (ABDC).

Fonte: REVISTA O SETOR ELÉTRICO – OSE, DE 28/05/2026

Resumo das Notícias de Hoje

1/12/2025

Dia 01 de dezembro de 2025, segunda-feira

- MONITORAMENTO DE MERCADO E GESTÃO DE RISCOS  (comercialização)

Durante o Encontro Anual do Mercado Livre de Energia, realizado na última quinta-feira, 27 de novembro, em Campinas, São Paulo, o conselheiro de administração da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE), Eduardo Rossi, destacou alguns avanços e desafios no mercado de energia. O executivo enfatizou a relevância de fortalecer os mecanismos de monitoramento do mercado e implementar uma estrutura de gestão de riscos para garantir crescimento sustentável e transparência.

> Continue a leitura na matéria “CCEE avança em monitoramento de mercado e gestão de riscos”: https://bit.ly/3Y02X76

- NOVO ESTUDO DO PDE 203 (expansão)

Um novo estudo do Plano Decenal de Expansão de Energia 2035 (PDE 2035) prevê queda da dependência externa de derivados de petróleo na próxima década. Conforme os dados, o Brasil deverá ampliar sua condição de exportador líquido nos próximos dez anos, alcançando 2,7 milhões de barris por dia em 2035. Assim, a análise indica que o volume expressivo de óleo cru poderá elevar ainda mais a importância do país no quadro geopolítico global do petróleo.

> Saiba mais em “EPE vê queda da dependência externa de derivados de petróleo em dez anos”: https://bit.ly/48dwvUV

- RESERVATÓRIOS, CARGA E CMO  (operação)

O mês de dezembro começa com a previsão de aumento no volume acumulado nos reservatórios do Sudeste/Centro Oeste. De acordo com dados apresentados pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico, a região deverá fechar 2025 com 45,7% ante os atuais 41,9%. A previsão foi apresentada no segundo dia da reunião mensal do último PMO deste ano. No Nordeste a previsão também é de aumento, chegando a 48,5%. Enquanto isso no Sul e no Norte a estimativa do ONS é de retração. Os submercados deverão marcar 65,8% e 54,6%, respectivamente.

> Leia mais na notícia “Reservatórios no Sudeste devem terminar ano em 45,7%”: https://bit.ly/4pb8HXy”

- OUTRAS NOTÍCIAS DE HOJE

Com foco em bioprodutos, Petrobras coloca eólicas e solares no fim da fila: https://bit.ly/48IxQTH

Celesc estuda alienação de novos ativos: https://bit.ly/4ajokrq

Os Desafios da Eólica Offshore no Brasil: Transformar Potencial em Progresso: https://bit.ly/4pA6dlo

Fonte: Canal Energia

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FRAGMENTOS EXTRAÍDOS DO EAMIL – ENCONTRO ANUAL DO MERCADO LIVRE – 26 – 27 NOVEMBRO 2025

1/12/2025

- Setor elétrico aponta flexibilidade, liquidez e segurança de mercado como prioridades após encerramento do EAML 2025

CONFIRA A COBERTURA DO 2º DIA!

Especialistas destacam novos modelos de negócio, avanço regulatório e necessidade de fortalecer redes e mecanismos de risco

Campinas, 27 de novembro de 2025 – Os debates finais do Encontro Anual do Mercado Livre de Energia (EAML 2025), organizado pela Informa Markets em coorganização com a Associação Brasileira de Comercializadores de Energia – ABRACEEL, mostraram que o próximo ciclo do setor elétrico brasileiro será definido por três pilares: flexibilidade, liquidez e segurança de mercado. As discussões reuniram análises técnicas, comparações internacionais e avaliações estruturais sobre os desafios da abertura total.

Luiz Maurer, consultor internacional em estratégia energética, afirmou que o Brasil precisará adotar múltiplos modelos de negócio para lidar com a variabilidade das fontes renováveis. Segundo ele, baterias, resposta da demanda e usinas reversíveis terão papéis complementares. “Flexibilidade é a capacidade de equilibrar oferta e demanda em todos os horizontes de tempo. Não há solução única. É um conjunto de ferramentas”, destacou.

A experiência internacional foi reforçada por Alex Cruickshank, representante da Oakley Greenwood e integrante da Conferência Internacional de Grandes Redes Elétricas (CIGRE). Ele apresentou o caso australiano, país que opera com trinta e cinco por cento de energias renováveis e enfrenta pressões severas sobre uma rede extensa e com baixa densidade populacional. “Flexibilidade tornou-se uma necessidade sistêmica. Quando a demanda cresce e a rede está no limite, a capacidade de adaptação define a segurança elétrica”, afirmou.

A Colômbia também trouxe sua visão. Diana María Pérez Orozco, da XM, explicou que a modernização do mercado colombiano e o reforço das redes são condições indispensáveis para que mecanismos de flexibilidade funcionem. “O recurso existe, mas sem modernização regulatória, fortalecimento da transmissão e integração de serviços, o benefício não chega ao sistema”, avaliou.

Do lado brasileiro, João Guillaumon, vice-presidente de Clientes e Comercialização da Auren Energia, destacou que a matriz nacional mudou rapidamente e exige redistribuição da flexibilidade ao longo de toda a cadeia. Ele lembrou que a participação das hidrelétricas caiu, enquanto eólica e solar avançaram, com forte peso da geração distribuída. “Vamos precisar de baterias, reversíveis e novos sinais econômicos para os consumidores. A flexibilidade tem que ser distribuída para que o sistema responda de forma eficiente”, disse.

A agenda de segurança de mercado ganhou espaço com a avaliação de Eduardo Rossi, conselheiro da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). Ele detalhou as etapas do monitoramento prudencial, a estrutura de salvaguardas financeiras e os efeitos da nova lei que responsabiliza agentes e gestores. “Segurança de mercado não se resolve com uma medida única. São várias camadas que constroem estabilidade e confiança”, afirmou.

O tema da liquidez e da estrutura de atacado também avançou. Dri Barbosa, CEO da N5X, destacou que modelos com contrapartida central aumentam previsibilidade e reduzem fricções. “Ambientes padronizados ampliam liquidez e permitem que compradores e vendedores operem com mais eficiência”, explicou.

Na visão jurídica e operacional, Camila Salvetti Mosaner Batich, CEO da BBCE, reforçou entregas recentes relacionadas à supervisão, liquidação multilateral e atualização contratual. Ela lembrou que o ajuste do contrato padrão e a estrutura de liquidação reduzem complexidade e fortalecem a gestão de risco. “Segurança precisa ser equilibrada. É isso que sustenta a expansão sustentável desse mercado”, afirmou.

Ao final dos debates, o setor deixou claro que o próximo ciclo de abertura exigirá coordenação entre regulação, mercado, operação e infraestrutura. Flexibilidade, liquidez e segurança formam a base das decisões que orientarão consumidores, agentes e investidores nos próximos anos.

- Integração energética no Cone Sul: países defendem avanços para garantir segurança e competitividade

Painel do EAML 2025 revela desafios físicos, comerciais e regulatórios para ampliar intercâmbio de energia na América Latina

No Encontro Anual do Mercado Livre de Energia (EAML 2025), líderes do setor energético da Argentina, Paraguai, Uruguai e Brasil destacaram que a integração regional é estratégica para garantir segurança de abastecimento e reduzir custos, mas ainda enfrenta barreiras físicas, comerciais e regulatórias.

Juan Alberto Luchilo, da Cammesa (Argentina), afirmou que as condições de intercâmbio melhoraram nos últimos anos, mas ainda existem limitações estruturais. Ele explicou que o fluxo com o Brasil tem maior potencial, operando por meio de ofertas semanais e suporte emergencial, enquanto conexões com Chile e Bolívia permanecem restritas. “A integração depende de acordos bilaterais amplos e maior previsibilidade entre países”, destacou.

Do Paraguai, Fábio Lucantonio alertou que o país pode atingir o limite de geração entre 2029 e 2030 e defendeu a integração bidirecional com o Brasil como alternativa mais rápida e eficiente do que construir novas usinas. Hoje, a linha permite envio de energia ao Brasil, mas não o fluxo inverso — algo que deve mudar em 2029 com a conversão de frequência nos dois sentidos. “O custo de integração física é menor que o custo de novas usinas”, afirmou.

Andrés Osta, do Ministério da Indústria, Energia e Mineração do Uruguai, reforçou que o país depende das interconexões para garantir segurança em momentos críticos. Com demanda de 2.300 MW e interligações de 2.000 MW com a Argentina e 570 MW com o Brasil, o Uruguai poderia suprir todo seu consumo via vizinhos. Osta defendeu ajustes regulatórios para permitir importações mais baratas e sugeriu mecanismos de compensação para equilibrar impactos internos. “Precisamos evoluir para modelos supranacionais que garantam cumprimento de acordos”, disse.

Representando o Brasil, Cristiano Augusto Trein, do MME, destacou que a integração exige infraestrutura robusta e fortalecimento de acordos bilaterais. Ele lembrou que o Brasil já mantém contratos ativos com o Paraguai e defendeu visão de longo prazo para não comprometer oportunidades futuras. “Confiabilidade é o elemento central da integração”, afirmou.

O painel concluiu que, para avançar, a região precisa combinar investimentos em infraestrutura, ajustes regulatórios e maior coordenação política, criando um ambiente que permita trocas firmes e aproveite complementaridades energéticas. Com isso, a integração poderá evoluir de operações emergenciais para um modelo estruturado, garantindo segurança e competitividade para todos os países.

- Digitalização, IA e Open Energy: varejo elétrico brasileiro entra em nova era no EAML 2025

Painel revela como tecnologia, integração de sistemas e medidores inteligentes vão redefinir a experiência do consumidor

No painel Varejo e Novas Tecnologias, especialistas apontaram que o avanço do varejo elétrico no Brasil depende de três pilares: digitalização completa dos processos, integração tecnológica e uso estratégico da inteligência artificial.

Tomás Baldaque, da EDP Brasil, destacou que a IA só gera valor quando os processos estão digitalizados e os sistemas integrados. A empresa já aplica modelos preditivos para falhas em rooftops solares, análise de tom de voz em atendimentos e algoritmos que ajustam margens comerciais conforme flutuações de preço. “Para a IA funcionar, antes precisamos garantir que todos os processos estejam digitalizados”, afirmou.

Luciano Benelli, da Paradigma, reforçou que a integração com as novas APIs da CCEE é decisiva para destravar o varejo. Ele apontou que as plataformas evoluíram para organizar toda a jornada do cliente e antecipou que o setor está próximo de adotar modelos de marketplace. A Paradigma também desenvolve IA reativa para automatizar consultas e ações, além de avatares virtuais para executar tarefas repetitivas.

Danilo Barbosa, da Way2, afirmou que o impacto da IA será transversal, com aplicações que vão desde análise de perfis tarifários até interpretação de faturas digitalizadas. Ele ressaltou que o avanço real depende do acesso direto aos dados do consumidor, previsto na minuta de Open Energy, com implementação a partir de 2027. “Com dados acessíveis via APIs, o setor deixa de digitalizar faturas e passa a criar valor sobre uma base estruturada”, disse.

O painel também trouxe visão internacional com Alex Cruickshank, da Oakley Greenwood, que destacou o papel da IA na integração de veículos elétricos e baterias, garantindo automação para responder a preços e condições da rede. Ele lembrou que o Brasil já discute a figura do Operador de Sistema de Distribuição (DSO), essencial para coordenar recursos energéticos distribuídos.

Por fim, Alexandre Vidal, da EY, afirmou que o Brasil está pronto para avançar com medidores inteligentes. Segundo ele, obstáculos históricos como custo e padronização foram superados, e a capacidade industrial permitiria substituir todos os medidores do país em até quatro anos. “Todos os aspectos técnicos e industriais estão prontos. Falta apenas consolidar o avanço regulatório”, afirmou.

Com IA, dados abertos e infraestrutura digital, o varejo elétrico brasileiro se prepara para uma transformação que promete mais eficiência, personalização e competitividade, conectando o consumidor às tendências globais.

- Segurança, liquidez e novos modelos: Brasil prepara terreno para abertura total do mercado livre

Painel do EAML 2025 revela estratégias para garantir estabilidade, ampliar competitividade e acelerar inovação no setor elétrico

No painel Segurança e Estruturas de Mercado, especialistas nacionais e internacionais destacaram que a consolidação do mercado livre brasileiro exige segurança regulatória, liquidez e novos modelos de negócio para enfrentar os desafios da abertura total e da transição energética.

Laurent Nery, da ENGIE Global Markets, trouxe a experiência europeia, lembrando que a formação de mercados elétricos competitivos leva décadas e depende de evolução regulatória contínua. Ela citou mecanismos como mercados de longo prazo, day-ahead e intraday, além de interconexões robustas que garantem estabilidade. “Liquidez cresce devagar, mas cresce porque mais players precisam atuar”, afirmou. Nery também destacou que a crise energética de 2022, com preços chegando a €1.000/MWh, reforçou o papel das interconexões e da cooperação regulatória para evitar colapsos.

Do lado brasileiro, Eduardo Rossi, da CCEE, detalhou avanços em segurança de mercado, como critérios de entrada e saída de agentes, monitoramento prudencial e salvaguardas financeiras. Ele ressaltou que a nova Lei 15.269 consolida a competência da CCEE para aplicar sanções e exigir garantias, além de responsabilizar gestores por prejuízos. “A abertura precisa acontecer sem surpresas e com robustez para proteger consumidores e agentes”, afirmou.

Dri Barbosa, da N5X, defendeu a adoção da contrapartida central para ampliar liquidez e reduzir risco, citando exemplos do Japão e da Europa. “Quando a bolsa assume o papel de compradora de todos os vendedores e vendedora de todos os compradores, a liquidez cresce e as barreiras de crédito desaparecem”, disse. A N5X desenvolve modelos de risco com apoio da EXX, Nodal e B3 para acelerar a maturidade do mercado brasileiro.

Na mesma linha, Camila Salvetti, da BBCE, apresentou ações para reforçar segurança jurídica e operacional, como supervisão integral dos negócios, liquidação multilateral que reduziu volumes financeiros de R$170 milhões para R$23 milhões e atualização do contrato padrão após dez anos. A BBCE também lançou metodologia de risco construída com participação dos agentes.

O painel abordou ainda a necessidade de novos modelos para flexibilidade e uso de baterias, tema apresentado pelo consultor internacional Luiz Maurer. Ele destacou que países avançados adotaram múltiplos arranjos comerciais, enquanto o Brasil ainda concentra a discussão em poucos formatos. “Bateria é um canivete suíço. Precisamos aprender a operar esse novo conjunto de tecnologias e testar diferentes abordagens”, afirmou.

Com foco em segurança, liquidez e inovação, o EAML 2025 reforça que a abertura total do mercado livre brasileiro será sustentável apenas com bases sólidas e modelos adaptados às novas demandas da transição energética.

- Flexibilidade elétrica vira prioridade: Brasil e América Latina correm para evitar riscos operacionais

Painel do EAML 2025 mostra que baterias, sinais de preço e agregadores serão decisivos para garantir equilíbrio e segurança

No painel Mercados de Flexibilidade e o Papel do Comercializador, especialistas alertaram que a transição energética acelerada exige flexibilidade sistêmica para lidar com a variabilidade das fontes renováveis e evitar riscos operacionais. Países como Brasil, Austrália e Colômbia compartilham desafios semelhantes, mas com diferentes graus de urgência.

Alex Cruickshank, da Oakley Greenwood, trouxe a experiência australiana, onde 35% da matriz já é renovável e redes regionais operam no limite. Ele defendeu coordenação avançada, digitalização e automação para integrar baterias, veículos elétricos e recursos distribuídos. “A flexibilidade deixou de ser opção. É uma necessidade sistêmica”, afirmou.

Na Colômbia, Diana María Pérez, da XM, destacou que a dependência hídrica aumenta vulnerabilidade em períodos de seca e que o país avança na definição do modelo de participação do armazenamento e na preparação de novos leilões. “Flexibilidade depende de recursos, serviços e regras que permitam que os dois funcionem”, disse.

Do lado brasileiro, João Guillaumon, da Auren Energia, apontou que a participação das hidrelétricas caiu de 65% para 45% em cinco anos, enquanto solar e eólica somam 40%. Ele defendeu uso combinado de baterias, hidrelétricas reversíveis e novos sinais de preço para consumidores cativos. “Adiar decisões compromete a segurança energética futura”, alertou.

Maria Cândida, do ONS, reforçou a urgência: a curva do pato, prevista para 2027, já se tornou realidade em 2025. Em agosto, um vale de carga exigiu corte quase total da geração solar e eólica e uso de reservas operativas. “Pequenos montantes isolados não resolvem. Precisamos de agentes capazes de consolidar volumes e fornecer flexibilidade de verdade”, afirmou. Ela listou três prioridades: resposta da demanda, expansão do armazenamento e agregadores para reunir cargas e geração distribuída.

O painel concluiu que flexibilidade é o novo eixo estratégico do setor elétrico, exigindo ação conjunta entre operação, reguladores e mercado. Com sinais econômicos claros, digitalização e modelos inovadores, o Brasil pode transformar um desafio urgente em oportunidade para consolidar um sistema mais seguro e eficiente.

Fonte: EAMIL – ENCONTRO ANUAL DO MERCADO LIVRE – 26 E 27 / NOVEMBRO 2025

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Entenda proibição do Banco Central que pode fazer Nubank mudar de nome

1/12/2025

Entrou em vigor na semana passada uma nova norma do Conselho Monetário Nacional (CMN) que proíbe instituições não bancárias de usarem os termos “banco” ou “bank” em seus nomes empresariais, marcas, sites ou qualquer forma de apresentação pública. A medida, anunciada pelo Banco Central, atinge principalmente fintechs e empresas de tecnologia com atuação financeira, mas sem licença bancária formal. A nova diretriz busca evitar que consumidores sejam induzidos ao erro sobre a natureza e o escopo de atuação dessas instituições. A mudança é vista como uma forma de reforçar a transparência, proteger o usuário e acompanhar a evolução dos modelos de negócio no setor financeiro. A regra também padroniza o uso de termos regulados e mitiga riscos ao sistema financeiro nacional. Nubank e Pagbank estão entre as instituições que devem se adequar.

Fonte: Desperta | exame de 01/12/2025

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FRASE DO DIA

1/12/2025

“A simplicidade é o último grau da sofisticação.”

Autor: Leonardo da Vinci

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PARA LER COM CALMA

29/11/2025

Para quem está na correria e não conseguiu acompanhar os assuntos dessa semana, aqui vai um resumo:

COP 30 e Sustentabilidade

- A COP 30 encerrou com o "Pacote de Belém", triplicando o financiamento climático, mas sem consenso sobre o Mapa do Caminho para abandonar combustíveis fósseis.  https://bit.ly/4rm5cz1

- O presidente Lula e a ministra Marina Silva destacaram a dificuldade em avançar em soluções práticas.  https://bit.ly/47ZARin

- Incêndio na Blue Zone atrasou negociações, mas 195 países aprovaram o acordo final.  https://bit.ly/4rm5cz1

Política e Regulação

- Lei 15.269/2025 (conversão da MP 1.304):

> Abre o mercado livre de energia, mas gera preocupação com judicialização devido ao veto ao ressarcimento de curtailment para renováveis. https://bit.ly/48BG7Zu

> [análise da Comunidade] Mantém desconto na TUSD para quem já tem o benefício, mas restrições para novas migrações ao ACL.

- TCU recomendou ao MME evitar novas consultas públicas sobre o Leilão de Reserva de Capacidade (LRCAP) para agilizar processos. https://bit.ly/4prslyf

- Aneel recomendou prorrogação dos contratos das distribuidoras Neoenergia Elektro e CPFL Paulista.  https://bit.ly/4oZbMKt

Estudos e Expansão

- EPE registrou recorde de pedidos (6,4 GW) para conexão de data centers após redução tributária via REDATA.  https://bit.ly/3XBumfH

- Térmicas a biocombustíveis e captura de carbono (CCS) foram incluídas no PDE 2035, com investimentos estimados entre R$ 3 mil e R$ 5 mil por kW.  https://bit.ly/43SaE2H

- ABGD divulgou um estudo que a cada R$ 1 investido em micro e minigeração distribuída (MMGD) agrega R$ 1,60 ao PIB brasileiro. https://bit.ly/3M0hNb4

Mercado e Consumidor

- CCEE destacou a abertura total do mercado como "marco histórico", promovendo competitividade e transição energética.  https://bit.ly/4pxO1sD

- Consumidores estão mais exigentes, com maior conscientização sobre sustentabilidade e eficiência energética.  https://bit.ly/4p3aZrJ

- Tarifas no Piauí terão aumento médio de 13,57%.  https://bit.ly/4ojoJ0n

- Petrobras acelerou agenda de transição energética, enquanto Eletronuclear priorizou a retomada de Angra 3.  https://bit.ly/48mM6jw e https://bit.ly/4oufJWw

- GNA prepara estratégia para o LRCAP 2026, com foco no Porto do Açu (RJ).  https://bit.ly/4p9N0qY

Fonte: CanalEnergia

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